Esse interesse ganhou força com as chamadas “canetas emagrecedoras”, que contêm medicamentos à base de peptídeos. Outros peptídeos e seus análogos são usados como remédio há décadas. Mas boa parte do que é divulgado na internet, com promessas milagrosas, não tem comprovação científica, não está aprovado para os usos anunciados e pode representar riscos à saúde .
“A febre veio na carona da semaglutida e da tirzepatida . Esses remédios funcionam de verdade para obesidade e diabetes , e isso criou um raciocínio torto: se um peptídeo injetável emagrece, qualquer peptídeo injetável deve emagrecer, ou dar músculo, ou rejuvenescer. Não funciona assim”, afirma André Câmara de Oliveira, endocrinologista e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (SBEM-SP).
O que é um peptídeo?
Os peptídeos são moléculas formadas por cadeias de aminoácidos , compostos orgânicos que se ligam uns aos outros por meio de ligações peptídicas. Muitos são produzidos pelas células a partir de instruções contidas no DNA. Outros são formados a partir do processamento de proteínas maiores.
“O peptídeo é como se fosse um quebra-cabeça. E cada peça desse quebra-cabeça é como se fosse um aminoácido. Então, o quebra-cabeça é o peptídeo e as peças são os aminoácidos”, explica Gustavo David dos Santos, biólogo, mestre e doutor em fisiologia e professor do American Academy Health da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
As proteínas são formadas pelo mesmo tipo de ligação entre aminoácidos, mas geralmente são maiores e apresentam estruturas mais complexas. A distinção entre peptídeos e proteínas, porém, não tem um limite de tamanho universalmente estabelecido.
Qual é a função de um peptídeo?
Depois de ser produzido pelo organismo, esse peptídeo é quebrado em partes menores. Um desses fragmentos dá origem a um peptídeo biologicamente ativo, capaz de modular diferentes funções fisiológicas.
Na prática, isso significa que ele pode atuar na regulação da glicemia (quantidade de glicose no sangue), do apetite, da digestão, do crescimento, da reprodução e da resposta ao estresse , entre outras funções.
Para exercer seus efeitos, esses peptídeos geralmente se ligam a estruturas presentes na membrana plasmática das células, chamadas receptores. Essa ligação desencadeia respostas específicas no organismo.
“É um mecanismo comumente chamado de chave-fechadura. O peptídeo é como se fosse uma chavezinha, que tem uma fechadura específica à qual se liga para gerar uma mudança na função celular”, explica Santos.
Quantos peptídeos existem?
O organismo humano contém milhares de sequências de peptídeos identificadas pela ciência. Um estudo publicado em 2022 na revista Nature Communications citou que cerca de 300 peptídeos humanos com atividade biológica foram caracterizados por pesquisadores até então.
Alguns com funções conhecidas são a insulina , que ajuda a controlar a glicemia, e o glucagon , que contribui para elevar os níveis de glicose no sangue quando necessário. Outro que ganhou popularidade nos últimos anos é o GLP-1 , um hormônio que participa da regulação do apetite e da glicemia.
Os peptídeos produzidos em laboratório
Os cientistas começaram a produzir peptídeos em laboratório no século 19 . Em 1881, o químico alemão Theodor Curtius sintetizou uma molécula que continha dois aminoácidos unidos, um dos primeiros passos para a produção artificial de peptídeos. Desde então, as técnicas avançaram e permitiram produzir moléculas mais complexas.
“A principal diferença dos peptídeos naturais produzidos pelo nosso organismo e os produzidos em laboratório é que os peptídeos naturais são utilizados como ponto de partida. Em laboratório, por outro lado, pode ocorrer o processo de síntese de uma molécula idêntica à que nós produzimos naturalmente, mas geralmente essa molécula é sintetizada, ela é uma molécula que tem modificações”, detalha Santos.
Entre os exemplos mais conhecidos estão a insulina e seus análogos , usados no tratamento do diabetes, e a semaglutida e a tirzepatida , indicadas para diabetes tipo 2 e obesidade. Esses dois últimos medicamentos estão entre os avanços mais importantes recentes no tratamento medicamentoso da obesidade.
Outros exemplos são o glucagon, utilizado em casos de hipoglicemia grave; a teriparatida, um análogo do hormônio da paratireoide (PTH), indicado para determinados casos de osteoporose; e a octreotida e a lanreotida, análogos da somatostatina usados no tratamento da acromegalia e de alguns tumores neuroendócrinos.
