# 'Não vai ter paz': integrantes da Torcida Organizada do Bahia discutiram ameaças para impedir denúncias de tortura

- Seção: Brasil
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/10/23/integrantes-da-bamor-discutiram-ameacas-para-impedir-denuncias-de-tortura.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-23T07:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1313715-nao-vai-ter-paz-integrantes-da-torcida-organizada-do-bahia-discutiram-ameacas

> Presidente da Bamor convoca integrantes e diretores para tortura de vítima

Integrantes da Bamor, maior torcida organizada do Bahia, discutiram formas de intimidar duas vítimas de tortura para impedir que elas denunciassem as agressões à polícia e à imprensa. As conversas foram identificadas em um relatório do Ministério Público da Bahia (MP-BA), obtido pelo g1 e pela TV Bahia, e incluem ameaças de novos episódios de violência.

Em uma das mensagens, o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, sugeriu que os integrantes fossem até a casa de uma das vítimas para intimidá-la.

“A gente tem que ir é na porta dele, irmão. Pegar ele de novo. […] Pra ele ver que não vai ter paz, irmão. Entendeu?”.

Os diálogos foram registrados no dia 20 de julho, dois dias após o segundo episódio de tortura investigado pelo MP-BA. Na ocasião, os suspeitos descobriram que uma das vítimas estava compartilhando mensagens sobre as agressões sofridas.

Segundo o relatório, os integrantes passaram a discutir maneiras de impedir que o caso ganhasse repercussão e que as vítimas levassem as denúncias adiante.

O diálogo foi encontrado em um celular apreendido durante a Operação Inquisição, realizada em 28 de setembro, que resultou na prisão de 10 pessoas, entre elas o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, e o vice-presidente, Luciano da Silva Venâncio.

Segundo as investigações, dois homens foram submetidos a sessões de tortura física e psicológica na sede da Bamor, no bairro de Nazaré, nos dias 17 e 18 de julho deste ano. Em 2 de outubro, o MP-BA denunciou os 10 por crimes como organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça.

As vítimas foram convocadas sob o pretexto de prestar esclarecimentos sobre supostas irregularidades financeiras envolvendo o sistema de gestão de associados da entidade. As agressões teriam durado cerca de quatro horas em cada episódio.

Ameaças começaram após vítima relatar tortura

De acordo com o documento, as discussões começaram na manhã de 20 de julho, quando um integrante identificado como “Kakaroto”, apelido associado a Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing da Bamor e um dos denunciados pelo MP-BA, compartilhou mensagens atribuídas a uma das vítimas.

Essa vítima integrava a torcida há aproximadamente 18 anos e relatava as agressões que teria sofrido na sede da entidade, no bairro de Nazaré, em Salvador.

O conteúdo provocou reações entre os participantes do grupo. Às 7h42, Matheus Pires Castro, identificado nas conversas como “Mts”, sugeriu que os integrantes procurassem a vítima para fazê-la parar de falar sobre o ocorrido.

“A onda é chegar logo. (...) Venha cá, irmão, o que é que tá jogando conversa fora? É o quê? Se você continuar jogando sua conversa fora, você vai ser pego de novo, viu? E aí resolva como você quiser! Dar umas ideias duras nele aqui, viu?”, disse.

Um minuto depois, outro participante, identificado como Daniel, diretor da sede da Bamor, concordou com a proposta. “Mas é, mano. É o certo, ele está jogando conversa fora aí, tá ligado? Então tem que se f****!”, afirmou.

Segundo os investigadores, as mensagens indicam que os integrantes estavam dispostos a localizar o homem e ameaçá-lo com novas agressões caso continuasse divulgando informações sobre a tortura. Às 7h47, Daniel voltou a comentar a possibilidade de procurar a vítima e fez referência a uma frase que, segundo ele, havia sido dita anteriormente por Luciano da Silva Venâncio, vice-presidente da Bamor: “Morto não fala”.

Presidente ameaçou dobrar duração da tortura

A possibilidade de repetir as agressões voltou a ser discutida minutos depois. Às 7h48, Matheus Pires Castro reagiu às mensagens nas quais a vítima mencionava ter sido torturada durante quatro horas.

Em um áudio, o presidente ameaçou dobrar a duração das agressões caso a vítima continuasse falando sobre o ocorrido.

