Mas, enquanto Bono e companhia consolidam seu lugar na história da música e se preparam para uma nova turnê, com passagem pelo Brasil prevista para março de 2027, uma nova geração de artistas da capital da Irlanda começa a conquistar o próprio espaço — e vale a pena prestar atenção nela.

Formado por Elijah Hewson (voz e guitarra), Robert Keating (baixo), Josh Jenkinson (guitarra) e Ryan McMahon (bateria), o Inhaler é frequentemente associado ao U2 , não apenas pela origem irlandesa, mas também porque Elijah é filho de Bono . No entanto, reduzir a banda a esse parentesco seria um erro: embora seja possível reconhecer algumas semelhanças entre a voz do jovem músico e a de seu pai, o Inhaler está longe de ser uma cópia do U2 .

As aproximações vocais são inevitáveis e fascinantes, mas podem ser explicadas, ao menos em parte, pela genética. Musicalmente, porém, o quarteto segue um caminho próprio, com influências que vão além do legado de seus conterrâneos. Em vez de reproduzir a sonoridade que consagrou o U2 , os integrantes constroem um universo musical particular, marcado por referências diversas e uma abordagem contemporânea do rock.

Quem é o Inhaler?

Se você foi adolescente nos anos 1990 ou até nos anos 2000, provavelmente já sonhou em criar uma banda de rock ou indie. Assim como o prórpio U2 , Greenday , Radiohead e Red Hot Chilli Peppers , o Inhaler , formada por volta de 2012, nasceu de uma amizade na adolescência entre Elijah , Robert ( Bobby ) e Ryan , durante seu ensino médio na St Andrews College, uma escola localizada em Dublin.

Os integrantes começaram a tocar juntos ainda na adolescência, por volta dos 13 anos. Três anos depois, conheceram o guitarrista Josh Jenkinson por meio de amigos em comum e festas fora do ambiente escolar. Segundo brincadeiras dos próprios integrantes , Josh foi convidado a entrar porque era o único que realmente sabia tocar bem um instrumento na época.

O nome da banda também surgiu de uma brincadeira, conhecido por ter grandes crises de asma, Elijah era chamado de “ Inhaler ” (“inalador” em português), que foi adotado pelo grupo por sugestão de sua irmã, Jordan Joy Hewson , filha mais velha do vocalista do U2 .

Diferente da banda de Bono , o Inhaler não se organiza em torno de uma única figura central, mesmo que Elijah tenha mais destaque sendo o vocalista. Os quatro integrantes contribuem com ideias e perspectivas próprias para o processo de composição, construindo coletivamente uma identidade musical que reflete suas diferentes personalidades e influências.

É justamente essa dinâmica que torna a banda tão interessante. O grupo recupera uma filosofia que parece cada vez mais rara na indústria musical: a de artistas que constroem algo juntos, movidos menos pela busca imediata por sucesso do que pela vontade de transformar experiências em música. É uma energia que remete a grupos como The Strokes , The War on Drugs , Fontaines D.C . e Wolf Alice , cada um à sua maneira.

A sonoridade do Inhaler não surgiu do nada. Formado em Dublin, o quarteto cresceu ouvindo bandas que ajudaram a moldar o rock alternativo britânico e irlandês, como Oasis , The Stone Roses , The Smiths e Joy Division . Essas referências aparecem em diferentes momentos da discografia, mas não impedem que o grupo explore outras direções. Pelo contrário: a capacidade de combinar influências distintas é justamente um dos aspectos mais interessantes de sua música.

A trajetória ao vivo também ajuda a dimensionar o espaço que a banda vem conquistando no rock contemporâneo. Além de uma apresentação impecável no Lollapalooza Brasil 2025 , o Inhaler já dividiu palcos com nomes como Arctic Monkeys, Pearl Jam e integrou a turnê solo de Noel Gallagher , High Flying Birds , como banda de abertura. A proximidade com artistas que ajudaram a moldar o repertório musical de seus integrantes reforça a conexão do quarteto com diferentes gerações do rock, enquanto a banda conquista seu próprio espaço na cena internacional.

Embora compartilhem referências, os quatro músicos também desenvolveram gostos particulares que contribuem para a identidade do grupo. Elijah Hewson , por exemplo, já destacou a importância de The Strokes e The Smashing Pumpkins em sua formação musical. A influência desta última banda aparece na relação com a melancolia e a atmosfera de canções como 1979 .

Josh Jenkinson , guitarrista principal do grupo, também encontra inspiração no indie rock e em bandas como Interpol . Em sua abordagem, as guitarras não se limitam a sustentar a harmonia: elas ajudam a construir melodias, ritmos e camadas sonoras. My Honest Face ilustra bem essa característica, com riffs que dividem espaço com a base rítmica e assumem um papel central na composição.

