Por volta das 19h30, a frente do palco já estava ocupada por fãs que chegaram cedo e acompanharam a passagem de som, marcada por uma jam que incluiu pedidos de músicas que o grupo não costuma tocar ao vivo e outras que integrariam o setlist da noite. Enquanto o público ocupava o restante da pista e as arquibancadas laterais, o palco permanecia atrás de uma cortina translúcida, iluminada com uma espécie de Bat-Sinal com o logo da banda, enquanto a equipe do quarteto mineiro, formado por Pedro Calais (vocal), Otávio “Zani” Cardoso (guitarra), Francisco “Chicão” Jardim (baixo) e Glauco “Jorge” Borges (guitarra), fazia os ajustes finais.

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Antes do início da apresentação, a Rolling Stone Brasil entrou no backstage para conversar com Pedro , Zani , Chicão e Jorge sobre o momento atual da Lagum , o disco de estúdio As Cores, As Curvas e as Dores do Mundo — eleito pela Rolling Stone Brasil um dos melhores álbuns nacionais de 2025 —, as live sessions gravadas em locais marcantes do Brasil, as cobranças por posicionamentos políticos, a turnê Lagum em Todo Lugar e mais.

A nova fase da Lagum

Desde a pandemia, a Lagum passou por diversas transformações, especialmente após a morte do baterista Breno Braga , o Tio Wilson , aos 34 anos, em 12 de setembro de 2020, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. A última participação do músico em um álbum do grupo foi em Memórias (De Onde Eu Nunca Fui) , de 2021. Desde então, a sonoridade do agora quarteto mudou bastante.

Em 2023, eles lançaram Depois do Fim , álbum de sonoridade introspectiva, com letras mais filosóficas e existenciais e bastante apoiado no violão. “Foi o nosso primeiro trabalho sem um baterista. Até Memórias , geralmente tínhamos uma composição do Pedro, que chegava e todo mundo ia tocar junto como uma banda”, afirmou Jorge à Rolling Stone Brasil em 2024 . “Então foi muito natural a gente seguir por esse caminho [ de Depois do Fim ], porque a gente estava sem o Tio , sem ninguém na parte rítmica, o que fez com que procurássemos samples e construíssemos as baterias de uma forma não orgânica.”

É interessante porque vai na contramão total do nosso show, que tem um caráter muito mais rock and roll, muito mais banda.

Com As Cores, As Curvas e as Dores do Mundo , Lagum retomou uma sonoridade mais próxima da de uma banda tocando junta, por assim dizer. O álbum reúne faixas como “ A Cidade ”, “ Tô de Olho ”, com participação de Céu , “ Vida Novela ” e “ Baby Blue ”, misturando pop, rock, reggae e folk, enquanto as letras (re)apresentam a beleza da simplicidade.

Agora, Jorge brinca que, para ele, é como se o álbum — que considera “fundamental” para a trajetória do grupo — tivesse sido lançado há cinco anos. Isso porque os integrantes passam tanto tempo envolvidos em todas as etapas do processo, da gravação à pós-produção e ao lançamento, que mal conseguem assimilar o resultado. “Não conseguimos entender, contemplar e, às vezes, curtir as músicas”, disse. “Às vezes, ouvimos um álbum um ano depois e acabamos tendo outras percepções, ouvindo a música de outra forma.”

Segundo o artista, As Cores, As Curvas e as Dores do Mundo sempre será uma obra importante na discografia da Lagum . “Marcou um processo de transição que a gente viveu, tanto fonograficamente quanto internamente, em alguns outros lados da banda Lagum como empresa. Mas, agora, a gente já está olhando muito para a frente também.”

Lagum em Todo Lugar

Depois de explorar ao vivo o repertório do álbum mais recente, a banda deu início a um de seus projetos mais interessantes e inusitados: as live sessions, com sucessos, músicas raras e novas canções gravadas em cartões-postais do Brasil. Até o momento, o quarteto passou pelo Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e pela Amazônia. A próxima gravação, garantem, será feita em um balão de ar quente — ideia que também inspirou o cenário da nova turnê.

A turnê Lagum em Todo Lugar , realizada em parceria com a Live Nation , e as live sessions estão diretamente conectadas pela proposta de levar a música do grupo a novos públicos. “A gente revisita nosso repertório com novos arranjos”, explica Zani no camarim da Arena Hall. A ideia de transformar as sessões gravadas em uma turnê começou a surgir entre novembro de 2025 e janeiro deste ano. “Uma parada mais ‘easy listening’, vamos dizer, passando por todo o nosso repertório para chegar de uma maneira diferente para novas pessoas.”

