Capitão do Botafogo, Alex Telles tem vivido uma das temporadas mais artilheiras de sua carreira. Com sete gols em 2026, ele só não superou os 13 gols que anotou pelo Porto (Portugal) em 2019/2020. Perto de completar 34 anos, o lateral alvinegro segue se reinventando e viu crescer a diversidade na forma que balança as redes: finalização por cobertura, cabeceio, pênalti, cobrança de falta...

Este último, no entanto, não é um recurso que surgiu da noite para o dia. Ao ge, Alex contou que o costume de bater faltas surgiu ainda na infância, frequentando um clube com o pai José Telles. Foi assim que ele marcou seus dois últimos gols, nos clássicos contra Fluminense e Vasco.

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— Começou lá no início, quando eu tinha nove, dez anos. Meu pai me levava para um clube para a gente curtir com a família, e eu tinha que ficar pelo menos uma hora no campo. Colocava a camisa no canto e queria que eu acertasse, derrubasse sempre. Muitas vezes eu não acertava, ficava bravo, mas ele fazia com que eu terminasse. Só saía dali quando eu derrubasse a camisa. Começou ali essa tentativa de acertar o ângulo, jogar a bola onde tinha que ser — disse, em entrevista exclusiva, acrescentando:

— A partir do momento que você começa a perceber a sua posição, eu comecei a perceber que eu tinha qualidade para bater na bola, poder fazer um diferencial. Os laterais são muito físicos, ultrapassagens, cruzamentos, e eu sempre tentei buscar o diferencial de trabalhar muito a bola parada. Desde que eu subi no Juventude, assumi as bolas paradas lá com 18 anos. Comecei a dar certo, ter algumas assistências. A confiança foi subindo e comecei a trabalhar em cima disso.

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Alex Telles, do Botafogo, em entrevista ao ge.globo

Brendo Fernandes e Edu Bernardes

No ano passado, o lateral também marcou sete gols, mas quase todos de pênalti — a exceção foi um chute de pé esquerdo contra o próprio Internacional, adversário deste sábado pela 32ª rodada do Brasileirão.

— Eu nunca tive tanta diversidade de gols. Sempre falo isso para amigos mais próximos e familiares, graças a Deus meus gols são bonitos, não tenho gol feio. A gente chega de trás, lateral não pisa muito na área. Os meus gols normalmente são de fora da área, ou de falta, há pênaltis bem batidos que são gols bonitos. Tento trabalhar muito o arremate de fora da área para ajudar a equipe — completou.

Telles é uma referência no elenco que passou por mais uma mudança no comando, há pouco mais de um mês. Com a chegada de Tite, o lateral-esquerdo reencontrou o antigo comandante na seleção brasileira, a quem descreveu como um dos melhores treinadores com quem trabalhou. Após afirmar que Tite "sabe o que precisa ser feito", o camisa 13 do Botafogo explicou como o lado humano se sobressai no dia a dia.

Alex Telles cita relação com Tite no Botafogo: "Vem com essa vontade, essa alma"

— Hoje em dia, a parte tática, a parte técnica, nós trabalhamos todos os dias, a gente vê, assiste. O jogador sabe do que precisa ser feito dentro de campo. Dentro disso eu acredito que há vários comportamentos. Esses comportamentos são feitos no dia a dia no treinamento, numa academia, num simples vídeo antes num jogo que voc assiste concentrado. Acho que são pequenas coisas que a gente vê no dia a dia, que são importantes e que às vezes o próprio atleta acaba deixando de lado e o professor é um cara que abrange tudo isso. Ele desde que entra aqui no clube, desde que a gente vê ele trabalhando…

— Teve um discurso que eu dei agora do jogo da Chapecoense, que eu falei que que o professor passa o vídeo pra gente com emoção. Realmente ele passou um vídeo para nós e se emocionou simplesmente passando um vídeo do nosso treino, nosso jogo. Isso me deixou um pouco constrangido, porque é um cara do tamanho do Tite, um cara que conquistou tudo, vem com essa vontade, com essa alma. Então acho que a gente precisa representar isso também. Na minha visão, vai muito mais além do que uma parte tática, uma parte física, porque a gente vai lá para dentro, o primeiro que comanda o nosso corpo é a cabeça. Então acho que isso faz muita diferença. Ele veio com esse intuito de poder ajudar a gente não só na parte tática, obviamente, como treinador, mas também nos comportamentos do dia a dia que fazem a diferença no campo.

