Não há vez em que eu visite uma exposição, espetáculo ou museu que não me lembre desse bordão. Foi graças a esse ensinamento que, depois de um tempo sentado diante de um dos quadros da série As Ninfeias , do pintor Claude Monet, descobri que o pintor retratava não apenas as flores de seu jardim, na casa de Giverny, na França, mas também as raízes submersas dessas plantas aquáticas e os reflexos das folhas na superfície da água. Nunca mais olhei aqueles (e todos os outros) quadros do mesmo jeito.
Pensando nos automóveis, já tive vários momentos iluminados como esse diante do quadro do Monet, observando o design das carrocerias, de grades, faróis e também soluções mecânicas criativas que os construtores de antigamente encontravam para os diferentes sistemas como as suspensões, os freios , os comandos de válvulas, diante das limitações construtivas e de materiais que existiam.
O Lago das Ninféias, Harmonia Verde (1899) Reprodução/Quatro Rodas
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Entre essas descobertas relaciono, por exemplo, aqueles carros que traziam o ajuste manual do ponto, por meio de uma chave no volante , o sistema de ignição por tubos aquecidos externamente às câmaras de combustão, o freio Selectration do Gurgel X12 (que permitia frear apenas uma das rodas traseiras para melhor aproveitar a aderência do terreno), a Lancia- Ferrari D50 do Fangio, com dois tanques de combustível nas laterais do carro, o Mercedes 300 SLR com um anteparo traseiro que funcionava como freio aerodinâmico e por aí vai.
Mas, para desfrutar desses momentos, é preciso tempo, dedicação, foco, coisas cada dia mais raras hoje em dia. Todo esforço, nesse sentido, é recompensado, como é possível concluir pelos exemplos citados. E isso vale não apenas para aquilo que se pode ver com os olhos, mas para o que se pode captar com os outros sentidos e também com a leitura. Rolar rapidamente a tela do celular pode ser interessante. Mas pouco ou quase nada resta no final do dia. Nada supera a experiência de ver, tocar e imaginar (pensar, concluir e viajar – no caso da leitura de um livro).
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Deve ser por conta desse vazio dos conteúdos instantâneos que a publicidade ultimamente abusa da palavra “experiência”, nos anúncios. O xampu não é apenas um produto para lavar o cabelo, mas uma experiência para sua vida. Isso acontece com carros, viagens, sapatos, salões de barbeiro.
E, viajando um pouco mais, deve ser também o que leva tantas pessoas a se dedicarem aos produtos de antigamente, livros, discos, máquinas fotográficas, relógios, carros e todo tipo de relíquia, que necessitava de mãos para serem feitos e acumulavam histórias e interações, da concepção ao uso. Que exigiam serem vistos, tocados, experimentados com dedicação, atenção. O antigomobilismo , que nunca esteve tão em alta no mundo, está aí para comprovar isso.
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<span class="hidden">–</span> Arte/Quatro Rodas

