# Antigo reduto do PT, Hortolândia vê guinada à direita nas últimas eleições

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: ACidadeON Campinas (https://www.acidadeon.com/campinas/politica/eleicoes/antigo-reduto-do-pt-hortolandia-ve-guinada-a-direita-nas-ultimas-eleicoes/)
- Publicado em: 2026-10-26T22:59:45.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1375714-antigo-reduto-do-pt-hortolandia-ve-guinada-a-direita-nas-ultimas-eleicoes

> Hortolândia , que já foi considerada um dos principais redutos eleitorais do PT no interior paulista, consolidou nas Eleições 2026 uma mudança de comportamento observada nas últimas disputas presidenciais. Flávio Bolsonaro (PL) venceu Luiz…

O resultado contrasta com o cenário de 2014, quando Hortolândia foi a única entre as 645 cidades de São Paulo a dar vitória a Dilma Rousseff (PT) no primeiro turno da eleição presidencial. Na ocasião, a então presidente recebeu 42,37% dos votos válidos, à frente de Marina Silva (30,79%) e Aécio Neves (22,52%).

Doze anos depois, Flávio Bolsonaro recebeu 72.018 votos no município, contra 59.845 de Lula (45,38%). A diferença foi de 12.173 votos, equivalente a 9,24 pontos percentuais.

Para o sociólogo Marcos Rehder , pesquisador do Centro de Estudos em Administração Pública e Governo (CEAPG), da Fundação Getulio Vargas (FGV), a mudança reflete tanto o enfraquecimento de lideranças petistas na cidade quanto o crescimento de uma nova direita no país.

Segundo ele, a trajetória política do ex-prefeito Ângelo Perugini , uma das principais lideranças da história de Hortolândia, ajuda a compreender esse processo. Perugini, que morreu em 2021, governou o município pelo PT, mas deixou a legenda e se filiou ao PSD antes de falecer.

“A gente tem que levar em consideração que teve uma grande liderança lá em Hortolândia, que foi o Ângelo Perugini, que foi prefeito pelo Partido dos Trabalhadores. Só que, antes de falecer, ele se desfiliou do PT e foi para o PSD”, explica.

O pesquisador avalia que a mudança partidária de Perugini contribuiu para reduzir a identificação do município com o PT, mesmo com a permanência de outras lideranças políticas na legenda.

“Tudo bem, a Ana Perugini (deputada estadual e ex-esposa de Ângelo) continuou no Partido dos Trabalhadores, mas só o fato de ele sair do PT, só isso enfraqueceu um pouco a imagem do partido nessa cidade em especial.”

Imagem aérea de Hortolândia (SP) — Foto: Divulgação/Prefeitura de Hortolândia

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Da vitória de Dilma ao avanço do bolsonarismo

A mudança na preferência do eleitorado de Hortolândia começou a ficar evidente nas eleições presidenciais de 2018, quando Jair Bolsonaro (à época no PSL) derrotou Fernando Haddad (PT) nos dois turnos.

Na primeira votação, Bolsonaro recebeu 54,49% dos votos válidos, contra 23,23% de Haddad. No segundo turno, ampliou a vantagem e venceu por 65,68% a 34,32%.

Quatro anos depois, em 2022, Lula recuperou parte do eleitorado petista, mas não conseguiu reverter a preferência da cidade pelo então presidente Jair Bolsonaro. No segundo turno, o candidato do PL venceu por 54,60% a 45,40%.

O resultado de 2026 foi praticamente idêntico ao registrado quatro anos antes. Flávio Bolsonaro terminou com 54,62% dos votos válidos, apenas 0,02 ponto percentual acima do desempenho do pai em 2022. Lula, por sua vez, recebeu 45,38%, ante 45,40% na eleição anterior.

Em números absolutos, Flávio recebeu 2.505 votos a mais que Jair Bolsonaro havia conquistado em 2022, enquanto Lula ampliou sua votação em 2.153 votos.

Apesar das mudanças no número de eleitores, a divisão percentual dos votos válidos permaneceu praticamente inalterada.