O Botafogo conta com múltiplas possibilidades de desfecho para a temporada 2026, da briga contra o rebaixamento — hoje são sete pontos de distância para o Z-4 — até uma eventual classificação para a Libertadores. No entanto, Telles prefere não traçar uma meta específica enquanto o Botafogo não alcançar os 45 pontos, "número mágico" para garantir a permanência na elite.

Alex Telles evita traçar metas para fim de ano do Botafogo: "Não posso ser hipócrita"

O duelo contra o Internacional, neste sábado, ganha ainda mais peso por ser um confronto direto contra um rival da parte de baixo da tabela. Depois, o Botafogo viaja a Belém para enfrentar o vice-lanterna Remo.

— Eu não posso ser hipócrita e dizer que a gente tá pensando em Libertadores se a gente não fez 45 pontos ainda. A gente tem que ter os pés no chão. Obviamente a gente quer muito buscar vaga na Libertadores, Pré-Libertadores, Sul-Americana. Isso é inevitável, mas primeiro a gente tem que fazer nosso objetivo. Fazer 45 pontos, que acredito que a gente vai conseguir fazer com os jogos que a gente tem, que a gente vai lutar para isso. Mas a gente está tratando esse jogo a jogo. Jogo a jogo é tão importante porque a cada jogo, dependendo do resultado, a gente vai traçando o nosso objetivo. A gente não pode pensar lá na frente, sendo que a gente tem um jogo importante agora sábado. Acho que jogo a jogo vai fazer a gente pensar nos nossos objetivos. Claro, a nossa meta sempre é terminar o campeonato na posição mais alta possível e a gente já projetar para o próximo ano. Então, com certeza, a gente vai pensar jogo a jogo pra ter a nossa meta alcançada lá em cima.

Outros tópicos da entrevista com Alex Telles:

Por que acha que tem sido tão artilheiro em 2026?

— Sempre fui um cara muito dedicado e, acredito, um lateral muito mais ofensivo do que defensivo. Sempre declarei minha bola parada como algo diferente para poder ajudar dentro de campo. Às vezes nós, laterais, chegamos como elemento de surpresa. É o cara que cruza, tem muitas assistências, mas eu queria buscar algo diferente. Sabia que eu tinha essa qualidade na bola parada.

— Na época do Porto, tive a oportunidade de bater o primeiro pênalti, e a partir dali eu não saí mais. Fui convertendo os pênaltis, fazendo gols e a confiança foi aumentando, fui trabalhando mais em cima disso.

— Acabei, pelo menos, (me tornando) uma das referências na questão da bola parada. Isso me ajuda bastante e pode também ajudar o time. Às vezes a equipe não tá num dia muito bom técnica ou taticamente, e uma bola parada pode fazer a diferença.

— Essa questão me ajudou bastante, assim como a questão dos pênaltis, obviamente. Mas esse ano já consegui fazer dois gols de falta, gols de fora da área, enfim, gols diferentes. Até gol de cabeça esse ano eu fiz. É algo que me dá mais confiança para pisar na área e ajudar a equipe não só defensivamente.

Preparação é mais difícil atualmente?

— Hoje em dia, a gente acaba adaptando o treino. Confesso que já não sou mais tão jovem assim, vou fazer 34 no fim do ano, mas a gente ganha uma experiência para poder adaptar treinamentos, gestão de carga. Normalmente eu pego um dia da semana, um ou dois dias antes do jogo, para fazer bola parada junto com a equipe. Procuro ficar sozinho depois do treino, faço algumas faltas, umas dez, 15. Bola parada, no mínimo quatro ou cinco pênaltis depois do treino. A gente sempre busca se aperfeiçoar para poder ajudar a equipe em uma eventual bola parada.

