# Como Amy Winehouse promoveu uma revolução em ‘Back to Black’

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/musica/amy-winehouse-back-to-black/)
- Publicado em: 2026-10-27T10:45:41.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1382210-como-amy-winehouse-promoveu-uma-revolucao-em-back-to-black

> Amy Winehouse era vista por todos à sua volta, ao mesmo tempo, como uma das maiores promessas da música no Reino Unido e como um caso perdido. Tinha um talento gigantesco, simbolizado na sua voz singular, além de uma habilidade lírica de…

Por um tempo, o talento falou mais alto. O segundo álbum de estúdio de Amy, Back to Black (2006), se tornou um mega sucesso, com mais de 20 milhões de cópias vendidas pelo mundo. Cinco anos depois, ela se foi. Sem conseguir dar ao mundo um disco sucessor, acabou consumida por um coquetel de seus demônios e a perseguição incessante da mídia.

Restou ao mundo apenas Back to Black , que se tornou um clássico contemporâneo. Entretanto, esse status vai além da narrativa em torno dele e merece ser analisado mais a fundo.

Origens do álbum

O álbum de estreia de Amy Winehouse, Frank (2003), apontava certas tendências da artista. O disco, produzido por Salaam Remi , era bastante influenciado por jazz e continha muito da verve lírica da cantora, que compôs a maioria das músicas, inspirada por um relacionamento no seu fim.

Entretanto, o timing do lançamento não foi ideal. O mundo estava no final da onda pop de Britney Spears , Christina Aguilera e afins, então não havia espaço para Amy nessa vereda, tampouco entre cantoras mais “sérias”, tal qual Alicia Keys ou Macy Gray , devido ao fato de ela não ser tão polida. Winehouse falava palavrão e fazia piadas nas suas letras.

Em 2005, ela conheceu Blake Fielder-Civil e os dois começaram uma relação. Ela redescobriu a música de girl groups dos anos 1960 que amava quando criança e adolescente, a revigorando criativamente. Então, sua avó, uma das figuras mais centralizadoras de sua vida, morreu, e seu namorado a largou para voltar com a ex.

Amy entrou numa espiral autodestrutiva de bebida e drogas durante a qual perdeu uma quantidade assustadora de peso. A equipe de empresários queria que ela se internasse numa clínica de reabilitação. Sua recusa inspirou seu maior sucesso.

Em entrevista à Zane Lowe na BBC Radio 1 (via Far Out Magazine ), dias antes da morte da cantora em 2011, o produtor Mark Ronson contou sobre a origem de “Rehab” :

“Estávamos em Nova York. Tínhamos trabalhado juntos por cerca de uma semana e estávamos indo para alguma loja. Ela queria comprar um presente para o namorado dela e estava me contando sobre um momento específico na vida dela que foi&#8230;. Eu me sinto mal, tipo, falando sobre uma amiga assim, mas acho que já contei essa história várias vezes&#8230;. mas ela bateu, tipo, um fundo de poço e o pai dela veio tentar fazê-la voltar à razão. E ela disse: &#8216;Ele tentou me fazer ir para a reabilitação e eu fiquei tipo: &#8216;Pfft, não, não, não’.’ E a primeira coisa que eu pensei foi: &#8216;ding ding ding ding ding.&#8217; Tipo, eu deveria ter reagido com: &#8216;Como foi isso para você?&#8217; e tudo o que eu pensei foi: &#8216;Temos que voltar para o estúdio’.”

A esse ponto, Amy estava trabalhando intensamente no álbum sucessor de Frank , inspirada pela música dos anos 1960 e por seu término com Fielder-Civil. Ela recrutou a banda de apoio The Dap-Kings , que trabalhava com a cantora americana Sharon Jones — cujo estilo de soul revival era exatamente o objetivo na cabeça da artista. Os músicos foram cruciais para refletir na música a intensidade das letras.

O álbum em si

O que diferencia Back to Black de seus contemporâneos não é apenas a qualidade das composições, a franqueza das letras de Amy ou o aspecto cru da música. Trata-se também de um álbum que só poderia ser feito por uma artista do Reino Unido. Isso porque a combinação de gêneros e estilos só soa natural para alguém de lá.

Não é apenas uma mistura de soul, jazz e girl groups. Há também uma influência muito forte de música caribenha. “Rehab” pode soar na superfície como uma música de Otis Redding ou Ray Charles – este último é citado na letra –, mas há um elemento no seu balanço que deve muito ao rocksteady jamaicano de cantores como Desmond Dekker ou Dawn Penn . Outra inspiração é o grupo inglês The Specials , um dos preferidos de Amy. A cantora até regravou a versão da banda para &#8220;Monkey Man&#8221; , originalmente de Toots and the Maytals , para a versão deluxe de Back to Black .

