Nesta apresentação, já levada à Europa ao longo dos últimos meses, Wood traz não apenas músicas dos Stones , como também composições de suas outras bandas, Jeff Beck Group e Faces , além da carreira solo. Ainda há espaço para releituras de releituras de Bob Dylan , Aretha Franklin , Willie Dixon e mais. São duas horas de performance, com Ronnie acompanhado de sua chamada Ammo Band e até mesmo de duas cantoras: Chanel Haynes e Imelda May .
À Rolling Stone Brasil , o guitarrista celebra, em tom de brincadeira, a rara oportunidade de capitanear um grupo — “sou o líder dessa banda, o que não acontece com muita frequência” — e adianta o plano de gravar as apresentações na América do Sul (Brasil, Argentina e Chlie) para lançar como álbum ao vivo. Também explica que a Ammo Band traz músicos com quem tocava na década de 1970: o baterista Andy Newmark e o baixista Willie Weeks , presentes em seu primeiro álbum solo, I’ve Got My Own Album to Do (1974).
“Eu nem sabia se Andy e Willie estavam vivos! Descobrir que estavam vivos e tocando é ainda melhor. Estão arrasando como nunca. Comecei esse projeto com eles, trouxe Johnny Lee Schell para me ajudar com a guitarra e tenho Andy Wallace , que é ótimo, nos teclados. Por fim, tenho a sorte de contar com Chanel Haynes e Imelda May nos vocais. Elas são muito talentosas e trazem sensualidade.”
A menção a Andy Wallace poderia passar despercebida. Trata-se, porém, de um dos produtores e engenheiros de som mais conceituados da indústria musical. Trabalhou com nomes do porte de Nirvana , Prince , Linkin Park , Avenged Sevenfold , System of a Down , Jeff Buckley e os brasileiros do Sepultura . A história da música contemporânea passa pelas mãos do tecladista de Wood .
O baixista do Jeff Beck Group
A nível de importância, claro, Ronnie não fica atrás de Wallace . Após começar sua trajetória na banda de R&B The Birds , na década de 1960, ele se vinculou a ninguém menos que Jeff Beck , um dos guitarristas mais importantes da história. Assumiu o baixo e gravou dois álbuns seminais para o desenvolvimento da música pesada: Truth (1968) e Beck-Ola (1969). E isso com um instrumento que nem é o seu principal, mas já lhe rendeu elogios de Jimi Hendrix , Gene Simmons ( Kiss ), Stanley Clarke e Larry Graham ( Sly & the Family Stone ).
Sobre o período e a relação com o baixo, ele comenta:
“Quando entrei para o Jeff Beck Group , tocávamos com duas guitarras e tínhamos Dave Ambrose no baixo. Mas Jeff me perguntou se eu toparia o desafio de tocar baixo. Jimi Hendrix gostava do meu jeito de tocar baixo. Então aceitei e me adaptei muito bem. Isso me deu uma nova perspectiva. Quando voltei a tocar guitarra, estava muito mais consciente da seção rítmica e da estrutura. Ao longo da minha carreira, sempre aceitei tarefas um pouco acima da minha capacidade e pensei: ‘quero encarar isso’.”
O parceiro de Rod Stewart no Faces
É por aceitar desafios que, segundo Ronnie Wood , seu novo lançamento recebe o título Fearless (Destemido). A compilação dupla, lançada em 2025 e promovida na turnê atual, compila gravações de toda a sua carreira. Para além de Jeff Beck Group , Rolling Stones e carreira solo, há espaço no tracklist para o Faces , banda que integrou no início da década de 1970 junto de ninguém menos que Rod Stewart , com quem já havia trabalhado no projeto de Beck .
“Quando [o vocalista e guitarrista] Steve Marriott saiu [e a banda Small Faces virou apenas Faces ], éramos influenciados por bandas funk, como Booker T. & the MGs e The Meters . Nossa seção rítmica era forte. Rod adicionou um toque de soul porque na época ele curtia Sam Cooke , Otis Redding e aqueles caras do blues gritado, além de gente como David Ruffin , do The Temptations .”