Além disso, tanto a nova série de shows quanto as live sessions surgem com a proposta de levar a banda a diferentes lugares do Brasil — e novamente ao exterior, eventualmente — de diversas formas, segundo Chicão . “Inclusive hoje, antes do show, fizemos um encontro com a galera, nesse lugar de intimidade, de trazer esse encontro com o público e trazer novidades. Vejo [ a turnê ] Lagum em Todo Lugar em vários sentidos, como no show de hoje.”

Desde o início da trajetória, há 12 anos, o improviso é um elemento fundamental nos projetos do grupo, que adota o “faça você mesmo” como lema. Isso aparece desde a criação artesanal da capa de Seja o Que Eu Quiser (2016), álbum de estreia, até a montagem dos shows. Lembra do Bat-Sinal no cenário de Lagum em Todo Lugar ? Ele foi feito no próprio dia da estreia da turnê.

No dia anterior ao show, em meio à correria, Pedro Calais pediu à equipe que imprimisse um adesivo para ser colado em um acrílico sobre a bag do trompetista William Pajé . Bastou ligar a luz para que o Lagum-Sinal estivesse pronto para acompanhar a banda pelo restante da turnê. Outra ideia que surgiu de última hora foi a de um espelho, pisoteado e rachado durante “ É Seu ”, faixa de Coisas da Geração (2019).

É claro que outros elementos visuais foram planejados com antecedência, em colaboração com o produtor Paul Ralphes e Batman Zavareze , responsáveis pela direção e concepção visual. Já a parte musical segue um planejamento mais longo, com menos espaço para improvisos.

“Fizemos uma parte visual muito interessante. O palco tem um formato de luz que remete a um balão, que é a nossa próxima live session. Tem muita coisa planejada que dá certo porque a gente se preparou, como o repertório”, contou o vocalista.

A relação entre a Lagum e seus fãs também é um elo importante na trajetória da banda e vai além do ambiente online, onde os seguidores costumam demonstrar bastante engajamento. Em agosto de 2026, por exemplo, para comemorar os dez anos do disco de estreia, os músicos fizeram um show surpresa em uma varanda em Belo Horizonte. O público lotou o espaço em frente ao prédio para acompanhar o pocket show do quarteto.

“São 12 anos de banda, dez do primeiro disco. E revisitar isso lá na varanda… A gente tocou, porra, ‘ 2026 ’, ‘ Fifa ’, ‘ Pra Lá de Bagdá ’, várias do primeiro álbum”, relembrou Calais . “É muito foda ver os nossos amigos de infância, que cresceram com a gente, e nos apoiaram desde o início. Hoje vão estar no show, estavam lá no dia da varanda. Para mim, é emocionante ver esses ciclos acontecendo, se fechando, como vai ser hoje, sabe?”

Essa proximidade com os fãs também significa que a relação não se limita à música: o público acompanha as atitudes dos integrantes e cobra posicionamentos sobre questões que considera importantes, especialmente na política. Calais já havia manifestado apoio à candidatura de Lula ( PT ) no segundo turno da disputa presidencial contra Flávio Bolsonaro ( PL ), mas parte do público cobrou que Chicão , Jorge e Zani também se posicionassem publicamente.

Questionado sobre essas cobranças, Zani comentou que considera importante recebê-las dos fãs. “É, eu acho… um monte de coisa. Mas cada um tem seu posicionamento. Agora é um momento importante para nós. Então, cada um fez da sua forma. Mas, mais importante do que a vigilância das redes de cada pessoa, é cada um conseguir fazer a sua parte ali, conversar com quem está próximo para virar voto, mesmo. Temos essa consciência, nos posicionamos, e é isso aí.”

A rotina de artistas independentes

As Cores, As Curvas e as Dores do Mundo foi o primeiro álbum da Lagum gravado de forma independente desde Seja o Que Eu Quiser , após o fim do contrato com a Sony Music . Pela gravadora, o grupo lançou Coisas da Geração , Memórias (De Onde Eu Nunca Fui) e Depois do Fim .

Agora, sem uma empresa responsável por áreas como produção, marketing, distribuição e monetização das músicas, os integrantes e a equipe precisam cuidar de diferentes frentes para garantir a continuidade do trabalho artístico.

