# Conta da IA dentro de casa dispara e vira nova dor de cabeça para Wall Street

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/business/conta-da-ia-dentro-de-casa-dispara-e-vira-nova-dor-de-cabeca-para-wall-street/)
- Publicado em: 2026-10-22T16:10:02.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1303780-conta-da-ia-dentro-de-casa-dispara-e-vira-nova-dor-de-cabeca-para-wall-street

> Ninguém quer dar um cheque em branco para uma equipe de tecnologia. Ainda assim, para muitos diretores financeiros (CFOs), foi exatamente isso que aconteceu na corrida inicial pela adoção da inteligência artificial. Agora, depois de…

A questão tem ganhado força especialmente nos bancos, onde os orçamentos de tecnologia já enfrentam pressão de demandas concorrentes, que vão da modernização de sistemas legados à cibersegurança. Grande parte das expectativas de produtividade está depositada na chamada IA agêntica, capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma. O problema é que seu custo é difícil de prever, já que o volume de processamento necessário para cada tarefa pode variar significativamente.

“Na prática, acho que ninguém dentro das organizações tem uma boa noção de quanto determinada atividade vai custar”, afirmou Bhavi Mehta, sócio da Bain & Co. e líder global de analytics avançado para serviços financeiros. “À medida que a IA evolui para raciocínios mais sofisticados e fluxos de trabalho agênticos, a quantidade de tokens necessária para uma tarefa pode variar muito. Isso torna cada vez mais importante entender os custos em relação ao valor gerado para o negócio.”

Segundo relatório da consultoria Evident, apenas 12 dos 50 maiores bancos do mundo divulgaram publicamente retornos projetados ou efetivamente obtidos com a adoção de IA. Ainda assim, é raro encontrar um CEO que não destaque o potencial da tecnologia.

Durante as divulgações de resultados do terceiro trimestre, executivos de bancos como Citigroup e Goldman Sachs mencionaram o aumento dos investimentos em IA, mas poucos conseguiram apresentar números precisos sobre quanto estão gastando ou qual retorno financeiro estão obtendo.

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À medida que o setor passa da fase de testes para a implementação em larga escala, a Bloomberg ouviu mais de uma dezena de engenheiros, executivos e consultores para entender como as instituições financeiras estão lidando com essas despesas crescentes.

Adequar o modelo à tarefa

Embora tenha se tornado famosa a prática conhecida como tokenmaxxing — quando engenheiros utilizam IA de forma intensiva para praticamente tudo —, nem sempre esse comportamento explica os gastos excessivos.

No Deutsche Bank, alertas internos identificaram funcionários consumindo volumes incomuns de tokens. Mas, segundo Christoph Rabenseifner, diretor de estratégia para tecnologia, dados e inovação, muitos estavam apenas realizando trabalhos legítimos e relevantes. Em vez de restringir o acesso, o banco orientou o uso para formas mais eficientes.

A instituição também testou a substituição de um grande modelo de IA por um modelo menor e treinado especificamente para uma determinada tarefa, reduzindo os custos em múltiplas vezes.

O Santander segue estratégia semelhante. O banco utiliza modelos de ponta apenas para validar a qualidade de uma aplicação e, depois disso, migra as operações para sistemas mais leves e baratos. Segundo Ignacio Bernal, diretor de inteligência artificial da instituição, a abordagem reduziu o custo de um processo de aprovação de empréstimo de cerca de € 5 para apenas € 0,03.

“Quando a IA sai da fase piloto e entra em produção em um banco global, o custo de inferência deixa de ser insignificante e passa a ser uma linha relevante das despesas operacionais”, disse Bernal.

No Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC), os modelos mais avançados, incluindo o Opus, da Anthropic, podem custar cerca de C$ 3.000 por funcionário ao mês. Para evitar explosão de gastos, o banco restringiu o acesso a algumas centenas de empregados e limitou sua nova plataforma interna de IA a apenas 250 usuários em fase de testes.

“Ela é poderosa demais para ser usada sem controle por 50 mil pessoas”, afirmou Jaime Tatis, diretor de dados e inteligência artificial do CIBC.

O impacto da IA agêntica

Os agentes de IA estão se tornando um dos principais motores da escalada dos custos.

Segundo a Evident, grandes bancos anunciaram 19 casos de uso de IA agêntica no primeiro trimestre de 2026, ante apenas oito no trimestre anterior. No segundo trimestre, esse número caiu, mas não porque o interesse diminuiu. As instituições passaram a delegar tarefas mais complexas aos agentes.

O Wells Fargo, por exemplo, quer que seus sistemas dominem 1.100 etapas do processo de financiamento imobiliário antes de expandi-los para outras áreas.

Diferentemente dos chatbots convencionais, esses sistemas executam tarefas complexas e multietapas de forma autônoma, como:

Analisar demonstrações financeiras;

Monitorar tomadores de crédito;

Detectar lavagem de dinheiro.

Tudo isso demanda muito mais processamento e, consequentemente, mais tokens e despesas.

