Vittor Sales / Ricardo Stuckert

A prestação de contas, ainda parcial, registrada pelas campanhas dos candidatos à Presidência da República no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que os maiores doadores individuais de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) são pessoas ligadas ao agronegócio.

⚖️ A legislação eleitoral proíbe doações de pessoas jurídicas, como empresas, a campanhas eleitorais. As contribuições de pessoas físicas são permitidas, dentro dos limites legais.

No topo do ranking de doadores da campanha de Lula está Erasmo Carlos Battistella, que contribuiu, até o momento, com R$ 500 mil. O empresário é CEO da Be8, produtora de biodiesel, e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável do governo federal, o "Conselhão".

O empresário doou a mesma quantia à campanha de Flávio Bolsonaro, cujo primeiro lugar na lista de doadores é ocupado por outro nome do agro, Eloi Vitório Marchett, empresário ligado ao setor de soja. Marchett doou, até o momento, R$ 2 milhões ao senador do PL.

🔎 O levantamento do g1 com o ranking dos doadores é parcial. O prazo para a prestação de contas por parte das campanhas que foram ao segundo turno termina em 14 de novembro.

O agronegócio responde por cerca de 25% do PIB brasileiro e é um dos principais motores da economia do país. As demandas do setor vão da produção rural à indústria e à exportação.

34% dos doadores da campanha de Flávio Bolsonaro financiaram também Jair em 2022; Lula teve 1,4% de recorrência nas duas eleições

Entre o PIX de R$ 1 e as grandes doações: o que mudou no financiamento das campanhas presidenciais de 2022 a 2026

As propostas dos candidatos para a atividade rural reúnem desde a produção de grãos e a pecuária até a agroindústria, a fabricação de biocombustíveis e a exportação de alimentos.

Veja as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro para o agronegócio e as principais reivindicações das entidades do setor para o próximo presidente.

Agora no g1

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de lançamento do Plano Safra 2023/2024.

O plano de governo de Lula propõe fortalecer o crédito rural via Plano Safra, garantir uma política de crédito para pequenos produtores com o Pronaf, a expansão do Plano Safra da Agricultura Familiar e a simplificação do acesso ao crédito, inclusive com a digitalização dos serviços.

Lula também prevê, se reeleito, ampliar o seguro rural e criar um programa nacional de resiliência climática no campo, com medidas de conservação do solo, expansão da irrigação, agricultura de precisão e modernização dos sistemas de previsão meteorológica e alerta aos produtores.

O candidato defende modernizar a agricultura e a pecuária sustentáveis, com apoio da Embrapa. Também propõe, caso seja reeleito, continuar a produção nacional de fertilizantes e fortalecer a produção de biocombustíveis, como etanol, biodiesel e combustível sustentável de aviação (SAF), além de incentivar o aproveitamento de resíduos agroindustriais para gerar bioenergia e biogás.

Na área comercial, Lula promete fortalecer a diplomacia para ampliar o acesso dos produtos brasileiros a mercados internacionais, destacando os 656 novos mercados abertos na atual gestão.

O plano também prevê estimular a emissão de títulos do agronegócio no mercado de capitais, incentivar pesquisas e o desenvolvimento tecnológico aplicado ao setor e mobilizar investimentos privados para a transformação ecológica.

Para a agricultura familiar, Lula prevê, se reeleito, ampliar a assistência técnica e facilitar o acesso a financiamento e máquinas adaptadas aos pequenos produtores. Também propõe fortalecer o seguro rural e o Garantia-Safra, manter programas de compra de alimentos e ampliar a participação de produtos in natura ou minimamente processados na merenda escolar.

O plano inclui reforma agrária, regularização fundiária, incentivo à agroecologia, acesso à água em regiões com estiagem e apoio à pesca artesanal e à aquicultura familiar.

Flávio Bolsonaro (PL)

Flávio Bolsonaro (PL-RJ), percorreu a Norte Show 2026, em Sinop (MT).

Vittor Sales/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro

O plano de governo do candidato do PL, apresentado à Justiça Eleitoral, propõe ampliar a conectividade no campo, com acesso à internet em áreas rurais de baixa cobertura, dando continuidade ao programa Wi-Fi Brasil, criado no governo do pai dele, Jair Bolsonaro (PL).

Flávio defende simplificar as autorizações para irrigação, desenvolver polos de irrigação no Matopiba e no semiárido e ampliar o uso de água de reuso.

Na área fundiária, o candidato propõe acelerar a regularização e a titulação de pequenas propriedades rurais, além de unificar os cadastros fundiário e ambiental em um único sistema.

O candidato também prevê, se eleito, ampliar o saneamento rural, fortalecer o seguro rural e aumentar a capacidade de armazenamento das safras.

Para reduzir a dependência externa, Flávio defende incentivar a produção nacional de fertilizantes a partir de recursos minerais disponíveis no Brasil, como potássio e fosfato. O plano também prevê medidas para facilitar a securitização e a reorganização das dívidas dos produtores rurais.

Na área de energia, o candidato propõe transformar o Brasil em potência de biocombustíveis, incluindo etanol, biodiesel, HVO, combustível sustentável de aviação (SAF) e biogás.

Entre as medidas propostas estão oferecer linhas especiais de financiamento para empresas de biogás, incentivar a produção de biomassa por meio do Plano Safra, ampliar o RenovaBio no exterior e buscar soluções para enfrentar sanções dos Estados Unidos, da China e da Europa contra produtos brasileiros.

Os desafios do setor: do equilíbrio fiscal às políticas de Estado

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) aponta como "necessidade imperativa" o controle dos gastos públicos para conter a dívida nacional e permitir a queda das taxas de juros, que afetam o endividamento dos produtores.

A entidade também cobra a reformulação das regras dos programas sociais para incentivar a reinserção produtiva e combater a escassez de mão de obra no campo, apontada por 44,5% dos produtores como o principal desafio do setor, segundo um estudo da CNA.

Já a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) divulgou uma carta aos presidenciáveis propondo uma agenda estratégica para o setor, em que defende políticas de Estado organizadas em cinco desafios centrais:

A criação de uma política nacional de financiamento, seguro rural e resiliência climática no agro;

Uma política industrial para fortalecer as cadeias do setor;

A implantação de um modelo permanente de governança, planejamento e financiamento, coordenando investimentos públicos e privados e reduzindo gargalos;

A valorização da agroindústria por meio de iniciativas permanentes de comunicação institucional, educação e aproximação com a sociedade;

O fortalecimento da defesa comercial para abrir mercados e consolidar o protagonismo global do Brasil em agricultura tropical, bioeconomia e transição energética.

O documento detalha medidas que se desdobram em 7 pilares e 23 tópicos estruturantes para a próxima década.

Para o próximo presidente da República, a entidade propõe a construção de um ambiente institucional ágil e previsível, capaz de atrair capital privado, acelerar a transição tecnológica e a governança de dados no campo, além de instituir uma política nacional de comunicação e educação baseada em evidências científico-técnicas para combater a desinformação.