“Me and Mr. Jones” e “Just Friends” escancaram ainda mais essa influência, mas a música que mais simboliza o impacto da música jamaicana no som de Amy Winehouse é um dos seus maiores sucessos, “You Know That I’m No Good” , com seu naipe incandescente de metais. A letra mostra um microcosmo da relação tóxica dela com Fielder-Civil na forma de bebedeiras e traições. Em um certo momento de paz, tudo parece prestes a cair por terra devido a uma indiscrição descoberta:

“Sweet reunion, Jamaica and Spain

We&#8217;re like how we were again

I&#8217;m in the tub, you on the seat

Lick your lips as I soap my feet

Then you notice likkle carpet burn

My stomach drop and my guts churn

You shrug, and it&#8217;s the worst

Who truly stuck the knife in first?”

[“Doce reunião, na Jamaica e Espanha

Somos como éramos de novo

Estou na banheira, você na cadeira

Lambe os beiços enquanto lavo meus pés

Então você nota uma queimadura de carpete

Meu estômago cai e minhas tripas viram coração

Você dá de ombros e isso é a pior coisa

Quem foi o primeiro a enfiar a faca mesmo?&#8221;]

Entretanto, o centro do álbum é uma dupla de canções que vestem suas influências de maneira mais elegante. “Back to Black” é uma balada quase fúnebre sobre o fim do relacionamento de Amy com Fielder-Civil, especificamente sobre o fato dele ter retornado para sua ex:

“We only said goodbye with words

I died a hundred times

You go back to her and I go back to black”

[“Nós apenas dissemos adeus com palavras

Eu morri cem vezes

Você volta para ela e eu volto para a escuridão”]

Por outro lado, “Tears Dry on Their Own” é a luz no fim do túnel. Construída a partir de uma das melhores músicas de todos os tempos – “Ain’t No Mountain High Enough” , um dueto de Marvin Gaye e Tammi Terrell –, a letra dessa música oferece um contraponto lírico à faixa-título assim como emoções humanas frequentemente vacilam entre desespero e esperança. Aqui, Amy reconhece a tristeza da situação, mas sabe como a vida continua:

“He walks away

The Sun goes down

He takes the day, but I&#8217;m grown

And in your way, in this blue shade

My tears dry on their own”

[&#8220;Ele vai embora

O sol se põe

Ele leva o dia consigo, mas sou adulta

E do seu jeito, nessa sombra azul

Minhas lágrimas se secam sozinhas&#8221;]

Amy Winehouse foi um fenômeno não apenas musical, mas também estético. A cantora foi a figura principal na renascença do visual pin-up mundialmente, com sua combinação de penteado de colmeia, rímel e sombra bem fortes e tatuagens. Ela oferecia uma alternativa brutal às cantoras pop do começo dos anos 2000 apenas por expressar uma personalidade e sensibilidade própria.

Isso, aliado à qualidade das músicas, fez Back to Black ressoar com o público de um jeito gigantesco. Muito pode se falar sobre o que veio depois: Amy e Fielder-Civil reataram, se casaram, entraram numa espiral autodestrutiva novamente sob o olhar impiedoso dos tabloides ingleses e a cantora morreu cinco anos depois em meio a piadas sobre seu estado físico.

Entretanto, é inegável que antes disso tudo acontecer, quando Amy ainda era uma cantora cujos desastres pessoais não eram estampados nos jornais todo dia, ela produziu um dos melhores álbuns dos anos 2000. Uma obra cujo legado persiste até hoje por apelar aos aspectos mais primordiais da natureza humana: a necessidade de ser amado, o egoísmo por trás dos erros em relacionamentos e o quanto a pessoa vista como a certa parece a única no mundo.

Além disso, Back to Black previu uma guinada geral para uma sonoridade mais clássica que perdura na música ocidental. Não demorou para outras cantoras britânicas vendidas como similares a Amy aparecerem, tal qual Duffy e Adele . Mark Ronson se tornou um dos produtores mais badalados do planeta e The Dap-Kings veio a ser uma das bandas de estúdio mais em demanda dos últimos 20 anos, com integrantes aparecendo em álbuns do Black Keys , Lady Gaga , Bruno Mars , Clairo , Lana del Rey e Harry Styles .

No documentário Amy , dirigido por Asif Kapadia , o ex-empresário de Amy, Nick Shymansky , comenta que se a cantora tivesse acatado aos pedidos de ir à reabilitação e se tratar, em vez de fazer Back to Black , ela estaria viva. Talvez, mas discutir isso em 2026 é uma tarefa inútil. Mais produtivo seria imaginar que: se uma pessoa foi salva por conta desse álbum, a cantora ficaria satisfeita de saber.

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