Gols parecidos e bolas fortes:

— Eu sempre gostava de bater no outro lado, no lado direito do campo. Os dois gols em cruzamentos foram do lado esquerdo, mas treino sempre dos dois lados. Eu vinha me cobrando bastante. Sabia que poderia desbloquear um jogo numa bola parada e isso não vinha acontecendo, fazia alguns anos que eu não marcava gol de falta. Eu me cobrava muito no particular. Sabia que depois que saísse o primeiro, algo ia se desbloquear e a confiança ia voltar. Aconteceu isso, e mais uma vez fiz um gol de falta bonito.

Relação com Tite na seleção brasileira:

— Foi muito especial (o reencontro), sou suspeito para falar. Sempre falei muito bem dele em todas as ocasiões, é um dos melhores treinadores com quem trabalhei. O treinador mais humano, disso eu tenho 100% de certeza. A qualidade que tem, a experiência, você não precisa nem tocar. É um cara muito vitorioso, venceu praticamente quase tudo que disputou.

— É um cara que é atento aos mínimos detalhes, atento a todos os atletas, o que joga mais e o que joga menos. O tratamento é o mesmo com todos, valoriza todos. Todos treinam da mesma forma, quem vai jogar ou não. É um cara sempre atento aos detalhes e aos comportamentos. Na minha visão, isso é algo que ajuda muito no vestiário, valoriza todos os atletas. E isso faz diferença dentro de campo.

Se considera ídolo do Botafogo?

Não sou um cara de fazer comparações. Sempre falei que ser tratado como ídolo eu deixo muito para o torcedor, que é o maior patrimônio do clube. Acho que ídolos são feitos pelos torcedores e eu tô ainda construindo essa história, né? Nilton Santos é o professor da nossa posição. Ninguém vai chegar ao nível dele, não só no Botafogo, mas acredito que no mundo. Na posição, no que representou para nós, no futebol.

Fico muito feliz de estar galgando, nem que sejam pequenos passos, no mesmo sentido, o que é importante. Eu me considero um cara que trabalha muito e que está construindo uma história interessante dentro do clube. Sinto isso nos torcedores, então para mim é um privilégio.

Como a relação com o clube pesou na renovação?

— É muito importante a gente se sentir bem, se sentir em casa, acho que é o principal. Depois na parte familiar também, a minha família é super adaptada ao Rio de Janeiro. Falando da minha questão profissional, acredito que esse tratamento que as pessoas têm comigo, e eu me sentir valorizado e bem, com certeza foi um fator muito, muito importante para a minha renovação. Obviamente, sabendo também da importância que eu tenho para o clube nessa questão do trabalho, da história, a cada dia mais poder ajudar dentro de campo. Esse lado, dessa importância, também fez com que eu ficasse. E poder responder o carinho que o torcedor tem por mim.

— Eu acredito muito nas pessoas que aqui trabalham. No meu processo de renovação, como a gente falou antes, foi um processo muito tranquilo, muito leve, porque eu sempre eu tratei isso da melhor maneira. Eu sempre disse que o Botafogo é o maior interessado e é o que tem que ficar em primeiro lugar, é o mais importante de tudo. A partir daí eu sempre foquei em dar o meu melhor.Conversando com as pessoas aqui do clube e vendo o dia a dia, vendo o projeto que estão colocando na mesa, com certeza é algo que que me deixa tranquilo e me fez ficar justamente por isso, porque eu acredito que nas pessoas e eu tenho certeza que o que o clube vai voltar a conquistar, vai conquistar coisas grandes. A gente vai estar lá em cima, brigando

Mudanças no extracampo da SAF:

— Sempre procurei fazer o meu trabalho da melhor maneira, mas a partir do momento que você recebe essa responsabilidade de ser um dos capitães… É uma responsabilidade que dividimos. Eu, Marçal, Allan, Vitinho, Edenilson, o próprio (Arthur) Cabral, Tiquinho que voltou agora. São caras que já têm uma certa experiência e podem nos ajudar no dia a dia com os mais jovens.

