O evento foi detectado em 6 de julho de 2022. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Space.com , o caso chama a atenção porque os cientistas ainda não sabem exatamente o que manteve a explosão ativa por tanto tempo.
As explosões de raios gama, conhecidas pela sigla GRB (em inglês), estão entre os eventos mais energéticos do Universo. Elas podem estar associadas ao colapso de estrelas massivas, que também pode desencadear uma supernova e dar origem a um buraco negro.
No caso da GRB 220706A, porém, a atividade prolongada representa um desafio para os modelos usados para explicar esses fenômenos.
“Em poucas palavras, a GRB 220706A é uma emissão tardia de raios X extremamente incomum. Essas emissões são comuns após explosões de raios gama, mas, até agora, sempre haviam ocorrido nos primeiros dias depois da detecção do evento”, explicou Benjamin Gompertz, pesquisador da Universidade de Birmingham (Inglaterra), ao Space.com .
Segundo ele, a emissão observada cerca de 27 dias após a explosão, considerando o referencial do próprio evento, indica que havia um processo ativo em andamento. O recorde anterior de emissão tardia era de aproximadamente seis dias.
Ilustração mostrando um magnetar rodeado por linhas de campo magnético verdes no centro dos destroços de uma supernova – Imagem: Robert Lea (criada com Canva)
O que pode explicar a explosão?
A GRB 220706A pertence a uma classe rara conhecida como explosões de raios gama ultralongas. Nesses eventos, o mecanismo responsável pela emissão de energia permanece ativo por mais tempo do que nas explosões típicas. A origem desse comportamento ainda não é totalmente compreendida;
Uma das pistas está na supernova associada ao fenômeno. De acordo com Gompertz, a presença dessa explosão estelar indica que uma estrela entrou em colapso, mas isso, por si só, não explica a emissão tardia de raios X nem o brilho incomum da supernova;
Uma possibilidade é a formação de um magnetar, um tipo de estrela de nêutrons com campo magnético extremamente intenso. Um evento semelhante, detectado em 2011 e identificado como GRB 111209A, também foi associado a uma supernova excepcionalmente brilhante. Na ocasião, pesquisadores concluíram que um magnetar poderia ser a fonte de energia da explosão;
A semelhança entre os dois casos levanta a hipótese de que um mecanismo parecido esteja por trás da GRB 220706A. Ainda assim, os cientistas não confirmaram essa explicação.
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Outra possibilidade envolve a interação entre o jato de material produzido pela explosão e camadas densas de matéria expelidas pela estrela antes de seu colapso. Nesse cenário, a estrela teria se tornado instável no fim de sua vida e lançado suas camadas externas ao espaço.
Os pesquisadores também consideram que a estrela responsável pela explosão possa ter sido muito maior do que aquelas normalmente associadas a eventos desse tipo.
Segundo estimativas da equipe, seria necessária uma estrela com raio equivalente a cerca de mil vezes o raio do Sol para fornecer energia suficiente à GRB 220706A por tanto tempo. Isso apontaria para estrelas supergigantes azuis, embora a hipótese ainda não resolva todas as questões sobre o fenômeno.
Uma supernova de colapso de núcleo dá origem a um buraco negro e lança uma explosão de raios gama – Imagem: Robert Lea (criada com Canva)
Por que explosões tão longas são difíceis de detectar?
A identificação de eventos como a GRB 220706A também depende das limitações dos instrumentos usados para observar o Universo.
Segundo Gompertz, muitos dos satélites empregados na detecção de explosões de raios gama operam em órbita baixa da Terra. Como esses satélites podem perder temporariamente a visão de um alvo a cada 90 minutos, aproximadamente, acompanhar fenômenos que duram semanas se torna mais complicado.
Além disso, explosões ultralongas parecem apresentar atividade mais intensa em raios X do que em raios gama, o que exige instrumentos capazes de detectar esse tipo de emissão.
Nesse contexto, missões recentes, como a Einstein Probe, podem ajudar a encontrar outros eventos semelhantes. O observatório é especialmente sensível a raios X e pode contribuir para a identificação de explosões que passariam despercebidas por instrumentos mais voltados aos raios gama.
Para os pesquisadores, encontrar mais exemplos será importante para determinar se essas explosões fazem parte da mesma população dos eventos convencionais ou se representam uma categoria diferente de fenômeno estelar.
Por enquanto, a GRB 220706A permanece sem uma explicação definitiva. O caso mostra que os mecanismos capazes de alimentar explosões cósmicas podem ser mais duradouros e complexos do que os modelos atuais conseguem explicar.
O post Uma explosão cósmica durou 27 dias; o que a manteve ativa? apareceu primeiro em Olhar Digital .

