O holandês Clarence Seedorf assumiu o comando técnico do Corinthians e o executivo Marcelo Paz foi demitido no pior momento do clube desde o rebaixamento, em 2007, devido a uma crise financeira, institucional e esportiva que só se aprofundou nos últimos meses.
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O Corinthians acumula nove jogos seguidos sem vencer no Campeonato Brasileiro, a um ponto acima do Internacional, o primeiro time da zona do rebaixamento; acumula atrasos de salários, direitos de imagem e premiações; não pode contratar reforços devido a três transfer bans; e dirigentes são pressionados não só em razão dos péssimos resultados, mas também por problemas administrativos.
Marcelo Paz é demitido do Corinthians após maus resultados
O Corinthians convive com denúncias e investigações de irregularidades e instabilidade política desde 2024, na gestão do ex-presidente Augusto Melo. Ele sofreu impeachment, sendo substituído por Osmar Stabile, que está no cargo desde maio de 2025.
Mesmo assim, o time conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil de 2025 e a Supercopa Rei de 2026. Neste ano, porém, a queda no desempenho esportivo coincidiu com o aprofundamento da crise fora de campo.
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Demissão de diretor
No capítulo mais recente da crise, Stabile demitiu Paz, dias depois de o executivo bancar a contratação de Seedorf para ser o técnico. O holandês não treinava uma equipe havia sete anos e estreou, assistindo ao jogo da arquibancada por ainda não estar regularizado, no empate com o Vitória.
Com pouca autonomia para tocar o departamento de futebol, em razão dos recuos de Stabile, Paz caiu porque passou a ter a demissão pedida pela torcida organizada Gaviões da Fiel e perdeu a confiança de parte do elenco. Jogadores estavam insatisfeitos com o dirigente, especialmente na interlocução sobre os problemas administrativos e financeiros do clube.
Eles se sentiam desprotegidos em meio à péssima sequência em campo, iniciada em 16 de agosto, data da primeira das oito derrotas seguidas no Brasileirão.
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Insatisfação com o presidente
O desabafo recente do zagueiro Gabriel Paulista se tornou a demonstração pública da insatisfação do elenco. Na visão dos jogadores, Stabile não protege o time e não é confiável, porque não dialoga com as lideranças para explicar os atrasos em pagamentos e, quando faz, não cumpre os prazos dos acordos.
O clima ruim no CT Joaquim Grava, permeado pelos problemas administrativos do clube, pelas dificuldades financeiras e pela sequência negativa, fez até o presidente da torcida organizada Gaviões da Fiel se mostrar surpreso na saída de uma reunião com os atletas, porque nunca tinha visto "jogador desabafar tanto quanto eles desabafaram".
Neste ano, o Corinthians começou a atrasar os pagamentos ao elenco masculino em maio, em uma situação que se tornou recorrente de lá para cá.
Os salários, registrados na carteira de trabalho, têm sido frequentemente pagos com dias de atraso - chegou a uma semana certa vez.
Além disso, a diretoria deve premiações da Conmebol Libertadores e do Brasileirão e três meses de direitos de imagem.
Os atrasos são impactantes porque os jogadores com remunerações mais baixas recebem apenas o salário via CLT. Já os atletas mais bem pagos têm pagamentos divididos entre salário e direito de imagem, sendo que os direitos de imagem podem representar até 50% da remuneração total.
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Finanças em frangalhos
O Corinthians está em gravíssima crise financeira, com dificuldade para pagar os compromissos do dia a dia. O clube fechou os sete primeiros meses com déficit de R$ 278 milhões, 258% a mais do que o previsto, principalmente porque não vendeu jogadores.
O clube não conseguiu honrar parte das parcelas do acordo que fez com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para reduzir uma dívida de R$ 1,2 bilhão com a União, correndo o risco de perder o direito ao desconto que baixou a pendência para R$ 679 milhões.
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O Corinthians conseguiu a suspensão por um ano do pagamento do financiamento da Neo Química Arena, enquanto negocia a quitação da dívida com a Caixa Econômica Federal. E ainda teve de contar com dinheiro devolvido do banco estatal para pagar salários atrasados do elenco.
