Por trás de uma partida competitiva existem horas de treinamento, análises de desempenho, reuniões e testes de estratégias. E uma das ferramentas mais importantes dessa preparação são as chamadas scrims.
Mas como elas funcionam? O que diferencia uma partida de treinamento de um confronto oficial? E será que uma equipe precisa vencer seus treinos para chegar preparada a um campeonato?
Para responder a essas perguntas, o Olhar Digital conversou com o coach Night Wing, que explicou os bastidores da preparação competitiva e os desafios de desenvolver jogadores, especialmente nas categorias de base.
O que são scrims no League of Legends?
O termo scrim vem da palavra inglesa scrimmage, utilizada para descrever partidas de treinamento entre equipes.
Nos e-sports, essas partidas permitem que os jogadores enfrentem outros times em um ambiente semelhante ao de uma competição oficial, mas com objetivos voltados ao aprendizado.
Segundo Night Wing, as scrims geralmente são organizadas em blocos de melhor de três (MD3) ou melhor de cinco partidas (MD5).
Isso significa que as equipes disputam uma sequência de jogos, utilizando cada confronto para testar estratégias, identificar problemas e aprimorar a atuação coletiva.
“São blocos de MD5 ou MD3, onde os times se enfrentam simulando situações reais”, explica o treinador.
A escolha dos adversários também faz parte do planejamento.
Night Wing considera importante enfrentar equipes de níveis diferentes, combinando parceiros de treinamento recorrentes com adversários que apresentem novos desafios.
Os treinos contra equipes de nível semelhante permitem acompanhar a evolução ao longo do tempo. Já os confrontos contra adversários diferentes ajudam a identificar como o time reage a estilos de jogo variados.
A organização dessas partidas costuma acontecer por meio de grupos de scrims, nos quais representantes das equipes combinam horários e confrontos.
Conforme as organizações se profissionalizam, a responsabilidade pelo calendário pode passar a integrantes da comissão técnica, que procuram evitar treinamentos pouco produtivos.
Como funciona a rotina de treinamento de uma equipe?
Uma equipe competitiva não passa o dia inteiro disputando partidas.
Na rotina considerada ideal por Night Wing, os jogadores começam o dia cuidando de atividades pessoais e da saúde física.
Após o almoço, a equipe realiza uma conversa para revisar o planejamento e definir os objetivos do treinamento.
O primeiro bloco de scrims costuma começar entre 13h e 14h.
Durante os intervalos entre as partidas, treinador e jogadores discutem ajustes pontuais, procurando corrigir problemas sem interromper excessivamente o ritmo do treinamento.
À noite, a equipe pode realizar um segundo bloco mais curto ou dedicar o período a uma análise aprofundada das dificuldades identificadas anteriormente.
Mas existe uma diferença importante entre simplesmente jogar e treinar de maneira organizada.
Na solo queue, modalidade ranqueada em que os jogadores entram individualmente ou em dupla na fila para encontrar uma partida, o foco costuma estar no aprimoramento de habilidades individuais.
Night Wing explica que a repetição ajuda a automatizar comportamentos positivos, permitindo que determinadas decisões sejam executadas com menor esforço mental.
Já nas scrims, a comunicação se torna fundamental.
O objetivo é fazer com que cinco jogadores, com funções e responsabilidades diferentes, consigam tomar decisões alinhadas durante a partida.
Vencer uma scrim significa que o treinamento foi bom?
Uma das principais diferenças entre as scrims e os campeonatos está na maneira como o resultado deve ser interpretado.
Durante os treinamentos, vencer não precisa ser o objetivo principal.
“Vencer é muito mais consequência que objetivo, tanto de scrim quanto de campeonato”, afirma Night Wing.
Segundo o treinador, uma equipe pode utilizar essas partidas para testar composições de campeões, aprimorar a execução de objetivos ou aprender a reagir quando está em vantagem ou desvantagem.
Em alguns casos, o treinamento pode se concentrar em apenas uma parte da partida.
Night Wing cita as chamadas turbo scrims, utilizadas em cenários competitivos da América Latina, nas quais os jogos podem durar cerca de 15 minutos para trabalhar especificamente o early game, expressão que se refere aos primeiros momentos de uma partida.
Esse tipo de exercício permite repetir situações importantes sem necessariamente disputar um jogo completo.
O treinador também destaca que perder várias scrims não significa, obrigatoriamente, que a preparação fracassou.
“Com certeza”, respondeu ao ser questionado se uma equipe poderia perder todos os treinamentos da semana e, ainda assim, chegar mais preparada para uma partida oficial.
Ele explica que o aprendizado acontece quando os jogadores passam a compreender melhor as consequências de suas decisões.
Um jogador que insiste em uma invasão arriscada durante os treinos, por exemplo, pode aprender a reconhecer quando essa escolha não é adequada.
Em uma partida oficial, a experiência anterior pode ajudá-lo a tomar uma decisão diferente.
Night Wing também relata já ter enfrentado semanas ruins de treinamento seguidas por recuperações em competições, incluindo situações em que sua equipe conseguiu uma virada após estar em desvantagem em uma série.
Para ele, a qualidade do ambiente e a capacidade de aprendizado são mais importantes do que o placar isolado das scrims.
O que acontece depois das partidas de treinamento?
Quando uma scrim termina, o trabalho da comissão técnica continua.
Uma das principais ferramentas utilizadas nesse processo é o VOD review, nome dado à análise de gravações de partidas.
O objetivo é identificar decisões que contribuíram para o resultado, compreender erros individuais e coletivos e encontrar maneiras de melhorar o desempenho.