No baixo, Robert Keating encontra referências em grupos como The La’s , Thin Lizzy e, sobretudo, Beatles . Paul McCartne y é uma de suas principais inspirações pela criatividade com que transforma o baixo em parte ativa da composição. Essa concepção aparece nas músicas do Inhaler , nas quais o instrumento não se limita a acompanhar as guitarras, mas também contribui para a construção melódica das faixas.

Ryan McMahon , por sua vez, costuma destacar influências que atravessam o repertório coletivo da banda, embora nomes como Johnny Marr, do The Smiths , e Bob Dylan também ajudem a ampliar esse universo de referências. A influência de Dylan se relaciona especialmente à atenção dedicada à composição e à narrativa, aspecto que ganha espaço em Cuts & Bruises (2023), segundo álbum de estúdio do grupo.

Músicas do Inhaler que você precisa conhecer

1. My Honest Face

Lançada originalmente em 2019, My Honest Face foi uma das primeiras músicas a chamar a atenção para o potencial do Inhaler . A faixa nasceu em um período em que os integrantes ainda tentavam descobrir sua identidade como músicos e entender como queriam se apresentar ao público. Em entrevista à Coup de Main Magazine , Elijah descreveu a canção como um retrato da ansiedade de descobrir quem se é e de encontrar a própria voz no palco aborda de maneira clara o conflito entre o desejo de aceitação e a dificuldade de manter a autenticidade, especialmente na juventude.

A letra explora como, para se encaixar, muitos jovens acabam assumindo diferentes papéis, como nos versos “ I could be Elvis on a Tuesday night ” (“Eu poderia ser o Elvis numa noite de terça-feira”, em tradução livre) e “ I could play the Joker ” (“Eu poderia interpretar o Coringa”). A energia inquieta da letra se combina a guitarras vibrantes e a um refrão feito para ser cantado em grandes apresentações. Não por acaso, a música se tornou um dos momentos mais aguardados dos shows da banda.

2. It Won’t Always Be Like This

A faixa-título do disco de estreia, It Won’t Always Be Like This (2021), representa bem a mistura de urgência, melancolia e esperança que caracteriza o primeiro momento da banda. Com guitarras expansivas e vocais intensos, a música foi escrita quando os integrantes ainda eram adolescentes, ganhando novos significados com o passar dos anos, especialmente durante a pandemia, quando a ideia de que as circunstâncias não seriam permanentes adquiriu uma dimensão coletiva.

O álbum homônimo chegou ao primeiro lugar das paradas do Reino Unido e da Irlanda em 2021. No Reino Unido, o feito fez do Inhaler o primeiro grupo irlandês em 13 anos a alcançar o topo com um disco de estreia.

3. Dublin in Ecstasy

Se a relação do U2 com Dublin é parte fundamental de sua história, Dublin in Ecstasy ajuda a compreender como o Inhaler também transforma a cidade em matéria-prima musical. A faixa foi escrita nos primeiros anos da banda e recupera a atmosfera de quando os integrantes ainda eram adolescentes, tocavam em casas de shows locais e começavam a imaginar um futuro na música.

Em entrevista à Nação da Música , Elijah explicou que a inclusão da canção no segundo álbum de estúido da banda, Cuts & Bruises (2023), foi importante justamente por representar aquela fase inicial. Para ele, a faixa funciona como uma homenagem aos primeiros anos do grupo e ajuda a dar ao álbum uma sensação de lugar e memória. É uma das músicas mais emocionantes do Inhaler , com vocais e rifes potentes que melhor traduzem a ligação entre a banda, sua cidade natal e a passagem da adolescência para a vida adulta.

4. Billy (Yeah Yeah Yeah)

Em Open Wide (2025), terceiro álbum de estúdio, o Inhaler apresenta uma sonoridade mais expansiva, aproximando o indie rock de melodias pop e grooves dançantes. Billy (Yeah Yeah Yeah) exemplifica essa transformação: com uma base rítmica pulsante e referências ao pop dos anos 1980, a faixa mostra um grupo disposto a experimentar sem abandonar o apelo das guitarras.

Produzido por Kid Harpoon , conhecido por seu trabalho com Harry Styles , Open Wide marca uma nova etapa na trajetória do quarteto. Em Billy (Yeah Yeah Yeah) , os vocais melódicos e o clima descontraído contrastam com as dúvidas e inseguranças presentes na letra, criando uma faixa leve na superfície, mas atravessada pela vulnerabilidade. A abordagem também reflete uma mudança na escrita do próprio Elijah , que passou a explorar histórias e personagens com mais frequência, em vez de se concentrar apenas em experiências pessoais e introspectivas.

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