E a lista de grandes atualizações gratuitas não para nele. Na última quinta-feira (22), Cyberpunk 2077 recebeu a Atualização Edgerunners 2 (2.5), também de graça, com duas missões secundárias, Repressão e Boas-vindas ao Paraíso, e a vantagem Treta em Dobro, que permite empunhar duas pistolas ou dois revólveres da categoria Potência, como mostramos aqui no Olhar Digital . No Man’s Sky, que fez dez anos em agosto, já passou de 40 atualizações grandes sem cobrar por nenhuma. A pergunta é inevitável: por que esses estúdios dão de graça o que muita gente cobraria?
Um presente que ninguém precificou
No caso de The Witcher 3, a resposta veio do próprio co-CEO. Em entrevista ao The Game Business , publicada em 1º de setembro, Michał Nowakowski contou que o remaster nasceu quase por acidente, durante o desenvolvimento da expansão Songs of the Past, prevista para 2027. Quando veio a pergunta sobre o lado comercial, ele respondeu:
“Estávamos mergulhando mais fundo no desenvolvimento de Songs of the Past com a Fool’s Theory e começamos a conversar: ‘Por que não deixamos o jogo mais moderno? Tudo parecia ter sido feito há dez anos’. Porque foi feito há mais de dez anos. Começamos a pensar no que poderíamos fazer para melhorar. Começou com coisas pequenas e virou esse projeto maior, e de repente percebemos que tínhamos um remaster nas mãos. Mas, voltando à sua pergunta comercial, nunca pensamos dessa forma. A parte comercial é a expansão, mas, com o jogo, sentimos de verdade que esse é o jeito da CDPR de presentear quem já tem o game. Simplesmente nunca foi uma pergunta que nos fizemos.”
A conta, portanto, ficou com a expansão, que será paga, e o jogo base virou presente. A produtora Joanna Wieliczko-Masios, da CDPR, repetiu a ideia em entrevista à Epic Games Store : “Sempre quisemos que fosse um upgrade gratuito e, se antes você só tinha o jogo base e ganha o remaster de graça, incluir as expansões pareceu a melhor forma de apresentar o Remastered.” Por isso, quem só tinha o jogo base recebeu também Hearts of Stone e Blood and Wine, sem custo adicional. Quem quiser ver o que mudou no jogo, a review do remaster está aqui no Olhar Digital.
Dez anos e mais de 40 atualizações
No Man’s Sky chegou às lojas em 9 de agosto de 2016 e teve uma recepção morna no lançamento. O que veio depois virou exceção na indústria: mais de 40 grandes atualizações, todas gratuitas. Em texto assinado por ele no PlayStation Blog , Sean Murray resumiu o que isso significou:
“Com agora 40 grandes atualizações, todas gratuitas, expandimos nosso universo sandbox com construção de bases, exocraft, assentamentos, mechs, pets, naves vivas, expedições, e reconstruímos o universo várias vezes.”
Em entrevista ao GamesRadar , Murray foi além e explicou por que não quer cobrar. Sobre quanto dinheiro o jogo poderia ter rendido com conteúdo pago, ele disse: “Não acho que faria bem para a minha saúde mental.” E completou:
“Tenho certeza de que alguém poderia me levar para uma sala e me mostrar um PowerPoint provando que poderíamos ter ganhado mais dinheiro com compras dentro do app ou DLC ou algo assim. E talvez isso seja verdade. Eu nunca quero ver esse PowerPoint.”
Para ele, a gratuidade também é parte do processo criativo. Em outro trecho da entrevista, ele afirma:
“O que eu sei é que gosto muito, e acho que a equipe também se diverte, de trabalhar em uma atualização sabendo que aquilo em que estou trabalhando todo mundo vai experimentar. Todos os jogadores que temos vão experimentar isso. E acho que a gente realmente curte a jornada, e a jornada só é possível porque cada atualização se acumula.”