Night Wing explica que prefere realizar comentários curtos entre as partidas, deixando discussões mais aprofundadas para o encerramento do bloco de treinamento.
Dessa maneira, a equipe consegue fazer ajustes sem perder o ritmo.
O treinador também destaca a importância de investigar as causas dos problemas, em vez de observar apenas suas consequências.
Um jogador que apresenta dificuldades para acumular recursos durante a fase de rotas, por exemplo, pode estar adotando uma postura excessivamente passiva ou tentando realizar jogadas agressivas nos momentos errados.
Embora as estatísticas ajudem a identificar o problema, elas nem sempre explicam sua origem.
Por isso, analisar as gravações e ouvir os jogadores são etapas complementares.
“Ouvir o jogador sempre traz respostas para as perguntas que o treinador tem”, ressalta.
A comunicação também precisa ser treinada
Em League of Legends, cinco jogadores precisam compartilhar informações e tomar decisões em poucos segundos.
Por isso, uma comunicação eficiente pode ser tão importante quanto a habilidade individual.
Night Wing chama atenção para uma interpretação equivocada do shotcalling, termo utilizado para descrever a comunicação de decisões estratégicas durante uma partida.
Segundo ele, concentrar toda a responsabilidade em apenas um jogador pode sobrecarregá-lo.
O ideal é que os cinco integrantes participem da comunicação de maneira constante, clara e objetiva.
Para identificar falhas, o treinador recomenda gravar não apenas as partidas, mas também a comunicação da equipe.
Assim, é possível revisar momentos em que uma decisão equivocada aconteceu por falta de informação, excesso de comunicação ou interpretações diferentes da mesma situação.
Esse trabalho também contribui para desenvolver a confiança entre os jogadores.
Por que uma equipe pode dominar os treinos e perder no campeonato?
O desempenho nas scrims nem sempre se repete nas partidas oficiais.
Uma das razões apontadas por Night Wing é a pressão competitiva.
Durante os treinamentos, os jogadores podem se sentir mais confortáveis para experimentar estratégias e assumir riscos.
Em campeonatos, porém, a responsabilidade pelo resultado pode modificar o comportamento da equipe.
“Existem muitos times que jogam travados no campeonato, sentindo a pressão de performar”, observa.
O contrário também pode acontecer.
Uma equipe que teve uma semana ruim de treinamento pode entrar em uma partida oficial com menos expectativas e apresentar um desempenho superior ao esperado.
Para Night Wing, a maneira como cada atleta reage à pressão é individual, e o acompanhamento psicológico pode contribuir para esse processo.
Outro fator importante é reconhecer quando o excesso de treinamento começa a prejudicar o desempenho.
O treinador explica que a queda de concentração e mudanças na comunicação podem indicar cansaço ou frustração.
Nessas situações, insistir em mais partidas pode tornar o treinamento improdutivo.
Por isso, ele defende períodos de descanso e atividades fora do jogo.
“Conciliar o IRL e o online é essencial para se tornar um bom atleta”, afirma, utilizando a sigla IRL, de in real life, expressão que significa “na vida real”.
Como as equipes do Tier 3 podem melhorar seus treinamentos?
A realidade das equipes de base é diferente daquela encontrada nas grandes organizações profissionais.
Muitos times não possuem analistas, psicólogos ou comissões técnicas completas. Em alguns casos, o treinador também está começando sua carreira.
Para Night Wing, essa situação representa um desafio adicional, já que profissionais ainda em formação precisam orientar jogadores que também estão aprendendo os fundamentos do competitivo.
Ele destaca que o trabalho pode ser difícil e mal remunerado, quando existe remuneração.
Mesmo assim, algumas práticas podem contribuir para tornar os treinamentos mais produtivos.
O treinador recomenda estabelecer momentos de concentração durante as scrims, organizar reuniões e criar um ambiente no qual os jogadores se sintam confortáveis para aprender.
Também considera importante que equipes com integrantes de diferentes níveis de experiência assistam a partidas juntas.
A análise coletiva ajuda a aproximar a compreensão que cada jogador possui sobre o jogo, facilitando a construção de estratégias compartilhadas.
Para quem deseja começar a treinar de maneira mais profissional, Night Wing apresenta três orientações:
Assistir a partidas em conjunto: analisar jogos de outras equipes permite discutir decisões e desenvolver uma visão coletiva sobre League of Legends.
Passar tempo de qualidade fora do jogo: atividades em grupo podem melhorar o entrosamento e fortalecer o respeito entre os integrantes.
Praticar a comunicação: conversar abertamente dentro e fora das partidas ajuda a construir confiança e facilita a resolução de problemas.
O treinador ressalta que os jogadores não precisam necessariamente ser amigos, mas devem respeitar uns aos outros como colegas de equipe.
O treinamento começa muito antes da partida oficial
Competições como o CELOL Série A, organizado pela Liga GG , oferecem um espaço para que equipes de base coloquem em prática aquilo que desenvolveram durante os treinamentos.
Entretanto, o resultado apresentado no campeonato representa apenas uma parte do processo.
Antes de cada confronto, existem decisões analisadas, estratégias testadas, erros corrigidos e conversas que dificilmente chegam ao conhecimento do público.
As scrims fazem parte desse trabalho porque permitem que os jogadores experimentem situações competitivas e aprendam com elas antes de enfrentarem a pressão de uma partida oficial.
Como explica Night Wing, o objetivo do treinamento não deve ser apenas acumular vitórias, mas desenvolver a capacidade de reconhecer situações e tomar decisões melhores.
No fim, uma boa scrim não é necessariamente aquela que termina com uma vitória. É aquela que deixa a equipe mais preparada para o próximo desafio.
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