A virada inédita nas urnas foi impulsionada por dois fatores: ruas e redes. Foi essa a estratégia da campanha de Lula depois de sair atrás no primeiro turno.

“Há muitos anos, não tinham visto uma movimentação da sociedade como nós temos visto nesse segundo turno", disse Lula em 24 de outubro de 2024.

O combustível da virada foi o susto nas urnas. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou na frente. Lula admitiu a surpresa e avisou que começava ali uma nova eleição:

“O resultado muitas vezes é inesperado. Eu confesso para vocês que eu estava convencido que eu ia ganhar as eleições no primeiro turno".

O resultado provocou uma reação imediata, que começou em grupos de mensagens e ganhou as ruas. Logo após o primeiro turno, estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, organizaram o primeiro ato de rua da nova fase da disputa - que foi seguido por outros tantos.

Virada inédita de Lula nas urnas é impulsionada por dois fatores: ruas e redes

Jornal Nacional/ Reprodução

A campanha montou um quartel-general em Brasília e criou uma força-tarefa digital. O núcleo reuniu jovens deputados recém-eleitos, como Jones Manoel e Guilherme Cortez, do PSOL, e Ana Júlia Ribeiro, do PT - todos com votações expressivas, para acertar a rota. A missão era transformar a frustração em engajamento rápido, como lembra a deputada federal Ana Elisa, do PT, que também integrou o grupo:

“As percepções das pessoas mudam no dia a dia. Hoje, com acesso exacerbado às redes sociais, as percepções das pessoas, os votos das pessoas viram a cada dia. Então, eu realmente acreditava na virada, mas eu não pensava que seria dessa forma estrondosa".

O deputado federal André Janones, da Rede, assumiu o papel de estrategista digital. Foi dele a ideia de criar o canal "Exército do Lula" no WhatsApp. O grupo foi ganhando força, multiplicando as adesões e chegou a mais de 10,5 milhões de inscritos na reta final.

“A analogia que eu fiz: o Messi nunca deixou de ser gênio. Ele não deixa de ser gênio quando ele fala para a seleção da Argentina: ‘Olha, eu não consigo correr mais. Corram por mim que o restante eu faço’. Os jovens disseram: ‘Eu corro por você’. É exatamente o que nós fizemos pelo Lula", afirmou André Janones.

As manifestações de rua cresceram pelo Brasil. E o trabalho de formiguinha foi ganhando adeptos e força. João Ricardo Dias é advogado no Rio de Janeiro. Nas últimas semanas, foi para as ruas conversar e convencer eleitores:

“Realmente eu sinto que a minha mobilização, ela não, não é só minha. Assim, é representativo de uma geração toda que estava aí disposta para lutar por um projeto que faça o país perseverar aí pelos próximos quatro anos".

Virada inédita de Lula nas urnas é impulsionada por dois fatores: ruas e redes

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Enquanto a militância agia nas ruas, a campanha consolidava os papéis do vice Geraldo Alckmin, que reforçou a estabilidade, e dos ex-ministros Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva. Esse esforço contou com a atuação do ministro Camilo Santana e de governadores, como Rafael Fonteles, do PT - reeleito com mais de 70% dos votos no Piauí -, que entrou para a coordenação da campanha na reta final. Em entrevista ao Estúdio i, na GloboNews, Fonteles comentou a aproximação de Lula com as redes sociais:

“Ele passou a usar mais enfaticamente, mais frequentemente, as redes sociais. E também as ruas se levantaram mais, os jovens, a população em geral. E uma coisa alimenta a outra. As redes sociais alimentam as ruas, as ruas alimentam as redes".

A campanha também mirou nos eleitores que não tinham votado no primeiro turno. Foram mais de 33 milhões de brasileiros. Os mais velhos responderam à convocação. E foi exatamente a união desses dois mundos - a guerrilha de mensagens nas redes sociais e a presença maciça nas ruas em diferentes pontos do país - que impulsionou a virada nas urnas. Assim que o resultado oficial foi confirmado, a energia das ruas se transformou em celebração. Para quem mergulhou na campanha, a tensão dos últimos dias deu lugar ao alívio da vitória.

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