# Mulheres denunciam que camisetas usadas em detidos foram tomadas delas por PMs

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: ACidadeON Campinas (https://www.acidadeon.com/campinas/piracicaba/mulheres-denunciam-que-camisetas-usadas-em-detidos-foram-tomadas-delas-por-pms/)
- Publicado em: 2026-10-23T13:31:33.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1318472-mulheres-denunciam-que-camisetas-usadas-em-detidos-foram-tomadas-delas-por-pms

> Duas mulheres alegaram nesta quinta-feira (22) que as camisetas associadas à campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que três policiais militares teriam obrigado três suspeitos de tráfico de drogas a vestir antes de serem levados à…

Segundo os relatos, os agentes teriam pegado as camisetas com referências à campanha de reeleição do presidente, que elas vestiam, e obrigado três jovens abordados por suspeita de tráfico de drogas a usar as roupas.

O caso ocorreu na quarta-feira (21), na Comunidade Pantanal, e ganhou repercussão após a divulgação de imagens dos três suspeitos usando as camisetas nas redes sociais. Além das denúncias das mulheres, a mãe de um dos jovens também relatou supostas agressões durante a abordagem.

As denúncias foram formalizadas por Marcela Souza Santos e Gessica Pereira Reis, que compareceram ao 1º Distrito Policial de Piracicaba por volta das 19h. Elas deixaram a delegacia depois das 23h30, após prestarem depoimento.

Mulheres relatam agressões e retirada de camisetas

De acordo com o boletim de ocorrência, Marcela e Gessica afirmaram que foram abordadas na manhã de quarta-feira e hostilizadas pelos policiais por estarem usando camisetas do PT.

As duas também relataram que os agentes entraram na residência onde estavam à procura de outras roupas semelhantes. Durante a ação, os policiais teriam encontrado e levado duas camisetas do partido. Uma das mulheres afirmou que foi obrigada a retirar a peça que vestia e entregá-la aos agentes.

Marcela contou que foi chutada durante a abordagem e que os policiais perguntaram se ela tinha outras camisetas.

“Eles falaram ‘trabalha para o PT é?’ e logo em seguida chutaram a minha canela. Todo mundo que estava no local viu ele me chutando. Aí ele virou e me perguntou se eu tinha mais blusas dessas e eu respondi que tinha apenas mais uma, aí ele disse que precisavam de mais cinco se eu não quisesse ser presa”, relatou.

Géssica também afirmou que os policiais perguntaram se elas tinham mais camisetas do partido e ordenaram que retirassem as peças que vestiam, sob a orientação de que colocassem outras roupas por baixo.

“As camisetas que estavam nos meninos eram as que a gente estava vestindo”, disse.

Jovens teriam sido obrigados a vestir as roupas

A ocorrência que deu origem às denúncias envolveu dois homens, de 21 e 24 anos, presos por suspeita de tráfico de drogas, e um adolescente de 17 anos, apreendido. Segundo a SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), a ação começou após uma denúncia feita pelo telefone 190, informando que três pessoas estariam comercializando entorpecentes e que uma delas estaria armada.

No registro da prisão, os policiais afirmaram que a denúncia mencionava indivíduos com camisetas brancas com estampas relacionadas a manifestações políticas.

Durante a abordagem, foram apreendidas 160 porções de cocaína, R$ 340 em dinheiro e um revólver calibre .32 com a numeração suprimida.

As circunstâncias envolvendo as camisetas, porém, são contestadas por testemunhas e familiares dos jovens. Marcela e Géssica afirmaram ter presenciado os policiais obrigando os três homens a vestir as peças.

Ao chegar à delegacia, um dos suspeitos também teria informado que os agentes encontraram as camisetas em um barraco da viela e ordenaram que eles as vestissem.

A mãe do adolescente apreendido, Edna Souza Barbosa, afirmou que o filho não usava uma camiseta do partido no momento da abordagem . Segundo ela, o jovem vestia uma regata azul antes da ação policial.

Edna também relatou que questionou os agentes sobre o motivo de os três suspeitos estarem usando camisetas iguais. De acordo com ela, um dos policiais teria feito uma referência à campanha eleitoral e dito que seriam “menos três votos no domingo”.

Mãe denuncia agressões durante abordagem

Além das denúncias relacionadas às camisetas, Edna afirmou que o filho foi agredido pelos policiais durante a ocorrência. Segundo ela, parte das agressões teria acontecido do lado de fora da residência da família.

