Uma ideia que surgiu em um domingo, enquanto descansava em casa, levou uma servidora do Acre a contribuir para mudar a forma como milhões de brasileiros acessam seus dados eleitorais.

Rosana Magalhães, servidora aposentada e ex-diretora do Tribunal Regional Eleitoral do Acre (TRE-AC), idealizou e batizou o e-Título, aplicativo da Justiça Eleitoral que reúne o documento digital e diferentes serviços para os eleitores.

Em entrevista ao g1, ela contou que a proposta surgiu em 2017, depois de mais de duas décadas de experiência de Rosana na Justiça Eleitoral. Analista de sistemas, Rosana acompanhou de perto a transição das eleições realizadas com cédulas de papel para a votação eletrônica e trabalhou por cerca de 30 anos na área de tecnologia do tribunal.

A experiência permitiu que a servidora observasse como a informatização transformava o processo de votação, mas também como alguns procedimentos continuavam dependendo de etapas manuais.

Justiça Eleitoral recomenda eleitores a usar o e-Título

Foi ao observar essas dificuldades que Rosana começou a pensar em uma alternativa digital. Além de servir como comprovante do cadastro eleitoral, o documento impresso não permitia consultar informações que poderiam mudar ao longo do tempo, como o local de votação e a situação do eleitor perante a Justiça Eleitoral.

A servidora percebeu que a digitalização poderia reduzir a dependência de documentos físicos e facilitar o acesso a informações atualizadas. A ideia ganhou forma em um domingo de 2017, quando ela estava em casa e refletia sobre as possibilidades dos documentos digitais.

“A ideia veio no momento em que eu percebi a saturação desse processo manual, em que enquanto a gente já votava por urna eletrônica e o resultado saía no mesmo dia, o processo de cadastramento e uso do título eleitoral ainda era manual, digamos, numa época que não condizia com a urna eletrônica”, relatou.

A partir daí, Rosana elaborou um projeto para transformar o título eleitoral em um documento digital que também funcionasse como porta de entrada para outros serviços. A proposta foi apresentada à direção do TRE-AC e encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde passou por avaliação técnica até receber apoio para ser implementada nacionalmente.

A iniciativa foi desenvolvida por equipes de tecnologia dos dois tribunais. O e-Título foi lançado em 2017 e passou a ser utilizado nas eleições de 2018.

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Rosana contou que confiava no potencial da proposta desde o início. Para ela, o aplicativo poderia facilitar a vida dos eleitores e, ao mesmo tempo, reduzir custos relacionados à impressão e à manutenção dos documentos físicos.

O que a surpreendeu foi a rapidez com que o projeto recebeu apoio e ficou disponível para uso nas eleições seguintes.

“Eu sempre acreditei que esse seria um projeto exitoso, que daria certo e que seria um divisor de águas, como foi, e que seria muito prático para os eleitores. Eu realmente acreditava no projeto e eu não iria apresentar um projeto tão ousado se eu não acreditasse que ele traria melhorias tanto pros eleitores como economicidade para a Justiça Eleitoral, pro Brasil como um todo. O que eu me surpreendi foi com a velocidade que esse projeto foi aceito pelo ministro, por todas as autoridades que passaram o projeto e que fosse já utilizado nas eleições seguintes, que foi em 2018”, rememorou.

Até o último sábado (24), um dia antes do segundo turno das Eleições 2026, o TRE-AC informou ao g1 que 52.940 pessoas aderiram ao aplicativo pela primeira vez este ano. No total, mais de 150 mil usuários estão com o e-Título ativo em 2026, somando com as 100.969 que reabriram para votar ou atualizar informações. Além disto, em todo o estado, 529.481 eleitores possuem ou já possuíram o documento no celular, ou seja, têm cadastro na plataforma.

Apesar da dimensão que a iniciativa alcançou, a servidora afirmou que enxerga a criação como parte das responsabilidades de quem trabalha no serviço público. Mais do que uma realização individual, ela considera que o resultado veio do trabalho coletivo e do apoio recebido para transformar a proposta em uma ferramenta nacional.

“Fiquei muito feliz de poder ter contribuído, deixado esse legado pra Justiça Eleitoral, e isso foi o que mudou, mas na verdade eu encaro como uma uma atividade que fazia parte do meu trabalho”, disse.

Ao falar sobre o aplicativo, Rosana também destacou o vínculo que desenvolveu com a ferramenta que idealizou e batizou. Com o passar dos anos, o projeto recebeu novas funcionalidades e passou a ser mantido por equipes responsáveis pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento da plataforma no TSE.

