Em uma lista divulgada pela Hit Parader às vésperas do lançamento de Honora , disco de jazz do Flea que chegou ao mundo em março de 2026, o músico escolheu 12 das faixas do gênero que o moldaram. Consideradas suas favoritas do universo musical nascido em Nova Orleans, as canções (organizadas em ordem aleátoria, não necessariamente de preferência), reúnem clássicos de John Coltrane , Miles Davis e Charles Mingus . Algumas foram adicionadas por impacto na infância do instrumentista, outras por serem referências diretas para seus projetos de estúdio e uma foi até considerada pelo músico “a melhor gravação de todos os tempos”.

As 12 faixas de jazz favoritas de Flea:

1. Pharoah Sanders – “Black Unity” (Impulse!, 1971)

“Escolhi essa música porque não sei quanto tempo ela dura. Tem uns 20 minutos. E durante 20 minutos, num estado de pura improvisação livre sobre uma sequência de acordes muito simples que é completamente subvertida, esses caras tocam com toda a energia. Acho que são uns seis ou sete músicos, incluindo Stanley Clarke no baixo; dois baixistas, Stanley Clarke no baixo elétrico e Cecil McBee no contrabaixo. Mas a dinâmica se mantém. É envolvente, é tão poderoso e espiritual. É simplesmente uma façanha incrível. Já houve muito free jazz ótimo. E este talvez seja o ápice para mim; só o som, a ferocidade, a ternura pungente. É simplesmente de tirar o fôlego. Na verdade, tentei meio que copiar no meu disco, mas acabou sendo algo totalmente diferente. Não soa nada como ‘Black Unity’, mas é uma música chamada ‘A Plea’. Foi a primeira música que lancei. Não foi como se eu tivesse tentado copiar, porque eu jamais faria isso, mas gostei da estrutura, dessa progressão de acordes simples, dessa improvisação. E acabei fazendo algo totalmente diferente quando entrei no estúdio. Mas quando ouvi, foi a faísca inicial que me fez criar ‘A Plea’.”

2. Clifford Brown and Max Roach Quintet – Joy Spring (EmArcy, 1954)

“Essa é uma música que eu comecei a ouvir quando tinha uns 12 anos. Clifford Brown no trompete, claro, Max Roach na bateria, George Morrow no baixo, Richie Powell no piano e Harold Land no saxofone tenor. É a coisa mais linda… a clareza, o calor e a presença do Clifford Brown e do Harold Land tocando o solo. A melodia e a composição do Clifford, é simplesmente linda para mim. Quando eu era criança e a ouvi, me fez sentir que os seres humanos eram belos e que os seres humanos podiam ser grandiosos. É o tipo de coisa que sempre me faz ter fé na humanidade. Na verdade, foi algo que, quando eu era menino, também despertou meu amor pela cultura negra americana. Toda a minha vida, desde que eu era pequeno e ouvi isso, foi como se eu pensasse: ‘Bem, o mundo é realmente cruel e fodido, mas aqui está essa coisa linda. E isso é o melhor que as pessoas podem ser e está bem ali para você.’ Eu simplesmente amo Clifford Brown, ele é meu trompetista favorito de todos os tempos. Eu o amo. Ele é o maior. E Max Roach, o que ele fez, o que ele continuou fazendo desde Charlie Parker até os anos 80. Que carreira, cara. Que cara incrível e em constante evolução.”

3. Babs Gonzales, 3 Bips & a Bop – (Lop-Pow

Blue Note, 1947)

