# Real, ações e renda fixa derretem após reeleição de Lula: o que fazer agora?

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/onde-investir/real-acoes-e-renda-fixa-derretem-apos-reeleicao-de-lula-o-que-fazer-agora/)
- Publicado em: 2026-10-27T08:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1380126-real-acoes-e-renda-fixa-derretem-apos-reeleicao-de-lula-o-que-fazer-agora

> A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo (25), transformou a primeira segunda-feira pós-eleição num teste de nervos para o investidor. Com os ativos brasileiros em forte queda, quem tem dinheiro para aplicar se…

O Ibovespa despencou 13,88%, aos 176.608 pontos, depois de fechar a sexta-feira acima dos 205 mil pontos. Durante o pregão, o índice chegou a cair mais de 17% e acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, enquanto o dólar comercial subiu 8,25%, a R$ 5,40. Mesmo com a queda, analistas dizem que não dá para cravar que a Bolsa está barata.

Na renda fixa, os títulos prefixados do Tesouro Direto tiveram a maior alta diária de taxas da série histórica do Tesouro, superando o recorde de março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Também aqui, os especialistas se dividem sobre a atratividade dos papéis.

Para Vinícius Romano, coordenador de Investimentos da Suno Consultora, muito do movimento atual é uma devolução da alta ocorrida logo após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro surpreendeu com votação acima da de Lula, que vinha liderando as pesquisas. Ele lembra que eleição não é um tema surpresa, um &#8220;cisne negro&#8221; como uma pandemia, e não deveria mudar a estratégia do investidor. &#8220;Agora é manter a cabeça no lugar e não comprar ou vender no calor do momento&#8221;, recomenda.

A maioria dos especialistas ouvidos pelo InfoMoney desaconselha movimentos bruscos, mas há divergências relevantes sobre onde colocar o dinheiro agora. Veja um resumo das opiniões:

Investimento Quem vê oportunidade Quem pede cautela Como agir Ações Romano (Suno): aportes em empresas de qualidade, como nomes do setor financeiro e elétrico Balassiano (ASA), Chicoli (Monte Bravo) e Coutinho (HCI): queda só devolve o prêmio eleitoral, e a Bolsa pode seguir cara se o fiscal não for endereçado. Faria Junior (Wagner): não vê oportunidade nem com ações mais baratas em dólar, por risco de recessão e concorrência dos ativos americanos Entrar aos poucos; exportadoras e commodities tendem a resistir melhor, e varejo e construtoras endividadas, a sofrer mais Tesouro prefixado e IPCA+ Sá (Akros): IPCA+ para quem tem horizonte longo e tolera volatilidade Corano (Corano Capital): não mexer agora, já que o próprio Tesouro suspendeu os leilões Para travar taxa, dividir em parcelas ligadas a Copom, Fazenda e Orçamento; quem já tem títulos longos não deve vender na baixa Tesouro Selic Corano: melhor opção para dinheiro novo, com a Selic em 13,75% Opção para esperar a volatilidade passar sem risco de marcação a mercado Exterior Shahini (Nomad), Ferreira (EFG) e Romano: manter parcela estrutural em dólar, mesmo após a alta da moeda Ferreira: não vender ações brasileiras na queda só para dolarizar Fatia de 20% a 40% do portfólio para o perfil moderado (Nomad) e de 25% a 50% para algumas famílias (EFG)

Bolsa cara mesmo após a queda?

Na Bolsa, a dúvida é se a queda deixou as ações baratas ou apenas desfez o otimismo eleitoral. A segunda hipótese é a de Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA. &#8220;Só devolve o prêmio eleitoral desse mês&#8221;, diz. Para ele, um P/L (preço sobre lucro) barato para o Brasil seria abaixo de 9.

Mas a conta não é tão simples. &#8220;Voltar à faixa pré-eleição não significa, automaticamente, ficar barata, porque precisamos considerar também as novas perspectivas para os juros, crescimento e lucros das empresas&#8221;, afirma Luise Coutinho, head de Produtos e Alocação da HCI Advisors.

Parte da resposta está em Brasília. Além do prêmio devolvido, o mercado passou a precificar uma chance maior de o governo não endereçar a questão fiscal , avalia Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo. Se o tema for encaminhado, a Bolsa se mostrará barata mais à frente; se não, e o gasto seguir crescendo, o quadro se inverte. &#8220;A gente provavelmente vai ver pioras adicionais e, mesmo com essa queda, a Bolsa pode estar eventualmente cara&#8221;, diz.

