Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem explorado histórias de homens gays em contextos de marginalização, aproximando sexo, afeto e sobrevivência em filmes como Parque de Diversões , A Rua da Glória , Ato Noturno e Baby . A Margem do Rio dialoga com essa produção, mas amplia seu campo de investigação ao incorporar o misticismo e a religião como forças que disputam o controle sobre a vida dos personagens. Em vez de restringir o conflito à intimidade de um relacionamento, Farias e Carvalho constroem uma narrativa na qual o desejo individual esbarra em estruturas sociais capazes de transformar a diferença em motivo para humilhação e violência.
Interpretado por Caíque Copque ( Mapas ), Izaquiel trabalha como auxiliar de serviços gerais no Recife, passando de emprego em emprego enquanto tenta sobreviver em uma sociedade que parece enxergá-lo apenas quando precisa de seus serviços. À noite, ele se arrisca em encontros sexuais nos manguezais da cidade, onde conhece Jeremias ( Ítalo Martins , O Agente Secreto ), um pescador misterioso e magnético. O relacionamento entre os dois abre espaço para o afeto, mas também para uma ameaça crescente, que transforma a paisagem em um território de perigo e estranhamento.
Há algo de especialmente significativo nessa divisão entre o dia e a noite. Izaquiel passa os dias limpando os espaços dos outros, mas precisa recorrer à escuridão para viver parte de seus próprios desejos. O manguezal, com suas águas, sombras e caminhos incertos, torna-se mais do que um esconderijo para encontros clandestinos: é um espaço onde o protagonista pode escapar, ainda que provisoriamente, das regras que organizam o mundo ao seu redor. A atmosfera noturna também permite que o filme aproxime o suspense de uma dimensão espiritual, na qual realidade e mito se confundem sem que o sobrenatural perca sua relação com as violências concretas que atravessam a história.
Essa construção ganha outra dimensão no confronto com a igreja do pastor Eurico , vivido por Robério Diógenes ( O Agente Secreto ). A religião não aparece apenas como uma questão de fé individual, mas como um sistema de poder que estabelece limites para o comportamento, o corpo e o desejo. Ao contrapor a atmosfera misteriosa dos manguezais ao discurso moral da igreja, os diretores evitam uma separação simplista entre o sagrado e o profano. O que está em jogo não é a fé em si, mas sua instrumentalização para justificar o controle e a intolerância.
A raiva de Izaquiel nasce desse lugar de exclusão, mas não se limita à condição de vítima. O personagem procura no desejo uma possibilidade de conexão e, ao mesmo tempo, precisa confrontar uma sociedade que lhe oferece poucas oportunidades de existir sem se esconder. Nesse sentido, a frase dos diretores sobre a necessidade de deixar de apenas resistir para também contra-atacar sintetiza uma das ideias mais provocadoras do longa. A violência que cerca o protagonista não é tratada como um destino inevitável, e sua revolta aponta para a possibilidade de reagir a estruturas que exigem silêncio e submissão.
A questão tem raízes pessoais para Matheus Farias , que passou duas décadas na igreja, inclusive em posições de liderança, antes de se afastar em razão das violências relacionadas à sua sexualidade. Em entrevista à Rolling Stone Brasil , o cineasta relatou como a exposição e a humilhação de pessoas LGBTQIA+ eram parte de uma estrutura de silenciamento. Essa experiência ajuda a compreender a força com que o filme aborda a hipocrisia religiosa: a violência não está apenas nas ameaças explícitas, mas também na exigência de que alguém negue a própria identidade para continuar pertencendo a uma comunidade.
A atenção às vivências trans também revela como essa preocupação atravessa a filmografia de Farias e Carvalho . Em Inabitável , curta da dupla, a transexualidade já era abordada, colocando em primeiro plano o direito à existência, ao afeto e à dignidade. Essa sensibilidade reaparece em A Margem do Rio no círculo de amigas com quem Izaquiel divide a vida, mulheres que encontram umas nas outras uma forma de acolhimento diante de um mundo hostil. Vale citar: no Festival do Rio , o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante foi compartilhado por Renna Costa , Artia e Ísis Broken .
A volta de Mica ( Artia ) após um período de desaparecimento é um dos momentos mais emotivos do longa, justamente porque o reencontro dispensa grandes discursos para evidenciar a força desses vínculos. Em meio a uma narrativa atravessada pela violência, a cena lembra que a experiência da marginalização também produz redes de cuidado e pertencimento. É uma delicadeza que impede o filme de reduzir seus personagens às agressões que sofrem e reforça uma ideia presente no trabalho anterior dos diretores: mais do que reivindicar espaço em uma sociedade que os rejeita, esses corpos constroem outras formas de existir juntos.
Embora a quantidade de temas ameace dispersar a narrativa de A Margem do Rio em alguns momentos, Farias e Carvalho conseguem articular sexualidade, espiritualidade e suspense em uma proposta que não se contenta em representar a marginalização: quer investigar o que acontece quando aqueles que foram empurrados para as bordas decidem se manifestar. Ao transformar o manguezal em espaço de desejo, mistério e perigo, o filme encontra uma linguagem própria para discutir a violência religiosa e a experiência LGBTQIA+ no Brasil. Sua provocação mais forte está em recusar a ideia de que basta sobreviver à intolerância. Para quem passou tanto tempo à margem, talvez seja mesmo a hora de confrontar — e que seja com tesão.
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