“Muita música alegre foi tocada, mas para alcançar esse nível de pura alegria genuína e despretensiosa, seria preciso recorrer a Louis Armstrong ou ao grupo de Earl Hines, The Hot Sevens e Hot Fives. ‘Lop-Pow’, de Babs Gonzalez, e na verdade todas as suas gravações, mas essa é a que eu escolhi. É tão divertida e descontraída, e é a música que, quando eu morrer — e espero que eu morra em circunstâncias em que haja pessoas na minha vida que me amam e se importam comigo no meu funeral —, é a música que eu quero que toquem e ouçam. É simplesmente linda, e como uma celebração da vida e da passagem para a próxima dimensão, eu gostaria que todos ouvissem ‘Lop-Pow’ e dançassem. Eu sempre achei que queria que fosse ‘Bold as Love’, de Jimi Hendrix . Na verdade, eu gostaria que ambas as músicas tocassem no meu funeral, ‘Lop-Pow’ e ‘Bold as Love’. A do Jimi é mais pesada, melancólica e corajosa, mas a do Babs Gonzales se entrega completamente. Ele era uma figuraça, um cara que estava sempre presente na cena musical dos anos 40 e saía com todo mundo. Ele escreveu um livro incrível chamado ‘Paid My Dues’ (Paguei Meus Pecados, em tradução livre). Talvez seja a melhor autobiografia musical de todos os tempos. Ele não era um músico muito sério, ele estava na cena e era um verdadeiro festeiro que curtia com todo mundo, com o Bird e com todos. Ele era adorado.”

4. Hank Mobley – Old World New Imports (Blue Note, 1963)

“É realmente ótimo. O álbum é ‘No Room for Squares’. E sim, é nessa faixa, ‘Old World New Imports’, que Donald Byrd toca trompete junto com Lee Morgan. Herbie Hancock , Philly Joe Jones. Para mim, na época do bebop, é a mais empolgante. Essa era é a minha favorita. Acho que é o início dos anos 60. E tem esse tema incrível. ‘Beep, bo, ba, da, ba, da, beep boop. Pa -par -da -pap -a -pap -da -pap -da -pap -da -pap -dap’, e é muito empolgante. Quando eu estava no ensino médio, tínhamos um amigo, o Scood, que foi o primeiro cara que conhecemos que tinha o próprio apartamento. Então, a gente ia lá passar um tempo. E ele era um cara que entendia muito de música, com uma coleção de discos incrível. E ele costumava tocar essa música, é bebop puro. Eu e meus amigos, cara; Eu, Anthony, Patrick English, Tree, Scood, a gente ficava dançando, ouvindo e fumando maconha. Era um som incrível. Então, se você quer saber o que me moldou, e o que eu e meus amigos fazíamos na época em que começamos os Chili Peppers, o que a gente ouvia era Hank Mobley.”

5. Don Cherry and John Coltrane – (Bemsha Swing

“Nós também ouvimos isso, mais ou menos na mesma época. É do disco Avant-Garde, do Don Cherry e do John Coltrane. É uma música ótima, funky, free jazz, mas nem sei como chamar. Acho que free jazz serve. É o Don Cherry e o John Coltrane com o Charlie Haden no baixo e o Ed Blackwell na bateria. O jeito que o Don Cherry toca o trompete de bolso é tão visceral e real, sem nenhum virtuosismo. Ele toca de forma bem livre, e o jeito que ele toca essa parada… olha, tecnicamente, até 10 milhões de trompetistas poderiam superá-lo, mas nenhum deles conseguiria soar como o Don Cherry nessa música, do jeito que ele toca. Aí o Coltrane entra e é aquele Coltrane profundo, simplesmente selvagem, se entregando de corpo e alma. Mas é simplesmente o ritmo funky, a batida grave da seção rítmica e a maneira como Charlie Haden e Ed Blackwell criaram essa base rítmica, é tão funky e tem essa qualidade mágica de espaço, melodia e funk. É também algo que ouvimos constantemente. Na verdade, é uma música que amávamos tanto que os Chili Peppers costumavam fazer covers dela o tempo todo, de uma forma cômica e engraçada. Porque a letra é ‘Bop -b -b -b -b -da -b -da -b -da-da -da -da -da -da -da -da -da’, nós a chamávamos de ‘Fuck You’. E sempre dizíamos: ‘Foda-se você, foda-se você, sua mãe e sua avó também. Foda-se. Se dane, sabe, tanto faz’. Era uma piada improvisada que fazíamos o tempo todo. Brincadeiras à parte, o que estávamos ouvindo era aquela versão de John Coltrane e Don Cherry com Charlie Haden e Ed Blackwell.”