José Faria Junior, diretor da Wagner Investimentos, também não vê oportunidade na Bolsa, mesmo com as ações brasileiras mais baratas em dólar, o que pode atrair investidores estrangeiros. Ele cita os lucros elevados das empresas americanas e os juros altos nos Estados Unidos, inclusive nos títulos do Tesouro americano, que reduzem a atratividade dos ativos brasileiros. A maior preocupação de Faria, porém, é que o cenário político leve a uma recessão, pois os empresários contavam com uma queda dos juros a partir da mudança de governo, o que não veio.

Há quem já veja espaço para comprar. Para Romano, da Suno, em alguns casos o cliente pode aumentar a exposição em Bolsa diante da queda dos preços e, para esse perfil, o momento atual pode ser de oportunidade. &#8220;Tem empresas com boa qualidade e o investidor pode fazer novos aportes, claro que não como se hoje fosse o último dia do mercado&#8221;, diz. Romano cita oportunidades de compra em alguns nomes do setor financeiro e também do setor elétrico.

Os papéis ligados ao ciclo doméstico tendem a sofrer mais, segundo Coutinho e Chicoli. Ela cita empresas endividadas e dependentes de consumo e crédito, como parte do varejo e das construtoras.

Já exportadoras e empresas de commodities tendem a ser mais resilientes, afirma Chicoli, por ganharem mais em reais com o dólar valorizado. &#8220;Com certeza, empresas como a Vale ( VALE3 ) e Suzano ( SUZB3 ) tendem a ganhar nesse cenário&#8221;, reforça Balassiano. As duas, aliás, estiveram entre as poucas ações do Ibovespa em alta nesta segunda. Coutinho lembra que é preciso olhar também custos e dívidas em moeda estrangeira. &#8220;Ainda podem existir oportunidades, desde que a valorização do dólar não esteja totalmente incorporada ao preço.&#8221;

Na hora de entrar, Coutinho e Chicoli aconselham ir aos poucos. &#8220;Se você escalona e a situação piora, você não fez muito a ponto de prejudicar o seu valor final. E se você escalona e a situação melhora, pelo menos uma parte da sua aplicação foi a preços melhores&#8221;, explica o estrategista.

Tesouro Direto tem oportunidade?

Na abertura das negociações , que concentrou o pico do dia, a taxa do Tesouro Prefixado 2032 saltou de 12,89% no fechamento de sexta-feira (23) para 15,78% ao ano. No mesmo intervalo, o juro real do Tesouro IPCA+ 2050 passou de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,64%. A alta é a maior em um único dia para os prefixados desde o início da série oficial do Tesouro, em dezembro de 2004, embora o programa exista desde 2002. As taxas recuaram um pouco ao longo da tarde, mas seguiram muito acima dos níveis de sexta, apagando todo o rali que se seguiu ao primeiro turno e superando até o patamar anterior à votação.

&#8220;O mercado estava posicionado para uma vitória de Flávio Bolsonaro. Agora, além de desmontar essa aposta, passou a cobrar um prêmio adicional&#8221;, comenta Bruno Corano, economista e CEO do Corano Capital.

Para Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, a reeleição frustrou as expectativas que sustentaram o rali de outubro. &#8220;O que determinará a extensão do movimento será a percepção sobre a política econômica do quarto mandato&#8221;, afirma.

A divergência aparece na hora de decidir o que fazer. Corano defende não fazer nenhum movimento, ainda mais logo depois da eleição. Nesta segunda, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana e manteve apenas a oferta de papéis atrelados à Selic. &#8220;Se o próprio emissor preferiu não vender títulos nessas condições, o investidor pessoa física não precisa ter pressa para comprar&#8221;, afirma Corano.

Para dinheiro novo, ele vê o Tesouro Selic como a melhor opção, por considerar arriscado qualquer título sujeito a marcação a mercado. &#8220;Com a Selic em 13,75% ao ano, cerca de três vezes a inflação acumulada em 12 meses, o investidor é muito bem remunerado para esperar.&#8221;

Glauber Sá, fundador da Akros Consultoria, tem outra leitura. Embora diga que a decisão depende de cada investidor, ele vê as taxas reais elevadas como oportunidade para quem tem apetite para a volatilidade e horizonte longo. Para ele, o IPCA+ é a melhor opção, porque o risco inflacionário é alto.

