O desafio não é apenas tentar antecipar se o Ibovespa vai subir ou cair. É decidir quanto risco assumir antes de um evento que acontecerá com a Bolsa fechada , especialmente depois de três semanas de fortes movimentos nos ativos brasileiros.

Desde o primeiro turno, o mercado passou por uma ampla reprecificação. No primeiro pregão após a votação, o Ibovespa saltou 7,7%, enquanto dólar e juros futuros recuaram com força. Bancos, varejistas, construtoras e empresas ligadas ao mercado de capitais estiveram entre os destaques daquele movimento. Nas sessões seguintes, porém, a euforia inicial deu espaço a uma postura mais cautelosa às vésperas da votação definitiva.

Para quem vai fazer day trade ou pretende terminar a sexta-feira com uma posição aberta, sete cuidados ajudam a colocar a relação entre risco e possível retorno em perspectiva.

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1. Se a volatilidade aumentar, reveja o tamanho da posição

O primeiro cuidado começa antes mesmo de escolher uma ação: quanto dinheiro estará efetivamente em risco?

Victor Hugo Riffel, head da Mesa Trader da Ável, chama atenção para o fato de que a mesma quantidade de ações ou contratos representa riscos diferentes dependendo do comportamento do mercado.

“Se a volatilidade dobra e eu mantenho a mesma mão, meu risco dobra junto”, afirma.

Ele recorre ao conceito de VaR (Value at Risk, ou valor em risco) , uma medida utilizada para estimar quanto uma posição pode perder dentro de determinadas condições. Em termos práticos, se os preços passam a oscilar mais, manter a mesma exposição de um pregão normal aumenta o potencial de perda.

Eduardo Tellechea Cairoli, CEO e fundador da Privatto Multi Family Office, acrescenta que convicção sobre determinado cenário não deve ser confundida com tamanho de posição.

“A sexta-feira não deve ser encarada como um dia de maximização de exposição, mas de seleção das melhores assimetrias”, afirma.

Ou seja: a primeira pergunta não deveria ser apenas quanto uma operação pode render, mas quanto ela pode custar se o cenário esperado não ocorrer .

2. Alavancagem exige cuidado redobrado

O segundo ponto é consequência do primeiro. Operações alavancadas permitem movimentar posições superiores ao capital efetivamente depositado, ampliando tanto ganhos quanto perdas.

O cuidado é especialmente importante para quem começa o dia pensando em day trade e, perto do fechamento, decide levar a posição para segunda-feira. As exigências de margem para operações mantidas entre pregões são diferentes das oferecidas para operações encerradas no mesmo dia.

Além disso, atravessar o fim de semana alavancado significa ficar exposto a uma eventual abertura muito distante do fechamento de sexta-feira.

Uma boa tese com exposição excessiva pode, portanto, produzir uma perda desproporcional caso o mercado se mova na direção contrária.

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Último pregão antes do segundo turno coloca trader diante de uma decisão: zerar posições na sexta ou atravessar a votação exposto ao risco de gap e a uma possível reprecificação dos ativos

3. Decida se vai zerar ou carregar antes dos minutos finais

Para quem faz day trade , a exposição termina quando a posição é encerrada ainda na sexta-feira. Para quem mantém ações ou contratos para o pregão seguinte — uma operação de swing trade —, a situação muda: o principal evento que motivou a operação ocorrerá justamente enquanto a Bolsa estiver fechada.

Por isso, a decisão de zerar ou carregar a posição não deveria ficar para os últimos minutos do pregão.

Além da possibilidade de ajustes bruscos de preço perto do fechamento, o investidor precisa considerar previamente margem, tamanho da exposição e quanto aceita perder caso a abertura de segunda seja muito diferente do esperado.

4. O stop pode não proteger contra um gap

O stop loss ajuda a limitar perdas enquanto o mercado está aberto, mas sua proteção fica mais frágil quando há um intervalo sem negociação.

Esse é o caso do fim de semana eleitoral. Se uma ação reabrir na segunda-feira muito distante do preço de sexta, a ordem não será executada no valor originalmente definido, mas apenas quando houver novamente negócios no mercado.

Por isso, quem decide atravessar a votação posicionado precisa considerar não apenas onde pretende sair da operação, mas também a possibilidade de o primeiro preço disponível na segunda já estar muito distante do nível planejado .

A experiência das eleições anteriores mostra ainda que Bolsa, dólar e ações específicas não necessariamente caminham juntos após a votação. Levantamento da Elos Ayta mostra trajetórias bastante diferentes entre renda variável e câmbio nos ciclos eleitorais anteriores .

Isso torna mais arriscado basear uma operação simplesmente na expectativa de que “a Bolsa vai subir” ou “o dólar vai cair”.

5. Evite apostar várias vezes na mesma tese

O número de papéis na carteira, por si só, não garante diversificação. No último pregão antes da eleição, o mais importante é observar quais fatores estão por trás de cada posição .

