Em 2010, aliou-se às redes sociais para se projetar nacionalmente. Do estado fluminense, passou a falar com o Brasil inteiro. À fama de ser um homem que fala o que pensa, adicionou carisma e humildade, o que o levou a conquistar diversos seguidores.

Das redes, passou a ser figurinha carimbada em programas de TV. Apesar de desbocado e, muitas vezes, preconceituoso, passou a ser a voz de muitos brasileiros, que se identificavam com as suas promessas à favor da família tradicional brasileira — homem com mulher e nada além disso — e do mote “bandido bom, é bandido morto” .

Nunca foi levado a sério por seus adversários políticos até ser tarde demais. Oito anos após publicar o primeiro vídeo em seu canal no YouTube, Jair Bolsonaro foi eleito o 38º presidente do Brasil. Mas como isso aconteceu?

Em Dragões , que estreou no Festival do Rio 2026 e agora passa pela 5 0ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , Miguel Antunes Ramos investiga como Bolsonaro desvendou as redes sociais, utilizando-as para galgar uma rápida ascensão política, e cooptou milhões de seguidores, que mantêm a sua máquina girando até hoje:

“Todo mundo à minha volta sempre teve muito desprezo [pelo Bolsonaro ]. Se alguém falava que o Bolsonaro era burro, eu falava: ‘Não, burro ele não é’. Ele é fascista, é assassino, obviamente tem todos os defeitos possíveis, mas burro não é” , conta Ramos à Rolling Stone Brasil , ao explicar como surgiu a ideia para o documentário. “Eu lembro de ver essas imagens [produzidas e publicadas por Bolsonaro em suas redes sociais] e pensar: ‘Essas imagens são bem feitas’. Diante do bombardeio de imagens que vivemos, eu passei a olhar e pensar: ‘Tem algo aqui que a gente precisa conversar sobre. A gente não pode ignorar isso aqui, porque é eficaz, é eficiente”.

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Dividido em três atos, Dragões começa falando sobre “O Cinema do Mito” e discorre sobre como Bolsonaro dirigiu a narrativa sobre si mesmo, para apresentar exatamente o que ele gostaria, não o que a mídia ou seus adversários políticos poderiam achar dele: “Ele construiu um personagem de si mesmo” , acrescenta o cineasta.

Segundo Ramos , a ideia para o filme nasceu há dez anos, próximo ao início da ascensão política de Bolsonaro , mas ganhou corpo a partir de 2018, quando foi eleito presidente do Brasil. O diretor começou a acompanhar cada passo do político, vigiando as suas redes sociais, salvando os vídeos que ele publicava e tentando entender como alguém como Bolsonaro havia chegado tão longe em tão pouco tempo:

“Entre 2021 e 2022, eu tinha entendido a linha geral do filme. Ele deveria pensar como [ Bolsonaro ] ascende ao poder com essas imagens. Depois, como ele governa com essas imagens, [como] essas imagens se tornam instrumento de governo. E, por fim, como ele encenava a própria ausência” , continua o cineasta, explicando os capítulos seguintes de Dragões , “O Cinema do Presidente” e “O Cinema dos Novos Dragões” — esse último sobre os seguidores de Bolsonaro , que ajudam a preservar a criatura mitológica criada pelo político.

Exibido para o público pela primeira vez no último dia 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições, Dragões chega em um período em que Bolsonaro não só desvendou o código para a vitória, mas construiu um legado, que ajudou a colocar aliados no topo da cadeia política:

“A primeira sessão foi no dia da eleição. Foi um dia muito louco. Estava muito difícil ver o filme como um filme, [porque] ele estava muito atravessado pelo real” , relembra Ramos . “Nos últimos quatro anos, parecia que a gente estava distante dessas imagens. Mas, de repente, [o filme] é lançado no dia em que percebemos que talvez vivamos algo próximo daqui muito em breve.”

“Para mim, diante de tudo o que a gente viveu e o horror dos anos de Bolsonaro [como presidente], o filme tem a importância de propor que a gente pense em coisas que não queremos pensar, como a inteligência da direita. Só se fala na burrice da direita, mas a gente deveria estar falando da inteligência, da eficácia. É uma conversa que a gente tem que ter” , completa o cineasta.

Confira todas as sessões de Dragões na 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo clicando aqui.

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