O Palmeiras de Abel Ferreira não se preocupa em ser um time “gostável”. Trabalhos longos têm o mérito de permitir que se defina claramente a identidade de um treinador e de suas equipes, e aparentemente o aspecto estético é a última preocupação do português. E, antes que se crie uma confusão comum ao se analisar times muito mais vencedores do que vistosos, não está escrito em nenhuma cartilha do jogo que times mais cautelosos têm mais compromisso com resultado. Não há treinador que não queria vencer, o que os difere é a forma escolhida, o caminho. No fundo, são crenças sobre futebol.
Palmeiras 0 (5) x (3) 1 Fluminense | Melhores momentos | Semifinal | Conmebol Libertadores 2026
Um dos desafios que o Palmeiras nos impõe é resistir à tentação de julgá-lo a partir do resultado, e não da execução de seu plano. Já está claro que Abel não precisa se ver diante de cenários tão ameaçadores para se inclinar ao plano mais conservador possível. Não é necessário vislumbrar tantos perigos iminentes ou reais para que o português se proteja mais do que ataque. É a sua forma de ver futebol. E parece fora da realidade negar que ele é competente ao transformar sua filosofia em jogo. O trabalho longo, de seis anos no Palmeiras, permite afirmar isso com conforto. Porque uma coisa é ganhar um jogo atuando mal, isso o futebol permite. Outra é chegar a quatro finais de Libertadores em sete possíveis, ou ganhar dois títulos brasileiros.
E daí surge outro desafio: conviver com um aparente paradoxo. É possível admitir que no longo prazo o trabalho é excelente, mas compreender que há um número razoável de partidas em que a filosofia conservadora de Abel pareceu trabalhar contra seus times. A semifinal pobre contra o Fluminense, em que o Palmeiras jogou mal em três dos quatro tempos disputados no Maracanã e no Nubank Parque, terminou com o resultado que o clube desejava, com o objetivo atingido, mas com a sensação de que o plano não realçou o que o Palmeiras tem de melhor em relação ao Fluminense. Ao contrário, aproximou o time da eliminação diante de um adversário inferior em elenco e investimento.
Em alguns momentos, a partida pareceu refletir um impasse. O Fluminense queria manter a confronto aberto por mais tempo, evitar que o jogo se decidisse logo em favor de um rival mais forte, especulando com a possibilidade de encontrar um gol. Já o Palmeiras teve a bola por mais tempo no primeiro tempo, mas não arriscava com ela. E quanto defendia mais atrás, a formação usada por Abel terminou por isolar Flaco López e reduzir as possibilidades de uma escapada em velocidade.
Ocorre que, quanto mais o tempo passava, menos o Palmeiras admitia riscos e mais o Fluminense dava passos à frente. Ou seja, foi mais uma das partidas decisivas jogadas pelo Palmeiras de Abel em que ficou a sensação de que o time, ao refletir as ideias mais conservadoras de seu técnico, reduziu as margens, a diferença em relação a seu adversário. A ponto de ver a decisão chegar às penalidades. Claro que o tricolor tem seus méritos: faz um bom Campeonato Brasileiro e já havia batido o Palmeiras uma vez nesta temporada. Mas não é um time que jogue bem no momento, além de ter perdido Martinelli e de contar com uma espinha dorsal que, embora talentosa, vive um momento avançado da carreira. E o plano dos donos da casa no Nubank Parque não ressaltou a distância entre os elencos.
Tudo isso para mostrar que o futebol não tem fórmulas. Nem os conservadores, nem os expansivos, terão sempre todas as respostas. E se no longo prazo a consistência é quem manda, Abel Ferreira tem argumentos de sobra para reivindicar sua condição de maior técnico da história do Palmeiras. O clube tem oito finais de Libertadores em toda a sua história. Quatro delas, foram com Abel.