“Eu me deparei com os policiais e aí eu perguntei o que estava acontecendo e me falaram que tinha pegado ele traficando. Nisso, pedi para o policial ter calma, enquanto o meu filho gritava que os policiais já tinham batido muito nele. Eu cheguei a presenciar um dos momentos de agressões aqui fora de casa, na hora que eles desceram. Um dos policiais desceu jogando meu filho escada abaixo, enquanto um outro policial estava com a mão na minha porta me impedindo de sair”, relatou.

A mãe também afirmou que a filha, de 14 anos, teria sido agredida ao tentar chamá-la durante a ação. As acusações ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes.

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Vídeo dos suspeitos repercutiu nas redes sociais

Após a abordagem, imagens dos três jovens usando as camisetas foram divulgadas nas redes sociais pelo senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP).

Em nota, Derrite afirmou que publicou o vídeo para chamar a atenção para o envolvimento de jovens com o tráfico de drogas, problema que, segundo ele, também atinge cidades do interior paulista. Ele declarou que a publicação não fez referência às camisetas e defendeu que as denúncias sejam investigadas pelos órgãos competentes.

O vereador Renan Paes (PL) também divulgou um áudio que, segundo ele, corresponderia à ligação recebida pelo telefone 190. Na gravação, o denunciante afirma que os suspeitos usavam camisetas brancas e diz acreditar que uma delas seria “do Lula”. A Polícia Militar não confirmou a autenticidade do áudio divulgado pelo parlamentar.

Ouvidoria pede afastamento de policiais

A Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo informou que recebeu com extrema preocupação as denúncias de que policiais militares teriam obrigado jovens abordados em Piracicaba a vestir camisetas com conteúdo político-partidário, além de praticar agressões físicas e outros possíveis abusos durante a ação.

O órgão informou que abriu um protocolo e encaminhou um ofício à Corregedoria da Polícia Militar solicitando informações sobre os procedimentos adotados. A Ouvidoria também pediu o afastamento imediato dos policiais do serviço operacional até a conclusão das apurações.

Em nota, a Ouvidoria afirmou que as denúncias envolvem possíveis violações de direitos fundamentais, como violência policial, abuso de autoridade e constrangimento ilegal, além de eventuais práticas que podem configurar tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante.

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que não compactua com desvios de conduta e que o comando de policiamento responsável iniciou uma investigação preliminar para apurar as supostas irregularidades.

A Polícia Militar também afirmou que tomou conhecimento das acusações de agressões e de que os jovens teriam sido obrigados a vestir as camisetas. Segundo a corporação, os fatos serão analisados por meio dos procedimentos de apuração cabíveis.

A reportagem procurou a Corregedoria da Polícia Militar para saber se os agentes foram afastados, mas não havia recebido resposta até a publicação. A SSP-SP também foi questionada especificamente sobre o boletim registrado pelas duas mulheres, mas ainda não havia se manifestado sobre esse ponto.

PT pede investigação eleitoral

A deputada estadual Professora Bebel (PT) afirmou ter recebido relatos de mulheres agredidas e intimidadas por policiais na comunidade e informou ter acionado a Corregedoria da Polícia Militar.

O PT também acionou a PGR (Procuradoria-Geral da República) e pediu uma investigação do Ministério Público Eleitoral. O partido quer que os policiais envolvidos, a mãe do adolescente e Guilherme Derrite, que publicou o vídeo dos jovens, sejam ouvidos para apurar se as camisetas foram colocadas nos suspeitos após a abordagem para associá-los à campanha de Lula.

O que aconteceu com os jovens

O adolescente de 17 anos foi encaminhado à Fundação Casa. Os dois adultos passaram por audiência de custódia na quinta-feira (22). O homem de 21 anos foi colocado em liberdade, enquanto o de 24 anos permaneceu preso.

A Defensoria Pública informou que participou das audiências e que os relatos apresentados foram considerados pelo Judiciário na análise do caso.

A advogada Joice Vanessa dos Santos, que representa um dos policiais militares, afirmou que as denúncias não retratam adequadamente o contexto da ocorrência. Segundo ela, será necessário esclarecer os motivos da abordagem e a sequência completa dos fatos.

A defesa declarou que apresentará sua versão e os elementos que considerar pertinentes às autoridades responsáveis pela investigação.

O Ministério da Justiça também cobrou a apuração do caso e pediu a preservação das imagens das câmeras corporais dos policiais envolvidos, além das gravações das chamadas ao telefone 190, dos registros operacionais e das imagens de videomonitoramento.

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