# Executivo que apostou em Paralamas do Sucesso e Legião Urbana expõe em livro o equilíbrio delicado entre arte e comércio que rege a indústria do disco

- Seção: Entretenimento
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/10/27/executivo-que-apostou-em-paralamas-do-sucesso-e-legiao-urbana-expoe-em-livro-o-equilibrio-delicado-entre-arte-e-comercio-que-rege-a-industria-do-disco.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-27T13:58:07.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1385072-executivo-que-apostou-em-paralamas-do-sucesso-e-legiao-urbana-expoe-em-livro-o

> Jorge Davidson posa com Herbert Vianna, vocalista e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, banda que indicou para a gravadora EMI em 1983

Arquivo pessoal Jorge Davidson

♫ CRÍTICA DE LIVRO

Título: “Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileira”

Autor: Jorge Davidson

Cotação: ★ ★ ★ ★

♬ Em fevereiro de 1993, quando Jorge Davidson assumiu a diretoria artística da gravadora Sony Music, vindo de experiência bem-sucedida na EMI, período em que abriu as portas da companhia para bandas então iniciantes como Blitz, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, o executivo encontrou o nome do grupo Cidade Negra na lista de cortes da Sony. Após um primeiro álbum bem-sucedido, “Lute pra viver” (1990), a banda fluminense de reggae viu o sucesso escapulir com o segundo disco, “Negro no poder” (1992), e ia ser impiedosamente limada do elenco da gravadora.

Fã de reggae e confiante no talento do grupo, Davidson negociou a permanência do Cidade Negra na Sony Music e remodelou o som e o repertório da banda, após driblar a resistência inicial do guitarrista Da Ghama, dando polimento pop no reggae do Cidade Negra.

Com a decisão do vocalista Rás Bernardo de sair do grupo, Toni Garrido foi escolhido para ser o cantor do Cidade Negra, Liminha foi convidado para produzir o terceiro álbum da banda e Davidson foi atrás de repertório, conseguindo a canção “Onde você mora?”, parceria de Marisa Monte com Nando Reis. A empreitada deu certo e o terceiro álbum do grupo, “Sobre todas as forças”, se tornou um discos blockbusters de 1994.

A virada do Cidade Negra é uma das muitas histórias saborosas contadas por Jorge Davidson ao longo das 380 páginas de “Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileiro”, livro de memórias musicais deste baiano de criação carioca que atuou como radialista antes de se tornar um dos executivos mais importantes da indústria fonográfica brasileira, com atuação decisiva na maior parte do tempo – cerca de 30 anos – em que trabalhou no mercado de disco, geralmente no cargo de diretor artístico.

Lançamento da editora Gryphus, o livro engrena quando, após narrar histórias pessoais da vida saboreada entre a praia e os campos de futebol, Davidson entra na área profissional. A rigor, “Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileiro” é um livro sobre o equilíbrio delicado entre arte e comércio. E, justiça seja feita, os fatos legitimam as proezas contadas por Davidson na autobiografia.

Quando ainda atuava no departamento internacional da EMI, gravadora na qual ingressou na indústria fonográfica, vindo do rádio, Davidson fez algumas jogadas decisivas, atuando como um meio-de-campo que indicou à direção artística da gravadora as bandas Blitz e Paralamas do Sucesso, ambas contratadas por conta destes dois movimentos do antenado Davidson. Tanto que logo o chefão da multinacional o indicou para ser o diretor artístico da EMI, decisão que desagradou Miguel Plopschi e Renato Côrrea, então dividindo o cargo.

Uma vez efetivado como diretor artístico da EMI, Davidson marcou logo um golaço com a contratação da banda Legião Urbana, decisão tomada instantaneamente após ouvir uma fita cassete com o suprassumo do cancioneiro de Renato Russo (1960 – 1996) na fase inicial da Legião. A fita tinha sido entregue ao executivo por Pedro Ribeiro – irmão do baixista dos Paralamas do Sucesso, Bi Ribeiro – e surtiu efeito imediato em Davidson. O diretor artístico detectou ali a genialidade de Renato Russo. E o resto foi (mais) uma história que Davidson conta com orgulho no livro.

Sem jamais maquiar as disputas de poder em uma gravadora, Davidson concentra a narrativa nos próprios feitos, figurando na história como um herói sempre a salvar os artistas de eventuais incompreensões de presidentes e funcionários dos departamentos de marketing. Foi assim quando ficou ao lado de Fernanda Abreu, contra todos na EMI, e defendeu a capa conceitual idealizada pela artista para o primeiro álbum solo da cantora revelada na Blitz, “Sla radical dance disco club”, editado em 1990.

