A pesquisa busca entender se esse processo pode ajudar a regenerar tecidos humanos, com possíveis aplicações na recuperação de lesões e no tratamento de doenças degenerativas .
Pesquisadores estudam a Turritopsis dohrnii para entender como suas células lidam com o envelhecimento. – Imagem: SquareStoreHouse/Shutterstock
Como a água-viva reverte seu ciclo de vida
Quando enfrenta condições adversas, a Turritopsis dohrnii pode interromper seu desenvolvimento e se transformar em uma massa de células . Em um a três dias, surge um pólipo, estágio inicial que cresce e forma uma colônia capaz de produzir novas águas-vivas adultas.
O fenômeno chamou a atenção dos pesquisadores em 1992, quando um cientista italiano encontrou pólipos em um recipiente onde havia deixado os animais sem alimento durante um fim de semana. A descoberta levou os cientistas a investigar como a espécie consegue voltar a uma fase anterior do desenvolvimento.
Uma das explicações está na transdiferenciação. Nesse processo, determinadas células adultas perdem suas características especializadas e assumem outras funções, permitindo a formação do pólipo.
“De uma água-viva que não morre, você consegue esta colônia que pode formar centenas de outras”, explica a bióloga marinha Maria Miglietta, da Universidade A&M do Texas em Galveston.
Apesar do apelido de água-viva imortal, a espécie não é indestrutível. Predadores, falta de alimento e outros fatores ambientais podem provocar sua morte.
O que os genes revelam sobre a longevidade
Os pesquisadores também procuram entender o papel do DNA nesse mecanismo. Um estudo de 2022 comparou o material genético da Turritopsis dohrnii com o de uma espécie relacionada que, até onde se sabe, não apresenta a mesma capacidade de rejuvenescimento.
A análise identificou mais cópias de genes associados ao reparo do DNA e à manutenção dos telômeros, estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos. Como os telômeros tendem a encurtar com a idade, sua manutenção pode ajudar a explicar parte da longevidade da espécie.
Pesquisas de 2019 e 2021 também encontraram atividade elevada de genes ligados a esses mecanismos. Os resultados, porém, ainda não explicam completamente como ocorre o rejuvenescimento.
Entre as principais questões que permanecem em aberto estão:
Quais mecanismos controlam a reversão do desenvolvimento celular;
Por que alguns exemplares não conseguem rejuvenescer;
Se existe um limite para o número de vezes que o processo pode ocorrer;
Quais mecanismos genéticos também estão presentes em seres humanos.
Pesquisadores esperam utilizar os segredos moleculares do animal para acelerar a cicatrização de feridas graves. Imagem: zaferkizilkaya – Shutterstock
O que isso pode significar para a medicina
O oncologista pediatra Michael Koldobskiy, da Universidade Johns Hopkins, colabora com Miglietta para investigar se processos semelhantes podem ser induzidos em células humanas.
A expectativa é que esse conhecimento ajude, no futuro, a acelerar a recuperação de tecidos lesionados após AVCs ou ataques cardíacos. Também há interesse em investigar possíveis aplicações contra danos associados à perda de visão relacionada à idade e à neurodegeneração causada pelo Alzheimer.
“O santo graal deste tipo de desenvolvimento, eu acho, seria a biologia regenerativa: tentar reverter a degeneração ou degradação relativa ao envelhecimento”, afirma Koldobskiy.
O caminho até esses tratamentos, contudo, continua longo. Cientistas já conseguiram induzir processos semelhantes ao rejuvenescimento em células de mamíferos, mas aplicar essas técnicas a tecidos humanos ainda é difícil.
A própria água-viva impõe limites à investigação. Não se sabe se os indivíduos capazes de rejuvenescer conseguem repetir o processo indefinidamente, e mantê-los em laboratório por longos períodos é complicado.
Por isso, o interesse científico está em descobrir quais mecanismos tornam essa reversão possível e se algum deles poderá ser aproveitado com segurança na medicina humana.
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