# Queda das ações de IA devolve aos Treasuries o papel de porto seguro

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/onde-investir/queda-das-acoes-de-ia-devolve-aos-treasuries-o-papel-de-porto-seguro/)
- Publicado em: 2026-10-23T18:19:57.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1321905-queda-das-acoes-de-ia-devolve-aos-treasuries-o-papel-de-porto-seguro

> Durante boa parte deste ano, os Treasuries ofereceram aos investidores pouca da proteção tradicional que costumam proporcionar quando as ações de tecnologia entram em queda. Nesta semana, porém, esse papel voltou com força.

Um indicador da relação inversa entre os títulos do governo dos Estados Unidos e as ações ligadas à inteligência artificial se fortaleceu para níveis vistos pela última vez há um ano. O movimento sinaliza que a intensificação da liquidação no setor de tecnologia está levando investidores de volta aos títulos públicos em busca de segurança, reavivando uma função de porto seguro que havia enfraquecido diante das preocupações com a inflação e dos juros mais altos.

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A mudança é impulsionada por dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial e sobre o retorno efetivo desses aportes, preocupações que derrubaram as ações de tecnologia. Esses receios também estão contaminando as perspectivas para a economia como um todo, levando os investidores a reduzir as apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano.

“Os títulos estão, pasmem, voltando a funcionar como proteção para a carteira”, escreveu Charlie McElligott, estrategista multimercados da Nomura Holdings. “O mercado parece estar reavaliando em tempo real as probabilidades de um susto de crescimento nos EUA após o ajuste de expectativas em torno da IA.”

Os Treasuries tiveram na quinta-feira seu melhor desempenho em mais de um ano, com os rendimentos dos papéis de prazo mais curto recuando até 20 pontos-base. O movimento ocorreu enquanto a tese de investimento em IA desmoronava, levando o Nasdaq 100 e o índice Philadelphia Semiconductor às maiores quedas desde junho.

A turbulência nos mercados da França e a renovação das tensões no Oriente Médio também estimularam a busca por segurança nos títulos do governo americano. A alta dos Treasuries persistiu mesmo depois que o petróleo Brent superou US$ 113 por barril após os ataques fatais na Arábia Saudita.

Na sexta-feira, os Treasuries devolveram parte dos ganhos da véspera à medida que as ações de tecnologia nos EUA e os títulos franceses se estabilizaram, enquanto os preços do petróleo continuaram avançando. O Brent ultrapassou os US$ 115 pela primeira vez desde abril, e o petróleo WTI, referência nos EUA, subiu mais de 3%, superando os US$ 102 por barril.

Os rendimentos dos títulos avançaram entre três e quatro pontos-base ao longo da curva, reduzindo parte dos ganhos acumulados na semana. O rendimento do Treasury de 10 anos permaneceu ligeiramente abaixo de 5%, nível abaixo do qual havia encerrado na quinta-feira pela primeira vez desde 22 de setembro.

Ao mesmo tempo, os investidores reconstruíram parcialmente as apostas em mais aperto monetário por parte do Fed, que haviam sido fortemente reduzidas na quinta-feira. Os contratos de juros de curto prazo com vencimento no próximo ano ainda embutem integralmente duas altas de 0,25 ponto percentual.

Para a próxima decisão de juros do Fed, em 28 de outubro, os contratos precificam menos de cinco pontos-base de aperto monetário, o equivalente a menos de 15% de probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual. Após a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro, em 14 de outubro, que mostrou uma inflação persistente, esses mesmos contratos chegaram a embutir mais da metade de uma alta de juros. Até quinta-feira, o mercado precificava integralmente uma elevação de juros até o fim do ano, prevista para a reunião de 9 de dezembro.

Ponto de inflexão

Como o maior e mais líquido mercado de títulos públicos do mundo, os Treasuries tradicionalmente servem como refúgio natural em períodos de estresse financeiro. Nos últimos anos, no entanto, esse papel enfraqueceu diante da inflação persistente, do elevado volume de emissão de dívida pelo governo americano e das incertezas sobre a política econômica, fatores que levaram os investidores a exigir rendimentos maiores para manter esses papéis em carteira.

Craig Veysey, da Guinness Global Investors, afirmou que o movimento recente representa um “ponto de inflexão” para os investidores em renda fixa, já que os Treasuries voltaram a se comportar como um ativo defensivo, em vez de simplesmente acompanhar os movimentos das ações.

Ele também destacou a sequência recente de indicadores mais fracos nos EUA, incluindo a queda na confiança do consumidor, o crescimento mais lento do emprego e a forte retração nas vendas pendentes de imóveis. Para ele, esses sinais mostram que os juros mais altos começam a desacelerar a economia, uma dinâmica que pode continuar favorecendo os títulos públicos.

“Se os investidores começarem a se preocupar com uma recessão, e não com um boom de inteligência artificial, poderemos ver os títulos apresentarem um desempenho muito mais expressivo”, disse Veysey.

Apesar de os movimentos recentes sugerirem que os Treasuries estão recuperando seu status de porto seguro, o debate sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de títulos americanos está longe de um consenso. Alguns investidores argumentam que os ganhos de produtividade gerados pela IA terão efeito desinflacionário e permitirão a queda dos juros. Outros acreditam que o crescimento econômico mais forte e os elevados investimentos exigidos pela tecnologia manterão os rendimentos em níveis elevados.

“O mercado sofreu um golpe duplo: petróleo mais caro e uma liquidação ampla de posições ligadas à IA”, afirmou Chris Weston, diretor de pesquisa da Pepperstone Group. “Os danos técnicos são reais, e o posicionamento defensivo dos investidores está aumentando.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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