“Eu me sinto, obviamente, muito agraciada ao saber que um aplicativo que eu dei o nome, que batizei e que o pessoal dentro da Justiça Eleitoral diz que 'é o meu filho, minha criação', eu acho isso muito legal e muita gente está trabalhando nisso. O filho foi virou adulto e hoje tem uma grande personalidade”, celebrou.

Rosana Magalhães recebeu reconhecimento do Tribunal Superior Eleitoral pela inovação com o e-Título

O e-Título deixou de ser apenas uma versão digital do documento eleitoral e passou a reunir diferentes serviços. Entre eles estão a consulta ao local de votação, a emissão de certidões, a verificação da situação eleitoral e a justificativa de ausência às urnas, conforme as regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

A ferramenta também permite consultar informações sobre a zona e a seção eleitoral. Quando a fotografia do eleitor está disponível no aplicativo, o documento digital pode ser utilizado para identificação no momento da votação.

Para Rosana, a continuidade do desenvolvimento é um dos aspectos mais importantes do projeto. Ela afirma que a plataforma permanece em evolução e que o trabalho de aperfeiçoamento envolve profissionais de diferentes áreas da Justiça Eleitoral.

A servidora também participou da criação de outras soluções tecnológicas da Justiça Eleitoral, como o Boletim na Mão, ferramenta que permite consultar os boletins de urna e que posteriormente passou a integrar o e-Título.

“Eu acho maravilhoso que o e-Título não ficou naquela primeira versão, ele continuou crescendo e a cada ano tem mais novidades. A equipe que é responsável pelo desenvolvimento pela gerência no TSE se dedica a cada dia criar mais utilidades pro e-Título”, falou.

Aplicativo e-Título pode ser baixado pelos eleitores para acessar diversos serviços e encontrar o local de votação

Como usar o e-Título no segundo turno

A trajetória do aplicativo ganha destaque novamente neste domingo (25), quando ocorre o segundo turno das eleições em todo o país. A ferramenta pode ajudar os eleitores a conferir o endereço da seção eleitoral e acessar o documento digital antes de sair de casa.

O TSE orienta que os eleitores verifiquem antecipadamente seus dados e mantenham o aplicativo atualizado. Para utilizar o e-Título como documento de identificação na votação, é necessário que a fotografia esteja disponível na tela. Quem não tem foto no aplicativo precisa apresentar outro documento oficial com foto.

Rosana destaca que o aplicativo reúne diferentes possibilidades de acesso aos serviços eleitorais, inclusive para quem precisa regularizar a situação cadastral ou obter documentos sem ir presencialmente a um cartório.

“Em relação ao pleito, as pessoas têm nas mãos literalmente um instrumento para saber a sua localização da sua sessão, saber o endereço poder justificar pelo e-Título de uma forma tão fácil porque ele vê a localização pelo pelo sistema de GPS e isso já é uma justificativa”, destacou.

Rosana Magalhães, na época diretora do TRE no Acre, foi quem idealizou o aplicativo

Para Rosana, o futuro do e-Título está ligado à ampliação dos serviços digitais e à redução das dificuldades enfrentadas pelos eleitores para acessar a Justiça Eleitoral. A expectativa é que o desenvolvimento da ferramenta continue facilitando procedimentos e diminuindo a necessidade de deslocamento presencial.

“Tenho certeza que a equipe de desenvolvimento já está prevendo mais facilidade, mais mobilidade e facilidade pro eleitor nessa era tecnológica para que ele possa ter o mínimo de deslocamento possível até a Justiça Eleitoral, nos postos e cartórios, e isso diminui também as filas porque com a facilidade, as pessoas regularizam sua situação de uma forma mais fácil, mais eficiente e a Justiça Eleitoral sempre à frente com essas novidades a cada pleito”, disse.

A ideia que começou com a observação de problemas cotidianos no atendimento ao eleitor se tornou uma ferramenta de alcance nacional. Quase uma década depois de sua concepção, o e-Título segue em desenvolvimento e mantém a proposta que motivou Rosana: usar a tecnologia para tornar os serviços eleitorais mais acessíveis.

“Eu acho que o e-Título só tem a ganhar. O aplicativo só traz facilidade e tenho certeza que ele ainda vai contribuir muito para essa melhoria e para que todos exercerçam a cidadania de uma forma plena”, finalizou.