6. Miles Davis – He Loved Him Madly (Sony, 1974)

“Eu amo Miles Davis desde criança e ouvi ‘Kind of Blu’e quando tinha uns 12 anos. Mas ‘Get Up Into It’ é um disco que eu descobri há uns 10 ou 15 anos. Na verdade, foi o Warren Ellis, do Bad Seeds, do Dirty Three e de outros grandes nomes da música, que me apresentou a esse álbum. Eu gosto muito do Warren e o respeito bastante, então quando ele me recomendou, eu fui ouvir. De alguma forma, ele se parece com todos os discos do Miles que eu ouvi – e eu ouvi todos, de ‘Birth of the Coo’l e ‘Kind of Blue’ a ‘On the Corner’ –. É um disco incrível que me passou despercebido. Eu o ignorei, e é um disco tão singularmente fantástico. E ‘He Loved Him Madly’ é tipo uma viagem psicodélica e ambiente de 20 minutos, uma verdadeira obra de arte. Simplesmente coloque ‘He Loved Him Madly’ para tocar e ouça. Guarde o celular, ligue o disco e deixe sua mente vagar. Liberte sua mente e você se deixará levar. Ouça ‘He Loved Him Madly’, de Miles Davis, do álbum ‘Get Up With It’, porque é profunda. Tem tudo o que eu quero na música. Dá para se banhar nela. É tão aconchegante e simplesmente maravilhosa. Os músicos são tão sensíveis e a forma como se relacionam é super carinhosa e afetuosa, mas você também sente essa força incrível e a violência que está sempre à espreita. É simplesmente linda, abarca a humanidade.”

7. Charles Mingus – Wednesday Night Prayer Meeting (Atlantic, 1960)

“Uma das maiores gravações de todos os tempos e uma das minhas favoritas, tem uma pegada funky, blues, uma energia contagiante, uma sensação de comunidade, união, intensidade, espiritualidade e amor intelectual. Diz ‘Wednesday Night Prayer Meeting’ (Reunião de Oração de Quarta à Noite), tem uma vibe de igreja, uma vibe gospel, com batidas de pé, batidas fortes. Está em compasso 6/8 e eles estão se entregando, você ouve Mingus e quem mais estiver cantando aos berros, e esses caras mandando solos incríveis. A música muda para um padrão de palmas legal, onde entra no ritmo e volta, e você realmente sente a profundidade da dor, da alegria, da esperança da comunidade negra americana ali, e eu amo isso. É lindo.”

8. Duke Ellington – Never No Lament (RCA, 1940)

“É da minha época favorita de gravações do Duke Ellington. Eles lançaram um box set desse período do Duke Ellington chamado Blanton-Webster Band. É com Jimmy Blanton no baixo e Ben Webster no saxofone. Eu poderia ter escolhido qualquer música desse box set porque todas são ótimas. Mas o box set se chama ‘Never No Lament’. Todas as músicas, cada faixa, cada nota, eles simplesmente não erravam. Essa banda era incrível. Os arranjos eram perfeitos. As músicas, a execução, a emoção. E essa era uma banda que trabalhava constantemente. Eles estavam sempre na estrada. Estavam gravando, trabalhando, dando tudo de si no auge. É difícil dizer no auge porque eles estavam sempre no auge. Duke Ellington é um tesouro nacional que evoluiu constantemente, cresceu, mudou e fez toda essa música, desde algo bem minimalista, só ele ao piano, até as sessões de ‘Money Jungle’ com Mingus e Max Roach, e tudo mais. Eu realmente amo essa música. Este disco, a caixa ‘Never No Lament’, a fase Blanton-Webster de Duke Ellington, é incrível. Esta é uma ótima música desse álbum. Mas ouça tudo. É como se estivéssemos no auge de nossa criatividade, mais uma vez. Eu me deixo levar por aquela época.”