Renovação de Memphis
A renovação com o atacante Memphis Depay dominou o noticiário do Corinthians depois da Copa do Mundo e provocou muita polêmica, devido à demora no acerto, às idas e vindas nas conversas e às ameaças ao presidente corintiano.
Stabile chegou a dar a negociação como encerrada e depois a retomou, assinando o novo contrato, com custo de R$ 135 milhões para o Corinthians.
O presidente recebeu ameaças de morte e teve dados vazados na internet ao desistir da negociação e precisou pedir respaldo político do Conselho de Orientação (Cori) para fechar o negócio, já que vinha sendo pressionado internamente por aliados e conselheiros.
Além de não estar jogando bem, Memphis se tornou o vilão da eliminação da Libertadores para o Estudiantes, da Argentina, ao isolar o pênalti que poderia dar o empate ao Corinthians.
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O acerto com Memphis até julho de 2028 era inicialmente visto como positivo pela diretoria porque a renovação aconteceu em um cenário de proibição de registro de novos jogadores.
O Corinthians está com três transfer bans ativos - o primeiro deles de 21 de maio. Por isso, não pôde fazer contratações na última janela de transferências, o que deixou o elenco mais curto, ainda mais com as lesões ocorridas desde a Copa do Mundo.
Os transfer bans são de dívidas que, ainda sem as correções, totalizam R$ 21,5 milhões, valor que o clube não tem em caixa para quitar.
Demissão de Diniz
Embora Fernando Diniz nunca tenha reclamado publicamente, a ausência de reforços em um contexto de sucessivas lesões - sendo a de Yuri Alberto a mais sentida delas - colaborou para a queda de rendimento do treinador.
Ele chegou empolgando com sete jogos sem o time levar gols e acabou demitido depois da sétima derrota seguida.
A demissão ocorreu no primeiro jogo depois da Data Fifa, que deu 16 dias de trabalho para Diniz. Mesmo com a pressão crescente antes da parada, Paz bancou a permanência do treinador por duas vezes. Mas o dispensou na partida seguinte, em um desperdício de tempo e planejamento.
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Os oito jogos com derrotas representam a pior sequência do Corinthians na era do Brasileirão de pontos corridos, iniciado em 2003. O time é o lanterna do returno do campeonato, com só seis pontos conquistados em 36 possíveis.
A única vitória no segundo turno ocorreu contra o Red Bull Bragantino, em 9 de agosto, há mais de dois meses.
De lá para cá, o Corinthians perdeu para Cruzeiro, Coritiba, Santos, Chapecoense, Flamengo, Fluminense, Internacional e Palmeiras, e empatou com o Vitória.
Depois da Copa do Mundo, além de despencar no Brasileirão, o Corinthians amargou eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores.
Voz do Setorista: As mudanças de Seedorf no CT Joaquim Grava
Contratação de Seedorf
Ao procurar novo técnico, o Corinthians ouviu uma série de negativas. Ramón Díaz, Sylvinho, Luis Zubeldía e Javier Mascherano recusaram, enquanto as conversas não avançaram com Fábio Carille e Juan Pablo Vojvoda.
Em uma movimentação surpreendente, Paz escolheu e teve o aval de Stabile para fechar com Seedorf, em uma decisão que recebeu muitas críticas internas e dividiu a diretoria.
Investigações e possível intervenção
Assim como os antecessores, Stabile passou a enfrentar investigações criminais e processos que podem resultar em impeachment. O clube ainda corre o risco de sofrer uma intervenção judicial, em razão de um inquérito conduzido pelo Ministério Público.
Enquanto a situação do Corinthians degringola, Stabile responde a uma ação criminal por apropriação indébita no caso de uso de dinheiro do clube para contratação de uma empresa para sua segurança particular. Ele pode virar réu, se a Justiça aceitar a denúncia apresentada pelo MP.
Ele também é alvo de processos de impeachment que, a depender do andamento, podem levá-lo a ter o mesmo destino de Augusto Melo, de quem era vice-presidente.
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