Para Rehder, o cenário acompanha um processo de perda de força do PT nos municípios do interior, intensificado ao longo da última década.

“A gente não pode deixar de levar em consideração que, em termos de capilaridade em municípios do interior, houve uma queda no PT de 2012 para cá.”

O pesquisador ressalta, no entanto, que a transformação não se limita a Hortolândia ou à Região Metropolitana de Campinas, mas acompanha a reorganização das forças políticas brasileiras.

“Houve a construção de uma nova plataforma política em torno do nome do Jair Bolsonaro, isso é inegável. Mesmo pessoas que não estavam diretamente apoiando acabam sendo influenciadas por esse discurso e por essa agenda, e isso deu uma nova cara para a direita brasileira.”

“Isso não é um fenômeno do interior ou da região, é um fenômeno nacional que acabou acontecendo e que, logicamente, teve influência sobre a nossa região”, acrescenta.

Antipetismo ajuda a explicar mudança

Outro fator apontado pelo sociólogo é o crescimento do antipetismo, que contribuiu para atrair eleitores que não necessariamente se identificam com o bolsonarismo, mas rejeitam o Partido dos Trabalhadores. Segundo Rehder, essa polarização também reduziu o espaço de alternativas políticas que poderiam representar uma terceira via nas disputas presidenciais.

“A gente tem que pensar também que setores que poderiam ser associados a uma possível terceira via acabaram sendo um tanto quanto esvaziados por esse fenômeno da direita, muito em virtude do antipetismo.”

O pesquisador destaca que a rejeição ao PT passou a exercer influência sobre as escolhas eleitorais, inclusive entre pessoas que não se identificam integralmente com a agenda bolsonarista.

“Pessoas que nem gostam tanto do bolsonarismo, mas votaram nele para ser contra o PT.”

Lula cresce entre os turnos, mas não consegue virada

Apesar da terceira derrota consecutiva do PT em Hortolândia, os números de 2026 mostram que Lula conseguiu reduzir a distância para Flávio Bolsonaro entre o primeiro e o segundo turno.

Na votação de 4 de outubro, o candidato do PL recebeu 66.202 votos (52,62%), enquanto Lula somou 47.873 (38,05%). A vantagem inicial era de 18.329 votos. Já no segundo turno, Flávio Bolsonaro chegou a 72.018 votos, um acréscimo de 5.816. Lula, por sua vez, passou para 59.845 votos, conquistando 11.972 votos adicionais.

Com isso, a diferença entre os candidatos caiu de 18.329 para 12.173 votos, uma redução de 6.156 votos.

Embora tenha conseguido atrair mais votos entre os turnos, o presidente reeleito não foi capaz de superar a vantagem do adversário no município.

Articulação política pode influenciar próximas eleições

Para Marcos Rehder, a manutenção desse cenário nas próximas disputas ainda depende da capacidade de articulação política do governo Lula, especialmente no Congresso Nacional.

O sociólogo avalia que a relação entre o Executivo federal e os parlamentares pode influenciar o posicionamento de lideranças regionais e, consequentemente, a percepção dos eleitores nos municípios.

“Eu não sei o que vai acontecer a partir de agora, a partir dos resultados das eleições de ontem. Isso muito vai depender, nesse finalzinho de ano, começo do ano que vem, de como o atual governo federal vai conseguir se articular dentro do parlamento para o quarto mandato.”

Segundo ele, deputados que estabelecem uma relação de cooperação com o governo federal podem conseguir investimentos e benefícios para suas bases eleitorais, o que influencia a forma como a administração é percebida regionalmente.

“Na medida em que eles começam a estabelecer cooperação ou não com um governo federal, isso acaba irradiando nas suas bases eleitorais. Ele consegue trazer determinado benefício para sua região, determinado investimento para sua região, pode dar mais ou menos ênfase para o governo federal nesse processo.”

O pesquisador acredita que os primeiros sinais sobre os efeitos dessa articulação devem surgir nos primeiros meses de 2027.

“A gente vai ter que entender como isso vai acontecer. Só vai dar para começar a ter uma ideia do que vai acontecer no futuro lá para março, abril do ano que vem.”

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