# Einstein viu Marie Curie ser atacada nos jornais e não ficou em silêncio; 21 anos de cartas mostram como os dois cientistas dividiram preocupações, decisões e momentos longe dos laboratórios

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/mais/mundo/einstein-viu-marie-curie-ser-atacada-nos-jornais-e-nao-ficou-em-silencio-21-anos-de-cartas-mostram-como-os-dois-cientistas-dividiram-preocupacoes-decisoes-e-momentos-longe-dos-laboratorios/)
- Publicado em: 2026-10-22T15:16:39.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1302755-einstein-viu-marie-curie-ser-atacada-nos-jornais-e-nao-ficou-em-silencio-21-anos

> Em 23 de novembro de 1911, Albert Einstein escreveu uma carta a Marie Curie enquanto ela enfrentava uma campanha de ataques na imprensa francesa. Indignado com o tratamento dado à cientista, aconselhou-a a não ler as ofensas publicadas nos…

Os dois haviam se conhecido poucas semanas antes, durante um encontro científico em Bruxelas, na Bélgica. A mensagem marcou o início de uma correspondência que se estenderia até 1932, revelando uma relação que ultrapassava as discussões sobre física e incluía preocupações pessoais, convites para encontros e apoio em momentos difíceis.

Mais de um século depois, essas mensagens foram reunidas em uma coletânea organizada pela pesquisadora polonesa Ewa Łabno-Falęcka. O trabalho ganhou destaque novamente em outubro de 2026, com a apresentação da edição alemã do livro, que permite conhecer detalhes pouco divulgados da convivência entre os dois cientistas.

O escândalo que levou Einstein a defender Marie Curie

Quando recebeu a carta de Einstein, Marie Curie já era uma cientista reconhecida internacionalmente. Havia conquistado o Nobel de Física em 1903 e, naquele mesmo ano de 1911, receberia seu segundo prêmio, desta vez em Química.

O reconhecimento, porém, não a poupava de ataques pessoais. Viúva desde 1906, quando seu marido Pierre Curie morreu em um acidente, a pesquisadora se tornou alvo de uma campanha na imprensa francesa após a divulgação de seu relacionamento com o físico Paul Langevin, que era casado.

Os jornais também exploravam sua origem polonesa e o fato de ser mulher em um ambiente científico dominado por homens. A repercussão ganhou proporções que ultrapassavam sua vida particular e colocavam sua reputação em discussão.

Einstein, que havia conhecido Curie na primeira Conferência Solvay, realizada em outubro de 1911, decidiu se manifestar. Na correspondência enviada de Praga, demonstrou indignação com os ataques e afirmou que a colega não deveria dar atenção àqueles que procuravam transformá-la em alvo de sensacionalismo.

&#8220;Devo dizer-lhe o quanto passei a admirar seu espírito, sua criatividade e sua honestidade&#8221;, escreveu o físico, em tradução de um trecho da mensagem preservada.

A carta, cujo conteúdo foi publicado em 2005 pela revista científica Physics Today , também mostra que Einstein considerava uma felicidade ter conhecido pessoalmente a pesquisadora em Bruxelas.

Até na carta de apoio, Einstein encontrou espaço para falar de física

Um detalhe do documento mostra como as preocupações pessoais e científicas conviviam na relação entre os dois.

Depois de defender Marie Curie e recomendar que ela ignorasse as ofensas, Einstein encerrou a mensagem com uma despedida cordial. Mas acrescentou um pós-escrito que mudava completamente de assunto.

Nele, comentou uma hipótese sobre o movimento de moléculas submetidas a um campo de radiação, relacionando seu raciocínio aos estudos do físico Max Planck. Einstein chegou a demonstrar dúvidas sobre a validade da ideia na realidade.

A passagem chama a atenção pelo contraste: na mesma carta em que procurava apoiar uma colega durante uma crise pessoal, o cientista encontrou espaço para compartilhar uma questão de física teórica.

Essa combinação continuaria aparecendo nas mensagens trocadas nos anos seguintes, quando os dois passaram a dividir não apenas interesses de pesquisa, mas também acontecimentos de suas vidas.

Marie Curie escrevia em francês, Einstein respondia em alemão e os dois planejavam encontros

As correspondências preservadas mostram uma relação próxima, embora os cientistas mantivessem um tratamento formal. Curie escrevia à mão, em francês, enquanto Einstein utilizava predominantemente o alemão, muitas vezes em cartas datilografadas.

Entre os assuntos abordados estavam convites para visitar a família, planos de passeios e comentários sobre situações cotidianas. Em uma das mensagens, por exemplo, aparece o entusiasmo com a possibilidade de uma caminhada pelas montanhas da Suíça.