“Avisa a ele que se não aprender, próxima vez é oito horas, viu? Não vão ser quatro não, vão ser oito!”.

O relatório também mostra que os integrantes discutiram a possibilidade de localizar o homem. Às 7h54, um participante identificado como “Wagner” enviou mensagens sobre onde a vítima poderia ser encontrada e demonstrou disposição para ir até o local.

Para os investigadores, as conversas indicam uma tentativa de intimidar a vítima e fazê-la desistir de divulgar as agressões.

O documento não confirma, nesses trechos, que as ameaças de novas agressões tenham sido executadas.

Suspeitos discutiram como impedir vítimas de procurar imprensa

As conversas também revelam preocupação com a possibilidade de as duas vítimas denunciarem os crimes publicamente. Em uma das mensagens, um interlocutor afirmou que um dos homens agredidos poderia sofrer represálias caso insistisse em denunciar os crimes.

“Ele sabe que se ele for pra cima é pior pra ele, todo mundo sabe onde ele mora, ele vai ter que sumir daqui”, diz um dos trechos reproduzidos no relatório.

O documento aponta ainda que integrantes da torcida já haviam mantido contato com as duas vítimas para tentar impedir que elas procurassem a imprensa e dessem continuidade às denúncias.

Às 8h18, Matheus orientou os integrantes sobre como deveriam abordar um dos alvos. “Dá logo umas ideia duras nele. Se ele procurar onda, vai se fuder, entendeu? Tem negócio de história, não!”, afirmou.

Na mesma sequência de conversas, um dos participantes explicou que a intimidação deveria ser feita de maneira indireta, para evitar que os próprios envolvidos fossem prejudicados.

"Quando vai falar tem que ter um tom de ameaça, tá ligado? Não é chegar e ameaçar, mas é dar a entender coisas, saber falar, mano, tá ligado? Saber falar".

Segundo a análise do MP-BA, os integrantes discutiam maneiras de provocar medo nas vítimas para que elas desistissem de levar as denúncias adiante.

Presidente pediu que torcida seguisse normalmente

Matheus Pires Castro, presidente da Bamor, maior torcida organizada do Bahia, é um dos presos

Apesar das ameaças e da preocupação com a repercussão dos crimes, Matheus Pires Castro também orientou os integrantes a manter as atividades da Bamor.

Em outro áudio enviado ao grupo, o presidente afirmou que a entidade deveria continuar funcionando normalmente, enquanto os envolvidos tentavam resolver a situação com as vítimas. “Mano, ó… o certo é a gente continuar seguindo a torcida normalmente, entendeu? E o que vier a gente vai se defender, entendeu? A gente tem nossas provas também, tá ligado?”, afirmou.

Integrante sugeriu apagar mensagens para evitar denúncias

Um integrante da torcida organizada sugeriu apagar conversas de um grupo de WhatsApp para evitar que mensagens fossem utilizadas como provas após sessões de tortura que teriam sido realizadas na sede da entidade, em Salvador.

“Melhor apagar tudo essas por aí, viu? Essas paradas aí porque, querendo ou não, vai que essa desgraça denuncia aí, sei lá. […] Inclusive apagar esse grupo aqui as conversa”, afirmou o integrante em uma mensagem de áudio.

A sugestão de apagar as mensagens partiu de “Kakaroto Drt”, apelido associado a Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing da Bamor e um dos denunciados pelo MP-BA. Na gravação, Ricardo demonstrou receio de que a vítima denunciasse o ocorrido e sugeriu a exclusão dos registros, incluindo o histórico do próprio grupo de WhatsApp.

A preocupação, no entanto, não foi compartilhada por todos os participantes da conversa. O integrante identificado como Daniel, diretor da sede da Bamor, respondeu que não havia motivo para temer a existência de provas. Na mesma mensagem, ele admitiu que a vítima havia sido agredida pelo grupo.

“Não tem negócio de prova não, mano, provar o quê, véi? A gente pegou ele 'mermo', mano, que ele é ladrão, 'tava' roubando a torcida, então a gente meteu a desgraça nele e já foi”, afirmou.

Em outra mensagem, um dos investigados chegou a dizer que a vítima deveria ter sido morta. As declarações foram registradas após as agressões e fazem parte do material analisado pelo Núcleo de Extração e Análise do MP-BA.

