Longa de estreia dos cineastas, que agora passa pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , A Margem do Rio é ambientado no Recife e acompanha Izaquiel ( Caíque Copque , Mapas ), um jovem auxiliar de serviços gerais em uma igreja evangélica que, em seu tempo livre, busca por encontros com outros homens no mangue.
Em uma dessas aventuras, ele conhece o misterioso e magnético pescador Jeremias ( Ítalo Martins , O Agente Secreto ) e eles começam um relacionamento intenso ao mesmo tempo em que uma ameaça crescente de violência começa a ameaçar as vidas dos homens às margens do rio.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil , Matheus Farias explica que a história é inspirada em sua própria experiência como um homem gay dentro da igreja: “Eu passei 20 anos da minha vida na igreja. Não apenas participando da igreja, mas fazendo parte da liderança. Foram 20 anos de participação, mas também de trabalho” , conta.
“Eu já sabia que era gay. E também sabia que eu não era o único gay na igreja. Todo mundo meio que olha e sabe, mas não consegue conversar sobre isso, porque a violência é institucionalizada dentro da igreja. Existe um grau de exposição quando você é descoberto, uma humilhação muito forte, e todo mundo tinha muito medo disso acontecer. Eu tenho amigos que foram expostos dessa forma. Infelizmente, situações que não acabaram bem” , relembra o cineasta.
“Ao longo do tempo, eu fui sentindo essas violências chegando cada vez mais perto de mim, até eu perceber que não cabia mais naquele lugar. E quando eu percebi que não cabia mais, foi quando eu comecei a me assumir aos poucos. E foi nesse momento que, de fato, eu fui empurrado para fora da igreja” , continua.
Em A Margem do Rio , Izaquiel também deixa a igreja por causa de sua sexualidade. Ao se ver novamente em um espaço como aquele, agora como um servente da igreja, ele é cobrado a não ser quem ele é, como aconteceu com Farias : “A violência veio como uma forma de silenciamento para mim” , diz.
“O que eu acho mais curioso é que, de um ponto de vista religioso, a igreja se vende como um lugar para pessoas doentes. É um hospital espiritual que as pessoas vão para procurar ajuda. Então, se eu sou um ‘doente’, por que não posso participar da igreja? Por que não posso procurar a minha cura? E, na verdade, o que eles querem não é necessariamente curar você, mas controlar o seu corpo. E é sobre isso que o nosso filme fala bem” , continua.
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A Margem do Rio também retrata a assustadora realidade do uso da fé como justificativa para condenar pessoas LGBTQIAPN+ ou que divergem da normalidade de alguma forma. Segundo Enock Carvalho , o filme foi se construindo sozinho conforme a vida começou a se tornar mais tenebrosa que a ficção:
“Os relatos do Matheus não eram sobre cinema, eram conversas sobre a vida. E eu olhava tudo aquilo com uma distância muito grande, e achava coisas muitos interessantes para fazerem parte de uma história. Eram camadas e camadas de uma relação com a religião e, quando a gente começo a juntar alguns desses pontos, parecia muito interessante fazer um filme sobre isso, ainda mais com o que estava se desenhando no Brasil em 2018, 2019″ , explica. “A gente queria muito construir a história do nosso primeiro longa, e essas coisas foram naturalmente vindo e fazendo parte, sendo adicionadas a essa história. É um filme em que a fé está muito desentendida.”
“Nós não escrevemos o roteiro pensando em denunciar nada. Nós queríamoss escrever uma boa história, que funcionasse para a gente, que fosse importante e funcionasse enquanto filme. Porém, obviamente, como o Enock falou, o Brasil foi contaminando a história” , acrescenta Farias . “Estando dentro da igreja, eu já percebia a instrumentalização da palavra de Deus para finalidades totalmente deturpadas. (…) Eu nunca consegui conceber como alguém que segue um Deus que prega a paz, o amor, o respeito ao próximo, pudesse se revestir de um discurso que é armamentista, que é violento, que é de revanchismo, que é de puro ódio.”
O cineasta ainda explica que A Margem do Rio é um filme sobre tomar um posicionamento frente à violência, sobre “contra-atacar” : “Quando falamos de filmes LGBTQIAPN+, falamos sobre a experiência no mundo, sobre resistência. Mas estamos cansados de só resistir, sabe? A gente precisa pensar em formas de contra-atacar também. E eu acho que nosso filme está muito contaminado por essa ideia também: de mostrar os dentes, mostrar as garras e tomar uma posição contra essa violência” , completa.
Confira todas as sessões de A Margem do Rio na 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo clicando aqui.
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