Jorge conta que eles sempre quiseram acompanhar de perto tudo o que acontecia, mesmo quando essas questões pareciam um pouco mais distantes. Para ilustrar a situação atual, ele recorre à famosa frase do Homem-Aranha : “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

“Só que agora acho que a gente finalmente… É um aprendizado constante, né? Estamos sempre aprendendo e errando, mas sempre progredindo, também”, complementou. “Ficamos cada vez melhores, com cada vez mais pessoas aptas e habilidosas. Estamos no nosso melhor momento.”

Sem dúvida, essa rotina, diferente daquela a que estavam acostumados, exige mais de cada um dos quatro. Com tantos compromissos profissionais, entre shows, entrevistas e gravações das live sessions, a Lagum também tem encontrado pouco tempo para compor músicas novas. Pedro , responsável pelas composições do grupo, revela que não se sente em um bom momento criativo, embora a banda esteja revisitando algumas canções inéditas que já foram escritas.

“Após a turnê Lagum em Todo Lugar , é de fato parar para fazer música, porque não estou conseguindo ter ótimas ideias. Consigo ter boas ideias, rimar ali, mas acho que aquela música que vem da divindade precisa de um tempo”, confessou. O cantor espera por aquele sopro de inspiração, como o Deus que, segundo Michael Jackson , visita os artistas em seus sonhos.

Uma curiosidade: boa parte das composições da banda foi criada por Pedro sentado no vaso sanitário — não necessariamente durante o uso. O artista continua recorrendo a esse método, embora com menos frequência.

“Recentemente voltei para a casa da minha mãe, onde cresci. É engraçado porque o quarto em que eu morava não tinha parede entre a cama e o banheiro. Porra, eu ia ao banheiro, atravessava o quarto com o violão e sentava lá. Não era nem para fazer necessidades, não, era para fazer um som, mesmo”, recordou, rindo. “Voltei lá agora e fiz uma música no banheiro recentemente.”

Mesmo com a rotina atribulada, os integrantes tentam reservar algum tempo livre para se distrair e extravasar. Jorge gosta de jogar Magic: The Gathering e praticar tênis. Pedro faz jiu-jítsu e sai para pedalar com o irmão ou na casa da mãe (“pego a bicicleta, passo pelo jiu-jítsu, saio na mão, tomo um banho e vou para o estúdio”). Zani se dedica à leitura, ao xadrez, tenta manter uma rotina de exercícios físicos e explora experiências gastronômicas (“essas comidinhas diferentes que têm com café gostoso”). Já Chicão procura se dedicar aos esportes e a passar tempo de qualidade com a família (“É um dos pilares para me recarregar. E estudar instrumento também — é um passatempo legal”).

Show da Lagum na Arena Hall, Belo Horizonte, em estreia da tour ‘Lagum em Todo Lugar’ (Foto: Breno Galtier)

A Lagum daqui para frente

Antes da apresentação na Arena Hall, Pedro afirmou nas redes sociais da banda que aquele seria o show mais bonito da história da Lagum , tanto musical quanto visualmente. E posso afirmar que ele estava certo. Jogando em casa, diante dos fãs de sua cidade natal, o grupo impressionou desde o início, com as sombras dos músicos projetadas na cortina e um repertório que percorreu diferentes momentos da discografia. Um dos destaques foi a parte acústica, durante a qual os integrantes cantaram em um elevador que subiu diante da arquibancada à esquerda, aproximando-os dos fãs nas cadeiras.

Para além da música, o momento atual também parece ter ampliado a visão dos integrantes sobre o papel que a banda pode desempenhar na sociedade. Pedro falou sobre a importância de transformar essa percepção em ações concretas.

“Espero que, além dos shows e do trabalho, a gente consiga descansar. Espero que a gente consiga também ter um impacto direto na sociedade. Esse momento está mostrando para a gente a importância de falar sobre política e agir politicamente, não só na época das eleições. Abriu muito os meus olhos. Quero muito que consigamos fazer mais ações para o meio ambiente, uma pauta que sempre defendemos. Que a gente consiga apoiar também os nossos fãs”, refletiu o cantor.

Essa vontade de promover mudanças e assumir posicionamentos pode ser fundamental para a continuidade do grupo. “A Lagum é uma banda feita para ser atemporal. Queremos que nosso som perpetue, que nosso público cresça e evolua junto com a gente. Estamos no caminho certo para isso.”

*A Rolling Stone Brasil viajou para Belo Horizonte a convite da banda.

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