9. Arthur Blythe – Misty (Columbia, 1981)

“Do álbum ‘Strike Up the Band’. É outro que costumávamos ouvir no início, antes de começarmos os Chili Peppers, naquela época. Nós realmente amamos esse álbum. Eu poderia ter escolhido a música ‘Strike Up the Band’ desse álbum também. É realmente ótima. Tem um solo de tuba incrível. É simplesmente foda, cara. Eu adoro o Arthur Blythe. Ele é um saxofonista alto de Los Angeles que fez muita música boa. Nós realmente amamos esse álbum. Aliás, tem um guitarrista nele chamado Kelvyn Bell, que nós realmente adorávamos. E nós realmente adorávamos o primeiro álbum do Defunkt. Ele também tocou naquela banda, naquele álbum que o Joe Bowie gravou. É uma música linda, tão comovente. A música ‘Misty’ em si é ótima, e o que o Arthur Blythe faz com ela começa muito bonito, depois eles simplesmente enlouquecem, ficam super dinâmicos, cortes incríveis no ar. Errol Garner, que escreveu a música ‘Misty’, não sabia ler nem escrever partituras. E para mim, ele está entre os maiores músicos de todos os tempos. Sempre me lembro de quando estou estudando jazz e tentando decifrar a dinâmica dos acordes e tudo mais, e Errol Garner simplesmente fazia isso por puro amor, dedicação e imersão nessa linguagem e nesse universo.”

10. Chet Baker – I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes) (Pacific Jazz, 1954)

“Eu não poderia deixar Chet Baker de fora, porque eu simplesmente o amo muito e tive a sorte de passar um tempo com ele perto do fim da vida. O jeito dele cantar e tocar trompete é tão lírico e lindo. O disco é ‘Chet Baker Sings’. É música linda. Eu amo a voz dele, o jeito que ele toca. Coloque esse álbum para tocar, é super romântico, sincero e lindo. Sempre existe essa sensação com o Chet, essa sensação trágica e vulnerável subjacente de um cara que estava sempre se esforçando, sofrendo e tentando vencer na vida. Mas é um álbum lindo.”

11. Booker Little – Man of Words (Candid, 1961)

“Um dos meus trompetistas favoritos de todos os tempos, Booker Little, que era discípulo de Clifford Brown. Assim como Clifford Brown, Booker morreu muito jovem. Clifford morreu em um acidente de carro. Booker Little morreu de uremia. Eu simplesmente adoro Booker Little. Quando vejo fotos dele e o ouço, ou ouço qualquer coisa sobre ele, ele me parece uma pessoa incrível. O nome do meio do meu filho é Booker, em homenagem a Booker Little. Há tantas outras coisas que eu poderia ter escolhido. Ele não gravou muito porque morreu tão jovem. Mas em seu disco, Out Front, a música ‘Man of Words’ tem um contexto harmônico bem simples, com ele tocando trompete lindamente. Cara, é como um chamado; é um farol de luz, de beleza, e quando eu desligar, vou preparar meus ovos antes de ter que praticar e vou ouvir essa música porque é simplesmente fantástica. É um grito de amor.”

12. Alice Coltrane – The Ankh of Amen-Ra (UMG, 1971)

“É a última música do álbum dela, ‘Universal Consciousness’. É simplesmente linda. Sinto que, quando criança, não entendi Alice Coltrane o suficiente, não prestei atenção o bastante ao que ela fazia, e gostaria de ter prestado, porque meio que a entendi tarde. Só me aprofundei em Alice há uns 10 ou 15 anos. Nossa, esses discos são incríveis. Universal Consciousness é de 1970, quando ela fez sua jornada de consciência universal com Satchidanananda. Eu poderia ter escolhido qualquer música, porque todas são lindas. Escolhi ‘The Ankh of Amen-Ra’, justamente pela atmosfera de ‘He Loved Him Madly’. Tem essa qualidade aconchegante e ambiente. É só colocar para tocar e a casa se enche de amor e beleza.”

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