Ao longo do livro, fica evidente como as ótimas relações de Jorge Davidson com nomes poderosos na indústria da música – casos de Mariozinho Rocha (diretor musical da TV Globo de 1989 a 2016, período em que Mariozinho decidia boa parte das músicas que entrariam nas trilhas sonoras das novelas) e de Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, Tutinha, chefão da rádio Jovem Pan, emissora paulistana decisiva na promoção de uma música – também foram fundamentais para que as apostas artísticas do executivo dessem frutos comerciais.

Foi a Tutinha que Davidson apresentou, por exemplo, as músicas do primeiro álbum de Gabriel O Pensador antes do lançamento do disco em 1993. O aval do radialista foi fundamental para o sucesso do álbum, pontuado por hits radiofônicos como “Lôraburra”. Só que o rapper não bisou o sucesso inicial ao lançar o segundo disco, “Ainda é só o começo” (1995), e levou um puxão de orelhas de Davidson ao apresentar ao diretor artístico o repertório do terceiro álbum.

Como o próprio Pensador conta no texto que escreveu para a orelha do livro, ouviu de Davidson que o repertório estava aquém do potencial criativo do rapper. Resultado: o artista foi para a casa e compôs músicas como “2345meia78” e “Cachimbo da paz ”, ambas decisivas para que o álbum “Quebra-cabeça” se tornasse um dos discos mais bem-sucedidos de 1997, superando o milhão de cópias vendidas.

Se Jorge Davidson contribuiu para o fortalecimento do pop rock brasileiro na primeira das duas vezes em que trabalhou para a gravadora EMI, apostando em bandas consagradas e eternizadas pelo público, o período na Sony Music foi essencial para o desenvolvimento das discografias de Jota Quest, Skank e Chico Science & Nação Zumbi, bandas também fundamentais, todas contratadas sob a direção artística de Davidson.

Sem falar na contribuição para a consolidação da carreira de Adriana Calcanhotto, artista que, segundo Davidson, era incompreendida na Sony quando o executivo assumiu a direção artística da companhia em 1993. De fato, foi com a entrada da canção “Mentiras” (1992) na trilha sonora da novela “Renascer” (TV Globo, 1993) que a carreira de Calcanhotto deslanchou, com a cantora já empresariada por Mauro Benzaquem, indicação de Davidson.

As contextualizações, datas e dados salpicados ao longo do livro valorizam a narrativa porque estão sempre corretos, com exceção da afirmação, na página 218, de que os CDs dominaram o mercado em 1987 quando, no Brasil, as bolachinhas prateadas somente se tornaram hegemônicas na indústria fonográfica a partir da primeira metade da década de 1990 (no mundo, os CDs superaram os LPs em vendas somente em 1989). Detalhe que não tira o mérito de um livro que interessará a todo mundo que gosta de saber como a música é produzida antes de chegar ao consumidor.

Jorge Davidson deu contribuição fundamental ao universo pop brasileiro quando foi diretor artístico da EMI e da Sony Music. Na BMG, gravadora para qual migrou em 1997, a convite do presidente Luiz Oscar Niemeyer, a contribuição do executivo foi menos relevante do ponto de vista artístico.

Ainda assim, merecem menções honrosas as contratações de Lenine – cuja carreira solo foi enfim iniciada naquele ano de 1997 com o álbum “O dia em que faremos contato”, lançado sob a égide de Davidson – e de Ana Carolina, além da transformação do Pato Fu em uma banda de sucesso. Em área popular, foi Davidson quem orquestrou a contratação e lançamento de Wanessa Camargo em 2000 como cantora de pop adolescente.

Enfim, é inegável que Jorge Davidson domina a arte de revelar e/ou lapidar talentos na música brasileira. O livro de memórias deste baiano de alma carioca presta ótimo serviço à bibliografia musical brasileira ao revelar que o sucesso é fruto sobretudo do talento artístico, mas também da habilidade para promover um disco no mercado. Sem essa habilidade, um grande talento pode nunca chegar aos ouvidos do público.

Em essência, o livro mostra que conduzir um artista pelo caminho do sucesso foi a arte exercida por Jorge Davidson com faro e sensibilidade ao longo de três décadas de atuação decisiva na indústria do disco.

Capa do livro 'Em sintonia com o sucesso – A arte de revelar talentos na música brasileira', de Jorge Davidson

Reportagem completa: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/10/27/executivo-que-apostou-em-paralamas-do-sucesso-e-legiao-urbana-expoe-em-livro-o-equilibrio-delicado-entre-arte-e-comercio-que-rege-a-industria-do-disco.ghtml

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