# O dia em que o gás sufocante liberado do fundo de um lago matou mais de 1.700 pessoas

- Seção: Tecnologia
- Fonte: Olhar Digital (https://olhardigital.com.br/2026/10/22/ciencia-e-espaco/o-dia-em-que-o-gas-sufocante-liberado-do-fundo-de-um-lago-matou-mais-de-1-700-pessoas/)
- Publicado em: 2026-10-22T18:05:18.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1305697-o-dia-em-que-o-gas-sufocante-liberado-do-fundo-de-um-lago-matou-mais-de-1-700

> Uma tragédia silenciosa e sem aviso prévio devastou o noroeste de Camarões na noite de 21 de agosto de 1986. Uma nuvem invisível de dióxido de carbono emergiu das profundezas do lago Nyos – localizado a cerca de 315 km a noroeste de…

Formado na cratera vulcânica de Oku, o lago concentrava comunidades ativas de agricultores e pecuaristas. Naquela noite, contudo, a densa massa tóxica tomou o lugar do oxigênio enquanto todos dormiam. O episódio logo se consolidou como uma das catástrofes naturais mais letais da história do país e intrigou cientistas de todo o mundo.

Visão de satélite do Lago Nyos, localizado no noroeste dos Camarões, em uma cratera na borda de um vulcão inativo no Campo Vulcânico de Oku. &#8211; Crédito: NASA

De acordo com o jornal estatal local Cameroon Tribute , investigações conduzidas nos anos seguintes revelaram a dinâmica por trás do desastre. O dióxido de carbono originado do manto terrestre acumulou-se no fundo do lago ao longo de décadas, mantido sob forte pressão por mais de 200 metros de água. Enquanto a superfície mantinha águas oxigenadas, as camadas inferiores acumulavam o gás de forma contínua e perigosa.

A estrutura do Nyos funcionava como uma gigantesca garrafa de refrigerante sob pressão. Bastou um evento desestabilizador, como um deslizamento de terra nas encostas, para alterar o frágil equilíbrio hídrico. A perturbação deflagrou uma reação em cadeia repentina, fazendo com que o gás retido subisse à superfície e se libertasse rapidamente no ar.

Cientistas classificam o fenômeno raro como erupção límnica

Em entrevista ao Olhar Digital , o físico, astrofísico e especialista em fenômenos naturais Thiago Maia, embaixador da Declaração Climática Mundial no Brasil, explicou o mecanismo exato que sustenta esse tipo de ameaça silenciosa.

&#8220;O dióxido de carbono de origem geológica chega ao fundo do lago por fraturas nas rochas e permanece dissolvido devido à elevada pressão da água. Como as camadas profundas praticamente não se misturam com as superficiais, o gás pode se acumular durante décadas&#8221;, detalha o especialista, destacando que o disparo exato do Nyos permanece envolto em mistério. &#8220;Quando a água profunda começa a subir, a pressão diminui e o gás forma bolhas, provocando uma liberação rápida e intensa. No Lago Nyos, o gatilho inicial exato ainda é desconhecido.&#8221;

Conforme destaca um artigo da Sociedade Geológica da Europa (EGU), em concentrações atmosféricas normais, o dióxido de carbono não oferece riscos diretos. No entanto, acumulado em proporções massivas, ele atua como agente asfixiante e expulsa o oxigênio. Como o dióxido de carbono é mais pesado que o ar, a nuvem deslizou pelas montanhas rumo às casas, matando os moradores antes mesmo que pudessem perceber a ameaça.

Infográfico mostra a dinâmica do desastre natural do Lago Nyos. &#8211; Crédito: Imagem gerada por IA

Dois anos antes do desastre no Nyos, Camarões registrou um evento similar no lago Monoun, a 100 quilômetros dali, com 37 mortos. Pesquisadores classificaram esse fenômeno raro como erupção límnica – uma explosão em que gases acumulados no fundo de um lago emergem de forma repentina à superfície, liberando nuvens sufocantes e letais sobre a região ao redor.

Segundo Maia, além do Nyos e do Monoun, outro lago com esse mesmo tipo de risco é o Kivu, que fica entre Ruanda e a República Democrática do Congo. Já no Brasil , não há evidências de formações com condições semelhantes ou perigo de erupção límnica catastrófica.

“Para avaliar esse perigo, os cientistas monitoram a concentração de gases dissolvidos, a temperatura, a pressão e a estabilidade das diferentes camadas de água”, explica o físico.

Monitoramento contínuo do lago garante a segurança da população

Para evitar novos desastres, engenheiros instalaram tubos de desgaseificação que liberam o dióxido de carbono acumulado gradualmente no Nyos. Atualmente, os cientistas afirmam que o volume de gás no local diminuiu drasticamente e não representa mais perigo iminente. De acordo com os especialistas, o ambiente hoje é seguro para o retorno das populações locais.

Maia adverte, no entanto, que a intervenção de engenharia não elimina o risco de forma definitiva na natureza . &#8220;Os tubos de desgaseificação reduzem significativamente o risco ao retirar, de maneira controlada, o dióxido de carbono acumulado nas águas profundas. Entretanto, não eliminam definitivamente o perigo, pois o gás continua podendo chegar ao lago por processos geológicos naturais”.

Segundo ele, a estratégia ideal para garantir a segurança no longo prazo envolve aliar a purgação mecânica regular ao monitoramento de dados e à manutenção constante dos equipamentos e das redes de comunicação e alarme direcionadas aos moradores da região.

Foram instalados tubos no Lago Nyos para liberar gradualmente o dióxido de carbono acumulado e evitar novos desastres. &#8211; Crédito: Imagem gerada por IA

Conflitos armados dificultam a reconstrução da região do Nyos

Apesar dos avanços tecnológicos e da segurança atestada, o trauma psicológico permanece profundo entre quem viveu a tragédia. Sobreviventes relatam memórias marcantes daquela noite, vivida entre tremores na estrutura das casas e a ausência completa de explicações sobre a ameaça que se aproximava rapidamente antes da fuga desesperada.

Muitos moradores que retornaram às suas terras no dia seguinte encontraram cenários de devastação absoluta. Ruas e casas estavam repletas de corpos sem vida de familiares, vizinhos e animais domesticados. Famílias inteiras foram dizimadas na tragédia, deixando sobreviventes solitários que precisaram ser resgatados e transferidos para novos assentamentos governamentais.

Passadas quatro décadas, as cicatrizes do desastre continuam vivas na memória coletiva. Segundo reportagem da Deutsche Welle (DW), emissora pública internacional da Alemanha, mesmo cientes de que os riscos de uma nova liberação de gás caíram drasticamente, muitos sobreviventes ainda hesitam em se aproximar das margens. O receio constante e a dor das perdas mantêm viva a desconfiança em relação à segurança da área.

Além do medo do próprio lago, os conflitos armados no país representam outro obstáculo ao retorno definitivo das famílias. Desde 2016, confrontos violentos entre forças governamentais e grupos separatistas atingem a região anglófona onde fica o Nyos, dificultando os planos de reabilitação e o acesso de equipes de apoio e pesquisa.

Apesar da insegurança e dos riscos trazidos pelos combates, muitos sobreviventes mantêm o desejo de reocupar o território ancestral. Para essas pessoas, retornar significa honrar a memória dos parentes enterrados no local, ainda que a instabilidade política e o trauma histórico retardem o recomeço e a completa reconstrução da região afetada.

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