Presidente orientou que envolvidos não fossem identificados individualmente

A preocupação com a responsabilização dos envolvidos também aparece em mensagens enviadas pelo presidente da Bamor, Matheus Pires Castro, em 19 de julho, um dia após o segundo episódio de tortura investigado pelo MP-BA.

Em um áudio encaminhado às 11h35, Matheus orientou os integrantes a atribuírem as agressões à diretoria da torcida, sem apontar quem havia praticado cada ato.

“Mas é isso, irmão, deixa eu te falar: 'cê' tem que falar que quem pegou foi a diretoria, não foi A, B, nem C, não. Teve facada? Teve. Quem foi que deu? A diretoria. Teve tiro? Teve. Quem deu? A diretoria. […] Tudo que a gente faz aqui é a diretoria. Não existe a pessoa física, não, entendeu?”.

Na sequência, o presidente reforçou que todos deveriam manter a mesma versão sobre os episódios. "(...) Não é A, nem B. Porque isso aí que gera uma briga pessoal, isso aí que cria tumulto", afirmou.

'Quem tiver nojo de sangue, não vá': áudios mostram presidente da Bamor convocando integrantes para sessões de tortura na Bahia

Integrante afirmou ter quebrado braço de vítima

Uma das mensagens que constam no relatório foi enviada às 9h41 do dia 18 de julho, por "Kakaroto Drt". Ao responder a uma mensagem de outro integrante, "Daniel", Ricardo afirmou: "Só me arrependi de não bater mais. Mas um braço deixei quebrado".

Na sequência, o integrante sugeriu que a análise de um celular poderia revelar outras supostas irregularidades. "Se cavar aí, acha mais coisa nesse celular. Nós pega mais ratos", diz o trecho.

Logo depois, às 9h42, os participantes continuaram comentando as agressões. Em uma das gravações, um interlocutor identificado como "Mts", associado ao presidente da torcida, Matheus Pires Castro, mencionou a utilização de uma barra durante o episódio.

"Rapaz, Piton pegou aquela barra ali, mano. Na hora que ele levantou, rapaz, pensei que ele fosse arrancar o teto".

O diálogo é apontado pelo Ministério Público como uma referência às agressões praticadas contra uma das vítimas. As conversas também trazem referências a uma faca.

Presidente ameaçou repetir tortura e arrancar membros

Marcas nas costas de uma das vítimas

Ainda em 19 de julho, às 11h38, Matheus Castro enviou novos áudios ao grupo. Nas gravações, afirmou que o caso estava encerrado, mas ameaçou aplicar punições ainda mais violentas caso surgissem novas suspeitas de desvios financeiros.

"Quem a gente pegar roubando agora vai ser pior. [...] Se for preciso, a gente vai arrancar uma mão, vai arrancar um pé", diz a mensagem.

As declarações sobre supostos desvios financeiros representam acusações feitas pelos próprios integrantes da torcida e não comprovam que a vítima tenha cometido qualquer irregularidade.

Suspeitos foram denunciados

Suspeitos foram denunciados pelo MP-BA

Em 2 de outubro, o Ministério Público denunciou os 10 investigados. Os denunciados são:

Matheus Pires Castro, presidente da Bamor;

Luciano da Silva Venâncio, vice-presidente;

Gabriel Pereira Silva, diretor-geral;

Daniel Sena Duarte, diretor de sede;

Ricardo Henrique Almeida da Silva, diretor de marketing;

Diego Allan Conceição Sacramento, diretor de patrimônio;

Ivã Cleiton de Jesus Santos, diretor de bateria;

Luiz Wagner da Silva Santana, diretor de sede;

Alan Rafael Regis Alves de Aquino, diretor financeiro;

Fernando Santana Esquivel, policial militar apontado como integrante da torcida organizada.

Segundo a promotora de Justiça Thelma Leal, do MP-BA, todos os integrantes presos teriam participado das agressões, embora em diferentes graus.

"O presidente e o vice estão presos. Todos participaram ativamente dos atos de tortura, de alguma forma, com maior ou menor proporção. Os relatos das vítimas dão conta que todos que estão presos participaram", afirmou.

A promotora ressaltou que as prisões atingiram integrantes da cúpula da torcida e disse esperar que a entidade passe por uma mudança de liderança e adote medidas para evitar novos episódios de violência.

Sede da Bamor, no bairro de Nazaré, em Salvador

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