— A gente fica atento aos detalhes, tenta fazer esse elo entre jogadores e direção, para poder ter uma união, o que foi muito importante nesse período. Não é fácil jogar com tudo que se vem falando. Você ir para casa e sempre ficar ouvindo coisas sobre o seu clube, o seu trabalho. No dia seguinte você tem que estar lá para dar o seu melhor, e é cobrado por isso, independentemente do que acontece. Sempre conversamos no vestiário, tentamos blindar o máximo possível, para focar no que é o nosso trabalho: chegar lá e conquistar os três pontos, dar o nosso melhor. O que é de fora, os responsáveis podem arcar. Claro, se a gente puder ajudar de alguma forma, a gente ajuda.

Lado físico e funções defensivas:

— Eu brinco com a questão da minha idade, mas eu sou um cara que trabalho diariamente. Trabalho de manhã, de tarde, procuro sempre estar recuperando meu corpo, trabalhar as questões físicas específicas do meu corpo e eu me sinto bem. Hoje em dia a gente jogando no Brasil no calendário desse, com sintético, gramado normal, natural, com viagem, logística. Eu me sinto bem com isso. Então, obviamente que eu tô me sentindo bem fisicamente, me sinto ainda jovem para poder jogar. É claro que a gente, dependendo do jogo, da situação, a gente tem que ser mais equilibrado. Lateral entra como elemento de surpresa… e o Tite vem pra isso, para gente poder usar o time de uma certa característica diferente. Vitinho é um cara muito mais ofensivo, eu sou um cara que chega de vez em quando na frente, sou um cara de cruzamento de longa distância. Também tem esse equilíbrio.

— A gente conversa muito ali durante o jogo. O Marçal jogou os últimos jogos também. É um cara que mudou muito bem dentro de campo com a experiência que a gente tem. Ele também, por jogar na lateral, ele sabe também os movimentos que o lateral faz, já antecipa esses movimentos. Então a gente consegue fazer esse equilíbrio de forma natural. Eu me dou muito bem com ele, tanto ele quanto o Monzon. Independentemente de quem joga na defesa, a gente tem o nosso compromisso, o nosso comportamento. Como o professor fala: “posição-função”. Cada tem sua posição, garante sua função e dentro dessa função, a gente tem que tentar exercer o máximo possível dentro do que ele nos propõe para que as coisas dentro de campo possam sair bem.

Expectativa para Internacional x Botafogo:

— Eu acredito que não só esse jogo contra o Inter… já faz alguns jogos que a gente que a gente vem percebendo quanto está sendo uma final. Cada jogo é uma final, a decisão está sendo dia a dia. Não é só o Botafogo, mas muitas equipes ali praticamente do 9º, 10º até o 17º, está uma disputa de poucos pontos. Acho que seis, sete pontos de máximo. Isso não é nada no campeonato de pontos corridos. Então todo jogo é uma final. A gente vem encarando isso da melhor maneira. O professor Tite vem num momento bom também para poder ajustar o que estava precisando ser ajustado. É um cara que também tem experiência para esse tipo de momentos também. Porque a gente sabe que é diferente tu jogar disputando aí meio de tabela e é diferente de você disputar lá em cima. A gente já viveu esses dois dados aqui no Botafogo. A mentalidade é diferente. Então a gente precisa ter essa certa experiência. Esse jogo contra o Inter vai ser um vai ser uma final pra eles também, é uma final pra gente também. Vai ser um jogo muito difícil, Inter é muito forte dentro de casa. Então acho que também tem que ter essa postura de um time que vai lá, vai respeitar ao máximo adversário e a melhor forma de respeitar não tem outra: é chegar lá, jogar firme e ir pra cima para a gente conseguir também conquistar os nossos pontos.

O Botafogo é o atual 11º colocado na tabela do Campeonato Brasileiro, com 39 pontos somados. O próximo compromisso é neste sábado, às 16h30 (horário de Brasília), contra o Internacional, no Beira-Rio.

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