# Donos de imóveis deixam de alugar por falta de rentabilidade, enquanto 225 mil interessados disputam apenas 8.400 moradias; entenda a crise na França

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/mais/brasil/donos-de-imoveis-deixam-de-alugar-por-falta-de-rentabilidade-enquanto-225-mil-interessados-disputam-apenas-8-400-moradias-entenda-a-crise-na-franca/)
- Publicado em: 2026-10-23T12:15:11.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1317073-donos-de-imoveis-deixam-de-alugar-por-falta-de-rentabilidade-enquanto-225-mil

> A consulta da Orpi com mais de 16 mil franceses apontou as relações entre donos e inquilinos como o tema mais citado, com 37% das propostas.

Proprietários deixam de colocar imóveis no mercado de aluguel porque a operação deixou de compensar, enquanto candidatos a inquilino se concentram sobre o pouco que ainda aparece nos anúncios, e o resultado é um mercado locativo que se imobiliza na França.

O presidente da cooperativa de imobiliárias Orpi, Guillaume Martinaud, apresentou os resultados de uma consulta cidadã feita com a plataforma Make.org e descreveu o quadro como um confronto permanente entre as duas pontas da relação.

A consulta reuniu 16.348 participantes entre o início de abril e o fim de maio, com 1.053 propostas depositadas e 178.362 votos registrados, e as relações entre donos e inquilinos concentraram 37% das contribuições, o tema mais citado.

A rede cruzou esse material com a experiência cotidiana de suas agências, formulou quatro propostas e passou a cobrar uma política de habitação estável, legível e eficaz para o próximo ciclo de governo, com horizonte de cinco anos de previsibilidade.

Em Paris, capital da França e cidade em que o próprio presidente da Orpi avalia o mercado locativo como pior do que no restante do país, o aperto aparece de forma concreta nos números de outra grande administradora.

Na Foncia, 225 mil dossiês de candidatos a inquilino foram protocolados desde janeiro para apenas 8.400 moradias disponíveis, o que ilustra a desproporção entre demanda e oferta e explica por que filas e seleções se tornaram rotina.

Martinaud resume o clima do lado de quem paga o aluguel ao afirmar que os locatários estão desamparados e temem perder a moradia, enquanto do outro lado cresce o cálculo de que alugar deixou de ser rentável diante de encargos, regras e risco de inadimplência prolongada.

O efeito prático é a retirada silenciosa de unidades do circuito tradicional de locação de longa duração, o que reduz ainda mais o estoque e alimenta o mesmo conflito que a consulta captou.

Como a consulta cidadã mapeou o atrito entre quem aluga e quem mora

A operação com a Make.org não foi um levantamento de opinião isolado: a Orpi tratou as milhares de contribuições como matéria-prima para confrontar o discurso das ruas com o que as agências veem no balcão. O peso de 37% das propostas centradas na relação locador-locatário indica que o problema deixou de ser apenas preço ou falta de chave e passou a ser lido como disputa de regras, de prazos e de confiança.

Participantes descreveram medo de despejo, dificuldade de comprovar renda suficiente para passar no crivo das imobiliárias e sensação de que qualquer atraso ou discordância pode virar processo. Do lado dos proprietários, as falas recorrentes giram em torno de rendimento líquido corroído, de reformas que não se pagam e de processos de retomada que demoram o bastante para transformar o imóvel em passivo.

Ao colocar esses dois blocos lado a lado, a rede chegou à formulação de confronto permanente, expressão que Martinaud repetiu ao apresentar o material e que resume um mercado em que cada lado enxerga o outro como obstáculo, e não como contraparte de um contrato estável. A consulta também serviu de base para a cobrança política.

Em vez de medidas pontuais ou anúncios de curto prazo, a Orpi defende uma lei de habitação que sobreviva a mudanças de governo e ofereça cinco anos de estabilidade normativa, de modo que donos saibam sob quais regras investem e inquilinos saibam sob quais garantias permanecem.

A legibilidade da norma é tratada como condição para que imóveis voltem ao mercado: enquanto o marco legal parecer sujeito a reviravoltas frequentes, parte dos proprietários prefere manter o bem vazio, vendê-lo ou destinar a usos de menor risco aparente. Essa leitura conecta diretamente a estagnação da oferta à percepção de insegurança jurídica e econômica, e não apenas a um ciclo de juros ou de construção civil.

Por que donos afirmam que alugar deixou de compensar

O argumento de que não é mais rentável alugar aparece como motor da retirada de estoque. Encargos de manutenção, exigências de desempenho energético em imóveis antigos, tributos e o tempo necessário para reaver um imóvel em caso de inadimplência entram na conta que muitos proprietários fazem antes de renovar um contrato ou de anunciar uma unidade vazia.

Quando o rendimento líquido se aproxima do custo de oportunidade de outras aplicações ou da simples manutenção do bem fechado, a decisão de não alugar se espalha e o anúncio some.

