O resultado deixa Flávio em uma posição particular. O senador conquistou projeção nacional durante a campanha, mas ficará sem mandato parlamentar em fevereiro, quando termina seu período de oito anos no Senado.
Ao mesmo tempo, outras lideranças da direita chegam fortalecidas ao pós-eleição. Entre elas estão o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Michelle Bolsonaro e dirigentes do PL interessados em influenciar a escolha do candidato presidencial de 2030.
Michelle e Valdemar podem ganhar espaço
Para o cientista político Jorge Chaloub, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o futuro do bolsonarismo será marcado pela disputa pela herança política de Jair Bolsonaro, independentemente do resultado da eleição presidencial.
Chaloub destaca que o crescimento do PL ampliou a influência de seu presidente, Valdemar Costa Neto, sobre os rumos da direita.
“O PL não é só do bolsonarismo, o PL é do bolsonarismo e do Valdemar”, afirmou.
Segundo o pesquisador, a dimensão das bancadas eleitas e os recursos administrados pela legenda darão ao dirigente partidário instrumentos para participar diretamente das negociações sobre a sucessão presidencial.
Nesse cenário, Michelle poderá ampliar sua influência.
“Caso o Flávio não ganhe, uma grande vitoriosa da eleição pode ser a Michelle Bolsonaro, que agora vai ter o Valdemar da Costa Neto como aliado”, avaliou Chaloub.
A relação entre Michelle e Flávio foi marcada por divergências durante a definição da candidatura presidencial. A disputa perdeu intensidade após a consolidação do nome do senador, mas poderá voltar a influenciar as articulações para 2030.
Flávio ficará sem mandato parlamentar
Flávio encerra seu mandato no Senado em 31 de janeiro de 2027. Como disputou a Presidência, não concorreu à reeleição pelo Rio de Janeiro.
Será a primeira vez desde 2003, quando assumiu uma cadeira na Assembleia Legislativa fluminense, que o filho mais velho de Jair Bolsonaro ficará sem cargo eletivo.
A ausência de mandato poderá reduzir sua participação direta nas negociações parlamentares, embora a votação presidencial e a relação com o pai continuem sendo ativos políticos relevantes.
Flávio também terá de negociar seu espaço no PL com Valdemar Costa Neto, que comandará uma legenda com representação ampliada e acesso expressivo aos recursos públicos de financiamento partidário.
A continuidade de seu protagonismo dependerá da capacidade de preservar as alianças formadas durante a campanha e de participar da organização da oposição ao quarto mandato de Lula.
Tarcísio entra na disputa por 2030
A posição de Tarcísio de Freitas será uma das principais variáveis na reorganização da direita. Reeleito governador de São Paulo no primeiro turno, o ex-ministro de Jair Bolsonaro permanecerá à frente do maior colégio eleitoral do país e continuará entre os nomes discutidos para a sucessão presidencial.
Durante a campanha, Tarcísio abriu mão de disputar o Planalto e apoiou Flávio. A decisão, entretanto, não eliminou as especulações sobre uma candidatura própria em 2030.
Chaloub avalia que a relação entre os dois poderá ganhar novos contornos após a eleição, especialmente porque o governador terá encerrado seu segundo mandato em São Paulo quando chegar a próxima disputa presidencial.
O pesquisador também menciona a possibilidade de divergências entre diferentes integrantes da família Bolsonaro e aliados que desejam construir projetos políticos próprios.
Bolsonarismo poderá enfrentar divisões internas
O cientista político Murilo Medeiros, professor da Universidade de Brasília (UnB), também considera que o crescimento eleitoral da direita poderá provocar disputas internas.
Medeiros destaca que a expansão do grupo no Congresso e nos governos estaduais aumentou o número de lideranças interessadas em exercer influência nacional.
Segundo ele, poderão surgir divisões entre setores mais pragmáticos e grupos que defendem uma atuação mais ideológica.
A avaliação considera que o bolsonarismo reúne diferentes interesses políticos, representados por integrantes da família Bolsonaro, governadores, parlamentares e dirigentes partidários.
A definição de uma candidatura para 2030 dependerá da capacidade dessas lideranças de construir acordos e evitar uma fragmentação da direita.
PL terá força para fazer oposição a Lula
Apesar da derrota presidencial, o PL terá instrumentos importantes de atuação no Congresso.
A legenda elegeu 121 deputados federais e contará com 28 senadores na próxima legislatura, consolidando-se como a maior bancada individual nas duas Casas.
No Senado, o partido terá condições de bloquear propostas de emenda à Constituição, que exigem pelo menos 49 votos favoráveis. Para aprovar mudanças constitucionais, Lula precisará negociar com integrantes de outras legendas e, eventualmente, com parlamentares do próprio PL.
A bancada também poderá influenciar a escolha dos presidentes da Câmara e do Senado, a composição de comissões e o andamento de projetos de interesse do governo.
O tamanho da representação parlamentar coloca Valdemar Costa Neto em posição relevante nas negociações com outras forças políticas, inclusive na organização da oposição.
Flávio poderá disputar novamente a Presidência?
A votação conquistada por Flávio em 2026 poderá sustentar uma nova candidatura presidencial, mas a decisão dependerá das articulações dentro do PL e da relação entre as lideranças da direita nos próximos quatro anos.
Durante a campanha, o senador conseguiu reunir apoios de partidos de centro-direita e ampliar sua interlocução com setores empresariais. A manutenção dessas alianças fora de um mandato eletivo será um dos desafios após a derrota.
A disputa pelo apoio de Jair Bolsonaro também continuará relevante. Foi a escolha do ex-presidente que permitiu a Flávio consolidar sua candidatura, apesar das resistências iniciais de parte da direita.
Agora, o PL terá de reorganizar sua atuação como principal força de oposição a Lula e administrar as ambições de lideranças que poderão disputar espaço na eleição seguinte.
O fortalecimento parlamentar do partido amplia sua influência nacional, mas também torna mais relevante a disputa pelo comando de sua estrutura e pela escolha do candidato que representará a direita em 2030.
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