Tomando como referência a taxa paga pelo IPCA+ 2050 na sexta, de IPCA + 6,42%, Sá calcula que R$ 100 mil se transformam em cerca de R$ 347 mil em poder de compra de hoje em 20 anos, antes do Imposto de Renda. Num cenário de IPCA + 7,8%, o valor chega a R$ 449 mil.

Para quem quer travar taxa, Corano sugere dividir o valor em três ou quatro parcelas, ligadas a marcos como a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, o anúncio do ministro da Fazenda do novo mandato e a votação do Orçamento de 2027 . Sá defende um primeiro movimento imediato, seguido de vários aportes. &#8220;O erro mais caro não é comprar no dia errado, é abandonar a estratégia no meio do caminho e transformar oscilação em prejuízo&#8221;, diz.

Quem já tem títulos longos sente a marcação a mercado. Segundo Corano, quem comprou o IPCA+ 2050 na sexta viu o preço de mercado cair quase um quarto na abertura desta segunda. &#8220;Só que essa perda só se concretiza se o investidor vender&#8221;, diz. Sá recomenda segurar, já que, para quem tem objetivo de longo prazo, um ou dois anos de marcação negativa não deveriam mudar a estratégia.

O Copom, que se reúne na próxima semana, não deve resolver a questão, porque o que move a ponta longa é o fiscal . Para Romano, o cenário pode mudar se o governo vier com uma surpresa positiva, como um nome forte para o Ministério da Fazenda ou alguma reforma econômica. &#8220;Mas os preços de hoje ainda refletem essa incerteza sobre o fiscal.&#8221;

Faria, da Wagner, é mais pessimista, e vê ainda o risco de o governo tentar reduzir os juros artificialmente, aumentando a influência sobre o Banco Central. “O presidente Lula vai indicar mais quatro diretores do BC e pode forçar uma queda dos juros e, com isso, os juros longos e o dólar subiriam e pressionariam ainda mais a atividade”, alerta. Nesse cenário, o dólar seria a variável de ajuste, com efeito sobre a inflação: pelas contas dele, uma alta de 7% na moeda americana teria impacto de 1 a 1,5 ponto percentual nos preços.

No exterior, diversificar sem olhar a cotação

A queda também reacende o debate sobre levar dinheiro para fora . Para Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o investidor deve sempre manter uma parcela estrutural do patrimônio em ativos dolarizados. &#8220;O pregão de hoje funciona como um lembrete dessa mensagem que sempre defendemos&#8221;, diz. Luis Ferreira, CIO para as Américas do EFG Bank, concorda que a internacionalização faz sentido independentemente de quem esteja na presidência. &#8220;Uma eleição pode motivar a revisão da carteira, mas não deveria determinar toda a estratégia.&#8221;

&#8220;Não acredito que exista um dólar &#8216;caro&#8217; para quem pensa em prazos de 10, 15 ou 20 anos&#8221;, diz Shahini. Romano também vê espaço para investir lá fora. &#8220;O dólar subiu bastante, mas para quem tem pouca exposição tem vários ativos lá fora que fazem sentido comprar, até a própria renda fixa lá fora a gente vê as taxas de juros subindo bastante&#8221;, diz.

Quanto ao tamanho da fatia, a Nomad trabalha com um intervalo entre 20% e 40% do portfólio total para um investidor moderado. Ferreira fala em 25% a 50% do patrimônio financeiro investível para determinadas famílias, sem que isso funcione como regra geral.

Patrimônio pequeno não é impedimento para nenhum dos dois. &#8220;Um investidor com menos recursos já possui um passivo em dólar apenas pelo fato de residir no Brasil&#8221;, afirma Shahini.

Vender ações brasileiras depois da queda para dolarizar exige cuidado, alertam os especialistas. &#8220;A queda de hoje, sozinha, não deveria determinar essa decisão. Antes de vender, é preciso saber qual carteira se quer construir&#8221;, diz Ferreira. &#8220;O medo de hoje não deve definir a estratégia para as próximas décadas.&#8221;

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