# ‘A Morte Não Tem Dono’ expõe as feridas coloniais da Venezuela

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/cinema/a-morte-nao-tem-dono-critica/)
- Publicado em: 2026-10-25T16:24:22.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1351324-a-morte-nao-tem-dono-expoe-as-feridas-coloniais-da-venezuela

> Em A Morte Não Tem Dono , longa exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo , o cineasta Jorge Thielen Armand ( A Solidão ) parte de uma situação aparentemente simples para construir um thriller sobre propriedade, memória e herança…

O que poderia ser apenas uma disputa pela posse de uma terra rapidamente se transforma em um confronto com aquilo que a propriedade também carrega: violência, desigualdade e uma história que não desaparece simplesmente porque seus antigos donos foram embora. A volta de Caro é um encontro com as contradições de uma sociedade marcada pelo passado colonial.

Existe uma interessante aproximação com o brasileiro Propriedade , de Daniel Bandeira , que também transforma a questão da terra e da herança em matéria de tensão e violência. Mas, enquanto o filme brasileiro é mais direto e frontal em sua abordagem, Armand prefere se aproximar do conflito pelo caminho da alegoria.

A hostilidade de Caro em relação aos antigos trabalhadores negros da família expõe uma mentalidade colonial que persiste mesmo quando as estruturas tradicionais de poder começam a ruir. A disputa pela mansão não é apenas jurídica ou econômica: também envolve raça, pertencimento e a arrogância de quem acredita que uma herança lhe concede autoridade incontestável sobre um território e as pessoas que vivem nele.

Nesse sentido, a natureza é quase uma personagem e terra parece guardar uma memória própria. Não está apenas na paisagem ou na direção de arte, mas invade o filme por meio do desenho sonoro, dos ruídos, dos silêncios e de uma fotografia granulada que parece retirar da imagem qualquer sensação de conforto. Há uma atmosfera de terror que nasce justamente dessa relação entre o humano e o espaço. É um dos aspectos mais fortes do filme: a sensação de que a natureza não reconhece documentos, títulos de propriedade ou heranças. Ela simplesmente permanece, enquanto os donos passam. A ideia de que a morte não tem dono atravessa a narrativa como uma ameaça à ilusão humana de controle.

Armand constrói, assim, um pesadelo sobre as contradições da propriedade e a permanência das estruturas coloniais. A história de Caro ressoa em um contexto no qual antigas lógicas de dominação continuam a assumir novas formas, tornando a Venezuela um cenário particularmente expressivo para essa discussão. O problema é que a mesma escolha pelo abstrato que torna o filme intrigante também cria certa distância.

O ritmo deliberadamente lento e a insistência nas alegorias fazem com que, em determinados momentos, a obra pareça mais preocupada em construir uma atmosfera do que em aprofundar os conflitos que apresenta. Quando a narrativa finalmente desemboca em uma explosão de violência, o impacto existe, mas o espetáculo do desfecho acaba se sobrepondo, em parte, à reflexão política construída até ali.

Entre a contemplação e o excesso, Armand oscila entre a abstração e uma explosão de violência que nem sempre aprofunda as questões levantadas pelo filme. Embora a reflexão sobre racismo, colonialismo e propriedade seja potente, a narrativa nem sempre acompanha a ambição dessas ideias.

A força estética de A Morte Não Tem Dono está na maneira como som e imagem transformam a paisagem em uma presença ameaçadora, como se a própria terra guardasse as marcas de uma história de exploração que seus herdeiros preferem ignorar. Mas, se a Venezuela retratada por Armand carrega as feridas de um passado colonial que insiste em permanecer, falta ao filme transformar essa atmosfera em um drama mais contundente.

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