Ações de bancos públicos, varejistas, construtoras e small caps podem reagir de forma parecida se o mercado mudar de leitura sobre juros, contas públicas ou atividade econômica. Nesse caso, o investidor pode ter vários ativos diferentes e, ainda assim, estar exposto ao mesmo movimento.

Essa preocupação aparece também entre especialistas que analisaram a alocação de investimentos antes do segundo turno. Maria Carolina Luchesi, especialista de investimentos da Hike Capital, resume a estratégia como retorno à composição planejada da carteira :

“Rebalancear para a alocação-alvo é uma forma de reduzir risco sem apostar em nenhum resultado.”

Para quem opera no curto prazo, a lógica é semelhante: ter quatro posições diferentes não significa diversificação se todas dependem do mesmo cenário para funcionar .

6. Cuidado com ações que já subiram muito

Outro risco desta sexta-feira está no preço de entrada.

Parte importante do chamado trade eleitoral ocorreu nas semanas entre os dois turnos . B3, XP e BTG chegaram a subir mais de 20% no primeiro pregão após a votação inicial; bancos também avançaram mais de 10%. Nas sessões seguintes, varejistas, construtoras e outros papéis sensíveis aos juros continuaram entre os destaques.

Por isso, acertar o resultado eleitoral não necessariamente significa acertar a operação.

“Mais do que acertar quem ganha, o trader precisa saber quanto do resultado já está no preço. E hoje, uma boa parte está”, afirma Riffel.

Cairoli cita o conhecido movimento de “buy the rumor, sell the news” , ou “compre no boato e venda no fato”: o mercado antecipa determinado cenário, os preços avançam e, quando o evento esperado finalmente acontece, investidores aproveitam para realizar lucros.

“O mercado sobe antecipando o resultado e realiza lucros após a confirmação”, afirma.

Há sinais históricos desse comportamento também entre estatais. Estudo da Economatica mostra que, nas seis eleições presidenciais encerradas entre 2002 e 2022 , essas empresas avançaram em média 3% entre os turnos, mas registraram queda média de 1,5% depois do segundo turno, contra recuo de 0,4% das companhias privadas.

Isso não significa que o padrão necessariamente se repetirá nesta eleição, mas ajuda a mostrar por que o preço pago antes da votação importa tanto quanto a direção esperada para depois dela.

7. Não olhe apenas para o Ibovespa

Por fim, o comportamento do índice sozinho pode contar apenas uma parte da história.

Juros futuros ajudam a medir mudanças na percepção sobre inflação, fiscal e política monetária e costumam ter impacto importante sobre varejistas, construtoras, small caps e empresas endividadas. Depois do primeiro turno, por exemplo, o Goldman Sachs estimou que cerca de 85% da valorização do Ibovespa poderia ser explicada pela queda dos juros longos, segundo análise divulgada pelo banco .

O dólar também funciona como termômetro da percepção de risco, enquanto o fluxo estrangeiro merece atenção especial. Pesquisa do Bradesco BBI divulgada nesta sexta mostra investidores estrangeiros mais posicionados em ações brasileiras e mais propensos a elevar exposição nos próximos meses, enquanto os investidores locais ainda mantêm alocações em Bolsa próximas das mínimas históricas.

Também é importante separar o que é eleição do que vem de outros fatores. A Petrobras é um exemplo claro. PETR4 acumula alta próxima de 100% em 2026, mas boa parte desse movimento ocorreu em meio a uma valorização de mais de 85% do petróleo Brent no ano. Ao mesmo tempo, nas seis eleições anteriores analisadas , PETR4 caiu no primeiro pregão após o segundo turno em cinco ocasiões.

O melhor cuidado pode ser não precisar acertar tudo

O histórico eleitoral oferece pouca segurança para quem procura uma regra simples sobre o primeiro pregão depois das urnas. Em alguns ciclos, Bolsa e small caps avançaram enquanto o dólar caiu; em outros, os movimentos foram distintos. A própria reação de ações específicas pode se descolar bastante do Ibovespa.

Para Rafael Perretti, economista e analista da Clear Investimentos, há uma variável mais fácil de antecipar do que a direção do mercado. “A maior clareza que a gente tem é a expectativa em relação à volatilidade do mercado”, afirma.

Por isso, operar nesta sexta-feira exige menos certeza sobre o que acontecerá na segunda e mais controle sobre o que acontece caso a previsão esteja errada.

Antes de abrir ou aumentar uma posição, três perguntas ajudam a resumir os sete cuidados: quanto posso perder, minha posição suporta uma abertura muito distante do fechamento e preciso realmente atravessar o fim de semana posicionado?

Quando a Bolsa voltar a funcionar, após a decisão das urnas, uma das principais incertezas deste pregão já terá sido resolvida. Até lá, gestão de risco continua sendo a parte da operação que o trader consegue controlar.

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