Enquanto Wood está mais ativo do que nunca, Stewart está prestes a se aposentar. No fim de setembro, o cantor anunciou uma turnê de despedida. Convidado a se manifestar sobre a decisão do colega, o guitarrista declarou:
“Isso depende dele. Sei que ele teve algumas lesões jogando futebol ao longo dos anos e agora está mais velho [81 anos]. Ele está achando mais difícil se locomover e, para ser a igual ao que era, a velha chama está meio que se apagando um pouco, mas ainda existe na voz dele.”
Um dos mais longevos nos Rolling Stones
Ronnie Wood começou a trabalhar com os Rolling Stones em 1975, na vaga deixada por Mick Taylor e superando a concorrência de Jeff Beck e Rory Gallagher . A situação gerou diferenças com Rod Stewart de modo a encerrar o Faces . A relação do guitarrista com sua então nova banda havia começado ainda antes: os caminhos se cruzaram em diferentes projetos e sessões ao longo dos anos até que, em 1974, Wood colaborou com a criação e gravação de “It’s Only Rock ’n Roll (But I Like It)” , curiosamente a música que abre o repertório do show a ser realizado no Brasil.
Embora tenha chegado a uma banda consolidada e já com uma imensa galeria de hits, Ronnie viu e passou de tudo com os Rolling Stones . Altos e baixos. Períodos mais e menos produtivos. Brigas de toda situação entre Mick Jagger e Keith Richards . Ciente de que os Stones são sua atividade principal, Wood responde de forma simples o porquê de ter retomado sua carreira solo após mais de 16 anos sem shows completos: “Enquanto os Stones descansam, imaginei que deveria manter minhas mãos ocupadas. Adoro fazer isso e sei que Mick Jagger também” .
Como citado, não apenas o guitarrista, como os Stones no geral estão mais prolíficos. Não em shows, pois não se apresentam ao vivo há mais de dois anos, mas em estúdio: eles não lançavam dois álbuns em três anos desde o fim da década de 1980. O culpado? Andrew Watt , produtor de Hackney Diamonds e Foreign Tongues , bem mais jovem que os membros do grupo com seus 36 anos de idade.
“Desde os tempos de Jimmy Miller eles não eram tão prolíficos quanto agora. Andrew Watt dizia: ‘ok, pessoal, agora vamos gravar as músicas no estúdio’. Falava: ‘você fica aqui de segunda a sexta, Ronnie , quero todas as suas guitarras prontas’. Eu concordava. Aí ele: ‘ Keith , quero suas guitarras prontas esta semana’. E o Keith respondia: ‘Bem, talvez eu faça na semana que vem’. Ele rebatia: ‘Não vai não, você fará isso esta semana, hoje mesmo, comece agora’. Bang! Ele nos dá o impulso necessário, o que é ótimo. É por isso que lançamos dois álbuns quase um após o outro.”
E por que os Stones recorreram — e estão obedecendo — a um profissional tão jovem? Para além de sua experiência anterior gravando Ozzy Osbourne , Eddie Vedder , Miley Cyrus e Iggy Pop , Watt traz, de acordo com Wood , um domínio musical raro.
“ Andrew Watt aprimorou nossa performance. Ele é muito criativo, toca instrumentos e até canta, então ele sabe do que está falando. O cara sabe do que está falando. Ele consegue se comunicar com a gente, os mais experientes. Tem a cabeça no lugar para um rapaz tão jovem. Sabe o que está fazendo.”
Para Ronnie , Foreign Tongues é ainda melhor do que Hackney Diamonds por preservar a energia e o frescor de “rock ao vivo” enquanto mistura ideias completamente novas. “ Mick estava praticamente bolando tudo ali do zero”, comenta ele, que se mostra empolgado com o futuro. “Ano que vem ou em breve, adoraríamos tentar promover Foreign Tongues com uma turnê”, diz o guitarrista. O entrave, conforme revelado em outras entrevistas, é Keith Richards , no momento avesso a excursões. Quem sabe Andrew Watt não manda Richards retornar aos palcos também…
*Ronnie Wood se apresenta com sua Ammo Band no Espaço Unimed, em São Paulo, no próximo dia 1º de novembro. Há ingressos à venda no site Eventim .
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