Em outra ocasião, Einstein convidou Curie para visitar sua família. Também chegou a pedir desculpas por sua maneira por vezes rude de se expressar.

Os documentos mostram ainda que a cientista compartilhava decisões profissionais com o colega. As discussões científicas continuavam presentes, incluindo questões relacionadas aos raios X e ao estudo de cristais.

Segundo reportagem da emissora pública alemã SWR, a correspondência revela detalhes pessoais que ajudam a compreender a confiança construída entre os pesquisadores.

Nos anos 1920, foi Einstein quem se sentiu ameaçado e procurou apoio

Com o passar dos anos, as mensagens também passaram a refletir um cenário político cada vez mais preocupante na Europa.

Na década de 1920, Einstein enfrentava o crescimento do antissemitismo na Alemanha. Por ser judeu, sentia-se ameaçado pelo ambiente político e social do país e chegou a compartilhar essas preocupações com Marie Curie.

Naquele período, ambos participavam da Comissão Internacional de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, organização criada após a Primeira Guerra Mundial para promover a colaboração entre países.

Em meio a tensões relacionadas ao trabalho da comissão, Einstein decidiu se afastar. Curie tentou convencê-lo a permanecer, mas inicialmente não conseguiu mudar sua posição.

A situação representava uma mudança em relação ao início da amizade. Em 1911, Einstein havia procurado a colega para apoiá-la diante de ataques públicos. Anos depois, era ele quem enfrentava hostilidade e compartilhava suas dificuldades.

As cartas também registram uma preocupação comum com a cooperação científica internacional, em um período marcado por rivalidades políticas e transformações profundas na sociedade europeia.

Algumas cartas de Marie Curie ainda estavam radioativas após décadas nos arquivos

Para reunir a correspondência, Ewa Łabno-Falęcka precisou pesquisar documentos espalhados por instituições de diferentes países. Parte das mensagens estava em arquivos de Jerusalém, Paris, Zurique, Princeton e Düsseldorf.

O trabalho envolveu a identificação dos manuscritos, a consulta a acervos históricos e a organização de materiais que permaneceram separados durante décadas. No Arquivo Albert Einstein, mantido pela Universidade Hebraica de Jerusalém, os pesquisadores tiveram acesso a documentos do extenso legado do físico.

Em Paris, porém, surgiu uma dificuldade inesperada: algumas cartas de Marie Curie ainda apresentavam contaminação radioativa.

A cientista havia passado grande parte de sua vida trabalhando com elementos como o rádio, em uma época em que os riscos da exposição à radiação ainda não eram completamente compreendidos. Muitos objetos e documentos associados às suas atividades científicas permaneceram contaminados.

Segundo informações divulgadas pela Universidade Europeia Viadrina, os documentos encontrados em Paris precisaram passar por procedimentos de descontaminação antes de serem examinados e digitalizados.

A descoberta acrescentou uma dificuldade concreta à investigação histórica: para estudar algumas das mensagens trocadas pelos cientistas, era necessário primeiro lidar com os resíduos deixados pelo trabalho que tornou Marie Curie mundialmente conhecida.

A correspondência foi reunida em livro mais de 100 anos depois

O resultado da pesquisa foi a coletânea Maria Skłodowska-Curie – Albert Einstein: Cartas 1911–1932 , organizada por Ewa Łabno-Falęcka em colaboração com instituições e especialistas em história da ciência.

A primeira edição foi publicada em polonês, em janeiro de 2025. Em abril de 2026, a versão francesa foi apresentada pela Academia Polonesa de Ciências, em Paris. Já em 12 de outubro de 2026, a edição alemã ganhou uma apresentação em Ulm, cidade natal de Einstein.

A obra reúne reproduções dos documentos originais, traduções, fotografias históricas e comentários científicos, permitindo acompanhar a relação entre os pesquisadores ao longo de mais de duas décadas.

As mensagens mostram que os dois encontraram espaço para manter contato mesmo diante das exigências de suas carreiras e das dificuldades pessoais que enfrentavam.

Entre discussões sobre moléculas, convites para caminhadas, decisões profissionais e preocupações políticas, a correspondência preservou situações que raramente aparecem nas biografias tradicionais dos cientistas.

E tudo começou, em novembro de 1911, com uma carta na qual Einstein deixou as teorias de lado por alguns parágrafos para defender uma colega que admirava — antes de voltar a falar de física no pós-escrito.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/mais/mundo/einstein-viu-marie-curie-ser-atacada-nos-jornais-e-nao-ficou-em-silencio-21-anos-de-cartas-mostram-como-os-dois-cientistas-dividiram-preocupacoes-decisoes-e-momentos-longe-dos-laboratorios/

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