O presidente da Orpi descreve esse movimento como um dos fatores que separam o mercado em dois mundos: de um lado, poucos imóveis disputados por dezenas ou centenas de candidatos; de outro, um estoque potencial que permanece fora do radar porque o dono não vê retorno claro.

Em Paris o fenômeno se agrava pela pressão demográfica e pela escassez estrutural de unidades acessíveis, o que faz com que cada retirada tenha efeito multiplicado sobre as filas. A consequência imediata para quem procura moradia é a concentração de pretensão sobre o que resta.

Candidatos reúnem documentos, fiadores e comprovantes de renda cada vez mais altos apenas para entrar na triagem, e mesmo assim enfrentam recusas em série. A frase de Martinaud sobre o desamparo dos locatários traduz o medo de perder o teto atual sem ter para onde ir, o que inibe até a mobilidade voluntária: famílias deixam de mudar de bairro ou de cidade porque sabem que o próximo contrato pode ser inalcançável.

Esse travamento reduz a rotatividade natural do mercado e reforça a escassez, num ciclo em que a falta de oferta gera mais tensão e a tensão gera mais retirada de imóveis.

O descompasso entre dossiês e chaves disponíveis

Os números da Foncia, com 225 mil dossiês contra 8.400 moradias no período citado, funcionam como termômetro da desproporção.

Cada vaga atrai dezenas de pretensões formais, o que alonga prazos de seleção e eleva o poder de escolha do proprietário ou da administradora, muitas vezes em detrimento de perfis que não conseguem reunir a documentação ideal. O mercado se torna seletivo de forma extrema, e a sensação de loteria se espalha entre os candidatos.

A Orpi usa esse tipo de evidência de agência para sustentar que o problema não se resolve só com mais construção no longo prazo, mas também com regras que devolvam previsibilidade a quem já possui imóvel e hesita em colocá-lo para alugar.

A cobrança por uma lei de habitação estável por cinco anos

Diante do diagnóstico de confronto permanente, a rede de imobiliárias transformou a consulta em plataforma de pressão por uma política de Estado. A ideia de estabilidade por um quinquênio inteiro busca tirar o setor do vaivém de medidas de emergência e de debates que se reiniciam a cada troca de governo.

Martinaud e a Orpi argumentam que só um marco legível e duradouro é capaz de reconstruir a confiança necessária para que proprietários voltem a enxergar a locação como atividade econômica viável e para que inquilinos recuperem a expectativa de permanência sem temor constante.

As quatro propostas derivadas da consulta e da experiência das agências apontam para esse eixo, embora o detalhamento público enfatize sobretudo o pedido de continuidade normativa e de eficácia na aplicação das regras já existentes. A estabilidade pedida não elimina o conflito de interesses, mas tenta enquadrá-lo em procedimentos claros de garantia, de reajuste, de rescisão e de retomada.

Sem isso, cada lado continua a radicalizar a narrativa: o inquilino vê o dono como especulador que retém teto; o dono vê o inquilino como risco jurídico e financeiro. O mercado locativo francês, especialmente nas grandes cidades, fica preso nesse impasse, com anúncios escassos, filas longas e uma parcela crescente de imóveis que simplesmente não entram no jogo da locação tradicional.

A tensão descrita na França encontra paralelo direto no Brasil, onde o aluguel caro e a falta de imóveis para moradia de longa duração também pesam sobre famílias e sobre proprietários, embora sob outro marco legal.

A Lei do Inquilinato, Lei 8.245 de 1991, organiza o contrato residencial, define garantias como caução, fiador e seguro-fiança, estabelece regras de reajuste e disciplina a ação de despejo, mas na prática o tempo de tramitação das ações e o custo de manter um imóvel parado levam muitos donos a calcular se vale a pena alugar.

Nas capitais, a combinação de demanda concentrada, estoque limitado de unidades em boas condições e preferência crescente por contratos mais curtos ou por plataformas de temporada reduz a oferta clássica de 30 meses e empurra os valores para patamares que comprometem parcela elevada da renda do trabalhador.

O inquilino brasileiro, como o francês da consulta, teme a perda do teto e enfrenta exigências documentais rígidas; o proprietário, por sua vez, reclama de inadimplência, de demora para reaver o bem e de encargos que corroem o rendimento, o que em muitos casos resulta na decisão de manter o imóvel vazio, vendê-lo ou destiná-lo a outros usos. A comparação não é de cópia institucional, e sim de dinâmica de mercado.

Na França a Orpi pede cinco anos de lei estável para recompor a confiança; no Brasil a Lei do Inquilinato já oferece um texto consolidado há décadas, porém a efetividade depende do ritmo do Judiciário, da qualidade das garantias e da capacidade de o mercado produzir ou liberar unidades em volume compatível com a demanda das regiões metropolitanas.