Como saber se um peptídeo tem registro na Anvisa?
É possível consultar os medicamentos registrados no Brasil na base de dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A pesquisa pode ser feita pelo nome do princípio ativo ou do medicamento.
É importante verificar o produto específico e sua situação regulatória. O fato de uma substância ter sido estudada ou ser usada em medicamentos no exterior não significa que qualquer produto que a contenha esteja autorizado no Brasil.
Em julho de 2026, a Anvisa informou que determinados peptídeos injetáveis divulgados nas redes sociais, como BPC-157, TB-500, GHK-Cu, CJC-1295 e ipamorelina, não estavam registrados como medicamentos no país. A agência também alertou que alguns desses produtos não têm regularização em nenhuma categoria sanitária .
Como identificar promessas suspeitas?
Oliveira, da SBEM-SP, aponta alguns sinais de alerta que o público deve observar nas redes sociais ao se deparar com a venda de peptídeos:
promessas demais: o mesmo produto promete emagrecer, aumentar a massa muscular, melhorar a libido e rejuvenescer. Desconfie de substâncias anunciadas como soluções para problemas tão diferentes;
resultados garantidos: promessas de eficácia garantida ou de ausência de efeitos colaterais ignoram as diferenças entre pacientes e os riscos dos tratamentos;
apelo ao natural: termos como “natural” e “bioidêntico” são usados para transmitir segurança, mas não garantem que uma substância seja eficaz ou livre de riscos;
venda sem avaliação médica: ofertas pelo direct ou WhatsApp, sem consulta ou acompanhamento profissional, são um sinal de alerta;
confusão entre categorias: um produto injetável é anunciado como suplemento ou cosmético. Suplementos alimentares não são destinados à administração por injeção;
antes e depois como prova: imagens de transformação são usadas como principal evidência de eficácia, sem dados de estudos clínicos que sustentem as promessas;
estudos apresentados fora de contexto: resultados obtidos em células ou animais são divulgados como se já comprovassem os mesmos efeitos em seres humanos;
aprovação estrangeira sem detalhes: o vendedor afirma que o produto é “aprovado pelo FDA”, a agência reguladora dos Estados Unidos, mas não informa para qual indicação. No Brasil, a regularização de medicamentos cabe à Anvisa;
protocolos com vários peptídeos: combinações são vendidas como tratamentos personalizados, embora a mesma fórmula seja oferecida a pessoas diferentes, sem evidências claras de segurança e eficácia para aquela combinação.
Quando o uso pode ser perigoso?
Alguns peptídeos são usados como medicamentos no tratamento de diferentes doenças e condições de saúde. O problema está no uso sem orientação médica para uso fitness , por exemplo. Segundo Oliveira, um dos principais riscos é não saber exatamente qual substância está sendo injetada .
“Um produto comprado pela internet, muitas vezes rotulado como ‘uso em pesquisa’, pode vir com dose errada, contaminado, com outra substância no lugar ou sem esterilidade. Em injetável, isso pode virar infecção, abscesso ou reação alérgica”, explica o endocrinologista.
Há também os riscos associados à própria molécula . Dependendo da substância, podem ocorrer alterações na glicemia, inchaço, dores nas articulações, aumento da pressão arterial, náuseas e desequilíbrios hormonais.
Outro perigo, menos lembrado, é tentar tratar um sintoma sem investigar sua causa .
“Cansaço, perda de músculo, barriga crescendo, libido baixa… tudo isso pode ser diabetes, apneia do sono, hipotireoidismo, depressão, deficiência nutricional ou efeito de algum remédio. Quem resolve ‘tratar’ com uma caneta comprada pelo direct perde um tempo precioso de diagnóstico”, alerta.
Santos afirma que não há estudos robustos que comprovem a eficácia dos peptídeos divulgados para fins estéticos e de desempenho físico . Ele acrescenta que não há regulamentação sanitária que autorize a comercialização dessas substâncias para tais finalidades, justamente pela falta de evidências científicas que sustentem seu uso.
E os peptídeos manipulados?
A manipulação de medicamentos não é, por si só, ilegal ou inadequada. O problema é presumir que uma substância é segura e eficaz apenas porque foi preparada em uma farmácia de manipulação. “Manipular não é errado nem ilegal. Mas manipular uma substância que não tem estudo não cria o estudo. Ela continua sem evidência, só que agora num frasco com rótulo bonito”, afirma Oliveira.
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