Em um banco asiático, algumas equipes consumiram toda sua cota de tokens logo na primeira semana. A solução foi centralizar o orçamento e criar um agente capaz de resumir comandos antes de enviá-los aos modelos de IA, reduzindo custos.

Modelos chineses entram na disputa

A pressão por reduzir despesas também abriu espaço para modelos chineses.

Um relatório do JPMorgan Private Bank apontou que o modelo GLM, da empresa chinesa Z.AI, apresentava desempenho comparável ao dos melhores sistemas disponíveis em março, com custo mais de 80% inferior ao dos modelos mais caros.

Instituições de Singapura, como United Overseas Bank (UOB) e DBS, já testam múltiplos fornecedores e evitam depender exclusivamente de empresas americanas.

Mas reguladores têm manifestado preocupações. O órgão supervisor bancário do Canadá pediu recentemente a elaboração de padrões mínimos para o uso de modelos avançados de IA. Nos Estados Unidos, autoridades do Federal Reserve também alertaram sobre potenciais riscos trazidos por sistemas baseados em inteligência artificial.

Esses fatores dificultam a adoção de modelos menos testados, especialmente os desenvolvidos no exterior.

O desafio de controlar os gastos

Segundo J.R. Storment, diretor executivo da Tokenomics Foundation, os bancos levaram mais de cinco anos para controlar os custos associados à computação em nuvem quando essa tecnologia começou a se popularizar.

Com a IA, a reação tem sido muito mais rápida.

“Os diretores financeiros estão respondendo a estouros de orçamento entre seis e dezoito meses após a adoção”, afirmou.

Nitin Madan, ex-CFO das operações indianas do Barclays, lembra que questionar os custos da IA frequentemente gerava desconforto dentro das equipes de tecnologia.

Como novas ferramentas e versões mais avançadas chegam ao mercado em ritmo acelerado, os gastos não podem mais ser amortizados ao longo de vários anos, como acontece com softwares tradicionais. O impacto aparece quase imediatamente nos resultados financeiros.

No JPMorgan Chase, alguns funcionários chegaram a gastar mais com tokens de IA do que o equivalente aos seus próprios salários. Desde então, o banco passou a impor limites mensais de US$ 2.000 para determinados engenheiros que utilizam o Claude Code, da Anthropic.

O CFO do JPMorgan, Jeremy Barnum, afirmou recentemente que as despesas anuais da instituição com IA giram em torno de US$ 700 milhões, embora seja difícil calcular um valor exato devido à disseminação da tecnologia por praticamente todas as áreas do banco.

A nova obsessão: responsabilização

Em muitos bancos, a discussão já não é se a IA funciona, mas se é financeiramente sustentável operá-la em larga escala.

Um engenheiro de aprendizado de máquina de um grande banco europeu relatou que sua equipe recebeu uma conta de € 80 mil após implementar um chatbot avançado em milhares de fluxos de trabalho.

Embora o montante não fosse alarmante para uma instituição desse porte, serviu de alerta para o CFO: se o crescimento continuasse, os custos poderiam atingir milhões de euros rapidamente.

A solução foi simples: reutilizar respostas para perguntas frequentes, encaminhar solicitações simples para modelos de código aberto e reservar os modelos premium, como ChatGPT e Claude, apenas para tarefas mais complexas.

O resultado foi uma redução de aproximadamente um terço na conta de IA.

Outros bancos adotam medidas ainda mais rigorosas. No BNP Paribas, nenhum projeto de IA é aprovado sem uma estimativa detalhada dos custos operacionais futuros. A instituição calcula o custo por token, multiplica pelo volume previsto de utilização e só então compara o investimento ao benefício esperado.

A supervisão é compartilhada por comitês liderados pelas áreas de tecnologia, risco, finanças e recursos humanos, além de um comitê central de IA comandado pelo CEO.

A corrida da IA e o medo de ficar para trás

Uma nova indústria de empresas focadas em medir e controlar gastos com IA também está surgindo.

Companhias como Ramp, Rogo Technologies e Tokenomics Foundation oferecem ferramentas para monitorar o consumo de tokens, estabelecer limites de orçamento e calcular o retorno dos investimentos em inteligência artificial.

Enquanto isso, o acesso aos modelos mais avançados tornou-se até um fator de recrutamento. Em alguns bancos asiáticos, candidatos perguntam durante entrevistas qual será seu orçamento de tokens da mesma forma que questionam salários e benefícios.

Para David Hardoon, ex-líder de IA do Standard Chartered e atualmente executivo da Accenture, toda grande organização deveria ter um diretor de IA com autoridade real para controlar orçamento, implementação e prioridades.

Mas, por enquanto, a combinação de entusiasmo com a tecnologia e medo de ficar atrás da concorrência continua alimentando os gastos.

“Se nós não fizermos isso, nossos concorrentes farão”, resumiu Vitaly Gordon, CEO da Faros AI.

Segundo ele, essa mentalidade de corrida armamentista está levando empresas a gastar cada vez mais dinheiro e criando uma situação em que, na maioria dos casos, “o CFO simplesmente recebe a conta e entra em pânico”.

© 2026 Bloomberg L.P.

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