Em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e outras capitais, a escassez de aluguéis acessíveis perto dos eixos de emprego força deslocamentos longos, divisão de imóveis entre mais moradores e aceitação de condições precárias, enquanto proprietários de classe média avaliam que o risco de um processo de despejo demorado não compensa o aluguel recebido.

Esse cálculo espelha o “não é mais rentável alugar” ouvido do outro lado do Atlântico e produz o mesmo efeito de retração de oferta.

Despejos, garantias e o tempo que separa a regra da chave

No Brasil, a ação de despejo por falta de pagamento ou por término de contrato segue ritos previstos na Lei do Inquilinato, com possibilidade de liminar em hipóteses específicas, mas a percepção de morosidade continua central na decisão do locador.

Enquanto o imóvel permanece ocupado sem pagamento, o proprietário arca com condomínio, IPTU e eventual financiamento, o que transforma a unidade em fonte de prejuízo e reforça a cautela na hora de escolher o próximo inquilino.

Do lado de quem aluga, a exigência de fiador com imóvel quitado na mesma cidade, de seguro-fiança com análise de crédito rigorosa ou de caução elevada funciona como barreira de entrada semelhante à triagem dura descrita nas agências francesas.

O resultado é um mercado em que a formalização do contrato se torna privilégio de quem já reúne documentação robusta, e os demais restam em acordos verbais, sublocações ou periferias mais distantes. A falta de imóveis não se resume a estoque físico zero: há unidades fechadas por herança, por reforma interminável, por expectativa de venda ou simplesmente pelo cálculo de que o aluguel não cobre o risco.

Esse fenômeno, observado tanto na consulta da Orpi quanto no dia a dia das capitais brasileiras, mostra que a crise de habitação locativa é também uma crise de confiança entre as partes. Quando o marco legal é visto como imprevisível ou lento, a oferta se retrai; quando a oferta se retrai, o preço sobe e o confronto se agrava.

A cobrança francesa por uma política legível e duradoura dialoga, portanto, com o debate brasileiro sobre agilizar procedimentos de despejo sem fragilizar a proteção à moradia, sobre ampliar instrumentos de garantia acessíveis e sobre estimular que imóveis ociosos voltem ao mercado de longa duração em vez de migrarem apenas para temporada ou permanecerem trancados.

O que a estagnação do aluguel produz nas cidades e nas famílias

Com menos anúncios e mais candidatos, as cidades perdem mobilidade residencial. Trabalhadores deixam de aceitar empregos longe da moradia atual porque não encontram aluguel viável no novo trajeto; jovens adiam a saída da casa dos pais; famílias superlotam apartamentos pequenos.

Na França, a consulta da Orpi captou esse desamparo em milhares de votos e propostas; no Brasil, o mesmo aperto aparece nas filas de visita, nos grupos de mensagem que disputam vaga e na parcela da renda comprometida com o aluguel nas metrópoles. A consequência social é a radicalização do discurso de cada lado, exatamente o confronto permanente nomeado por Martinaud.

Sem mediação normativa estável e sem oferta adequada, a relação locatícia deixa de ser contrato e vira trincheira. A reportagem de Capital.fr registra o alerta da rede de imobiliárias e os números da consulta e das administradoras como evidência de um mercado que se fende.

Levar esse diagnóstico ao leitor brasileiro não é traduzir uma disputa alheia, e sim reconhecer que aluguel caro, estoque curto e desconfiança entre inquilinos e proprietários já operam aqui sob a Lei do Inquilinato e sob a pressão das capitais.

Enquanto donos calcularem que alugar não compensa e inquilinos acumularem medo de perder o teto, o ciclo de retração e disputa permanece, seja em Paris ou em qualquer metrópole brasileira em que a chave virou bem escasso e a norma, por si só, não basta para devolver o imóvel ao mercado.

O pedido francês de cinco anos de estabilidade normativa serve, ao menos, como espelho de método: em vez de medidas isoladas que acirram um lado ou outro, a ênfase recai sobre previsibilidade para que o cálculo econômico do proprietário e a segurança de permanência do inquilino voltem a caber no mesmo contrato.

No Brasil, aperfeiçoar a aplicação da Lei do Inquilinato, reduzir o tempo morto entre inadimplência e retomada legítima, baratear garantias idôneas e incentivar a abertura de imóveis ociosos são caminhos que dialogam com essa lógica sem copiar o desenho europeu. O confronto permanente só recua quando a oferta reaparece e quando cada parte enxerga na regra um chão comum, e não uma arma.

Até lá, filas longas de um lado e portas fechadas do outro continuam a definir o cotidiano de quem precisa de teto e de quem tem um imóvel parado na conta.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/mais/brasil/donos-de-imoveis-deixam-de-alugar-por-falta-de-rentabilidade-enquanto-225-mil-interessados-disputam-apenas-8-400-moradias-entenda-a-crise-na-franca/

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