O câncer já é a principal causa de morte por doença na população de 1 a 19 anos. Porém, ainda segundo o Inca, 80% dos pacientes podem ser curados quando a doença é diagnosticada precocemente e tratada em centros especializados .
Sinais de alerta e a importância da detecção rápida
“Os sintomas [do câncer infantil] muitas vezes são inespecíficos e podem ser confundidos com problemas comuns da infância”, afirma Mariana Bohns Michalowski, oncologista pediátrica e presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope).
Cansaço e palidez persistentes, manchas roxas sem motivo aparente, dores que não melhoram, aumento de gânglios, perda de peso, inchaços, alterações neurológicas, vômitos persistentes e dores de cabeça frequentes estão entre os sinais que merecem avaliação médica.
A especialista ressalta que a presença desses sintomas não significa que a criança e o adolescente tenham câncer, mas a persistência deles deve motivar a investigação .
Ainda de acordo com a médica, embora essas doenças não possam ser prevenidas por meio de mudanças de hábitos ou de programas de rastreamento populacional, o reconhecimento precoce dos sinais e dos sintomas, aliado a uma avaliação clínica adequada e ao encaminhamento ágil para serviços especializados , é fundamental para aumentar as chances de sucesso no tratamento.
Tumores mais comuns na infância e adolescência
“O câncer infantojuvenil possui características biológicas bastante distintas do câncer em adultos. A distribuição dos tipos tumorais varia significativamente conforme o desenvolvimento biológico da criança e do adolescente”, afirma Michalowski.
Veja abaixo os cânceres mais frequentes de acordo com a faixa etária.
Primeira infância (0 a 4 anos):
leucemias : correspondem à neoplasia mais frequente nessa fase, com amplo predomínio da leucemia linfoide aguda (LLA) ;
tumores embrionários , como: neuroblastoma (que atinge o sistema nervoso simpático), tumor de Wilms (rins), retinoblastoma (olhos), hepatoblastoma (fígado) e meduloblastoma (sistema nervoso central).
Crianças maiores e adolescentes (5 a 19 anos):
linfomas : apresentam aumento acentuado de incidência nessa fase, especialmente o linfoma de Hodgkin (muito característico da adolescência e do início da idade adulta) e os linfomas não-Hodgkin ;
sarcomas ósseos e de partes moles : o osteossarcoma e o sarcoma de Ewing surgem predominantemente nessa faixa etária, com frequência associados às fases de estirão de crescimento;
tumores do sistema nervoso central : continuam representativos, variando em tipo histológico (como gliomas de alto e baixo grau);
tumores epiteliais e de células germinativas : neoplasias de padrão mais adulto, como o carcinoma de tireoide , melanomas e tumores gonadais (que se originam nas gônadas, as glândulas sexuais — testículos e ovários).
Particularidades do tratamento do câncer infantojuvenil
“Embora utilize as mesmas modalidades terapêuticas do câncer em adultos — quimioterapia, cirurgia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo —, o tratamento infantojuvenil não consiste em aplicar protocolos de adultos em doses reduzidas. Trata-se de uma especialidade médica com abordagens biológicas e assistenciais próprias”, esclarece Michalowski.
Os cânceres infantis têm alta taxa de resposta e cura . Eles são predominantemente de crescimento rápido, derivados de células embrionárias ou imaturas. Segundo a especialista, essa característica os torna altamente sensíveis à quimioterapia. “Quando tratados em centros especializados de oncologia pediátrica, as taxas globais de cura ultrapassam 80% ”, destaca.
Outra questão que deve ser levada em conta é que, diferentemente dos adultos, crianças e adolescentes estão em processo contínuo de desenvolvimento físico, cognitivo, endócrino e reprodutivo .
“Por isso, o uso da radioterapia é extremamente criterioso em crianças muito jovens, devido ao risco de sequelas no desenvolvimento ósseo e cognitivo. E os esquemas quimioterápicos são desenhados para mitigar a toxicidade de longo prazo (cardiotoxicidade, infertilidade e risco de segundos tumores)”, explica.
Além disso, o atendimento deve ser multidisciplinar e especializado . A médica ressalta que o sucesso terapêutico depende da atuação integrada de diversos profissionais, como oncologistas pediátricos, cirurgiões pediátricos, intensivistas, enfermeiros especializados, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e pedagogos.
Por fim, é preciso pensar no seguimento tardio . “Dado o elevado número de sobreviventes, o cuidado se estende por décadas após o término do tratamento, monitorando a saúde cardiovascular, hormonal, funcional e psicológica desses indivíduos ao longo da vida adulta”, afirma.
Como apoiar crianças e adolescentes em tratamento oncológico
O diagnóstico de um câncer na infância ou adolescência desestrutura todo o núcleo familiar. Segundo Michalowski, a atuação dos pais e cuidadores exige um equilíbrio entre o suporte oferecido ao paciente e a preservação da própria saúde mental .
A primeira recomendação é ter uma comunicação aberta e adequada à idade . “Crianças e adolescentes percebem alterações no ambiente e na rotina. A comunicação deve ser honesta, com linguagem clara e adaptada ao nível de maturidade do paciente, esclarecendo o que é a doença, as etapas do tratamento e os motivos de eventuais isolamentos ou internações”, orienta a médica.
Também é importante preservar a rotina e a identidade da criança : o diagnóstico não deve anular a infância ou a juventude. “Manter regras básicas de convivência, momentos de lazer, contato seguro com amigos e acompanhamento pedagógico hospitalar/domiciliar ajuda a manter o senso de normalidade e controle”, completa.
Outro ponto de atenção é o cuidado com o cuidador . Para a oncologista, cuidadores fatigados ou emocionalmente exaustos têm menor capacidade de oferecer sustentação afetiva. Por isso, ela recomenda:
delegar tarefas práticas (como compras, alimentação, cuidados com irmãos) para parentes e redes de apoio;
estabelecer um sistema de revezamento no acompanhamento hospitalar;
buscar acompanhamento psicológico individual ou participar de grupos de apoio com outros pais vivenciando realidades semelhantes;
preservar momentos mínimos de descanso e nutrição adequada sem sentimentos de culpa.
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