O raciocínio tem um limite óbvio: o tamanho do estúdio. A equipe de No Man’s Sky tinha em média cerca de seis pessoas no início do desenvolvimento, chegou a 15 no lançamento e hoje tem entre 12 e 20 no jogo, dentro de um estúdio que também trabalha em Light No Fire. Tudo indica que a sequência de melhorias gratuitas ajudou o estúdio a recuperar a confiança dos jogadores depois do lançamento conturbado. O capítulo mais recente é o Cosmos , lançado em 9 de setembro e gratuito para todos os jogadores, em todas as plataformas.
A dívida de Night City
Cyberpunk 2077 vive outra história. O jogo de 2020 deixou uma dívida com o público, e a própria CD Projekt admite que talvez ainda não a tenha quitado por completo. Em entrevista à newsletter Knowledge, da Edge, divulgada pelo GamesRadar em 19 de junho, Nowakowski disse que não está “100% convencido de que passamos por todo o arco de redenção”. E completou: “Estou convencido de que perdemos a fé de algumas pessoas indefinidamente, e isso é justo. Mas espero que a gente consiga reconquistar, se não com The Witcher 4, então com o que vier depois.” A história desse tropeço já foi contada aqui no Olhar Digital .
A fala não é sobre a Atualização 2.5, mas ajuda a entender o contexto: o estúdio que precisa reconquistar o público é o mesmo que, quase seis anos depois, lançou mais uma atualização gratuita . O jogo passou de 40 milhões de cópias, segundo o balanço do primeiro semestre da CD Projekt , e voltou a ter mais de 100 mil jogadores simultâneos em julho, o melhor resultado desde 2023, de acordo com o iXBT Games , que ligou o número à apresentação da segunda temporada de Cyberpunk: Edgerunners e a uma promoção na Steam. A conta também tem um lado pago: a expansão Phantom Liberty vendeu 15 milhões de cópias, segundo o mesmo balanço.
Quem paga a conta
Dar de graça não significa abrir mão de lucro. No primeiro semestre de 2026, a CD Projekt teve receita de 435 milhões de zlotys, 23% a mais que no ano anterior, e lucro líquido de 249 milhões, alta de 37%. Há um detalhe que pesa: praticamente toda a alta veio do licenciamento de propriedade intelectual, que saltou de 9,4 milhões para 94,8 milhões de zlotys, enquanto a receita própria de Cyberpunk caiu 4% e a de The Witcher subiu 10%, de acordo com a apresentação de resultados da empresa . The Witcher 3 já passa de 65 milhões de cópias vendidas. Os números não provam que a gratuidade causou o resultado, e nenhum dos estúdios disse isso, mas mostram que as duas coisas convivem. Na CD Projekt, o modelo é o que Nowakowski descreveu: o jogo vira presente e a expansão faz o caixa. Na Hello Games, o raciocínio é outro, e passa por manter todo mundo no mesmo jogo, sem fragmentar a comunidade.
Ganhando a confiança da comunidade gamer
Na minha leitura, o que esses estúdios dão de graça é uma forma de ganhar a confiança da comunidade, e cada um aposta numa porta de entrada diferente.
A CD Projekt usa o remaster para trazer uma geração nova para The Witcher 3 e cobra pela expansão. Quem gostar do jogo pode querer comprar tanto Songs of the Past, em 2027, quanto The Witcher 4, previsto para 2028.
Com Cyberpunk 2077, o movimento me parece ainda mais evidente. A Atualização 2.5 também é a forma de a CD Projekt continuar se redimindo pelo lançamento de 2020, e chega junto com o anime que muita gente ama, inclusive quem nunca jogou. Isso dá a essas pessoas um bom motivo para darem uma chance a um dos melhores RPGs atuais, com a estética cyberpunk mais icônica já feita. Sem contar os fãs de carteirinha, que iniciam um novo save assim que terminam o anime.
A Hello Games abriu mão de vender DLC e fez da gratuidade a identidade de No Man’s Sky.
Não é caridade e ninguém precisa fingir que é. O jogador recebe conteúdo sem pagar, e o estúdio ganha alguém que continua por perto. Presente, nesse caso, também é estratégia.
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