O candidato derrotado do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, deixou o Brasil e está a caminho dos Estados Unidos, informam os jornais americanos “The New York Times” e “Washington Post” e a agência de notícias Reuters. Na segunda-feira (26), Flávio Bolsonaro havia dito que não deixaria o Brasil.
Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, o senador tinha até esta terça-feira (27), às 11h, para entregar os passaportes. O ministro atendeu a um pedido da Polícia Federal, que via risco de fuga do senador.
No fim da tarde desta terça-feira (27), o governo americano afirmou que vai conceder vistos de permanência a Flávio e à família dele.
De madrugada, o jornal argentino “Infobae” publicou que Flávio Bolsonaro teria cruzado a fronteira com a Argentina para pegar um avião particular com destino aos Estados Unidos. Mas, de acordo com a Polícia Federal, o senador não passou por nenhum ponto regular da migração brasileira. Também não há registro oficial de entrada de Flávio Bolsonaro na Argentina, segundo a Direção Nacional de Migrações, órgão da Argentina responsável pelo controle de fronteiras.
Durante toda a manhã, a assessoria e a defesa de Flávio Bolsonaro não informaram o paradeiro do senador. No meio da tarde, a agência de notícias Reuters disse que autoridades americanas afirmaram que ele havia deixado o Brasil.
No início da noite, uma autoridade do Departamento de Estado confirmou à correspondente Raquel Krähenbühl que vai conceder vistos a Flávio Bolsonaro e à família, permitindo a entrada deles no país. Durante um comício, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump voltou a levantar suspeitas sobre fraudes na eleição brasileira, sem apresentar provas.
Quase ao mesmo tempo, após uma reunião do PL em Brasília, o coordenador da campanha de Flávio à Presidência, senador Rogério Marinho, se disse surpreso com a notícia de que Flávio deixou o Brasil:
“Hoje pela manhã, quando nós fomos procurados por vários veículos de imprensa, nós tentamos contactar o Flávio, as pessoas que estavam no seu entorno. Recebi, por parte dele, uma mensagem no telefone. Mensagem de texto, onde ele dizia que iria dar um tempo hoje e que, depois, conversaria conosco e pronto. Foi a única comunicação que eu tive com ele. Acho que em torno de 8h. De lá para cá, nós não tivemos mais nenhuma informação a respeito do senador Flávio. Nós estamos surpresos. Porque, ontem, nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição, que é importante”.
A última aparição de Flávio Bolsonaro foi em um vídeo, publicado na segunda-feira (26) à tarde nas redes sociais. O senador do PL disse que tinha sido abordado por policiais federais, após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, com a intimação para a entrega dos passaportes. No vídeo, Flávio disse que não sairia do Brasil:
“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar. Mas ninguém vai me calar”.
Ainda na segunda-feira (26), pouco depois das 20h, um comboio deixou o endereço de Flávio, em Brasília.
No domingo (25) à noite, o ministro Alexandre de Moraes, do STF - Supremo Tribunal Federal, determinou que Flávio Bolsonaro entregasse os passaportes. Ele atendeu a um pedido da Polícia Federal, feito sete minutos após a divulgação do resultado das eleições. Moraes também cancelou todos os passaportes do senador, inclusive os diplomáticos, e deu prazo até as 11h desta terça-feira (27) para a entrega. Mas nem Flávio nem a defesa dele entregaram os documentos. Flávio também tem um passaporte italiano.
Agências de notícia afirmam que Flávio Bolsonaro viaja para os EUA um dia após dizer que não deixaria o Brasil
Jornal Nacional/ Reprodução
A decisão do ministro Alexandre de Moraes de pedir os passaportes de Flávio Bolsonaro foi tomada no inquérito que investiga o senador e o advogado Willer Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, com utilização de casas de apostas e plataformas de pagamento.
O caso está no Supremo porque Flávio é senador e tem foro privilegiado. Ele segue com o mandato até janeiro de 2027. Depois, ficará sem cargo eletivo pela primeira vez em 24 anos.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz são amigos e fizeram viagens juntos para o exterior, segundo relatórios da PF. No celular de Willer Tomaz, a polícia encontrou e-mails que mostram que Flávio foi cadastrado como usuário master de uma conta bancária da Alcazar, uma das empresas do advogado. Usuário master é o administrador principal de uma conta, com poderes irrestritos para movimentação de dinheiro, inclusão e exclusão de perfis.
A Alcazar está registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, no mesmo endereço de outra empresa de Willer: a Cathedral - usada para pagar viagens de férias de Flávio e da família na Europa em maio de 2025.
De acordo com a Polícia Federal, a movimentação financeira de Willer Tomaz é incompatível com as atividades econômicas do advogado. Em 2025, segundo o Ministério da Fazenda, Willer Tomaz foi a pessoa que mais depositou dinheiro em bets no país. Ele movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas. E a PF investiga se o dinheiro que o advogado perdeu, na verdade, permaneceu em estruturas empresariais dele ou retornaram por outras vias financeiras.
No pedido de apreensão dos passaportes de Flávio, a que a TV Globo teve acesso, a Polícia Federal afirmou que Willer encontra-se fora do país desde agosto, ao que tudo indica em Miami, nos Estados Unidos, sem registro de retorno, mesmo após o ministro Alexandre de Moraes ter determinado a proibição de sua saída do país e o cancelamento de todos os seus passaportes. A polícia disse que Willer Tomaz dispõe de recursos financeiros suficientes para permanecer indefinidamente no exterior, caso assim deseje.
Ao determinar a apreensão dos passaportes, Moraes viu risco concreto de fuga de Flávio Bolsonaro, apontado pela PF. Os delegados da Polícia Federal afirmaram que, em entrevista concedida recentemente nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro defendeu publicamente que o irmão Flávio Bolsonaro deixasse o país caso não fosse eleito.
A PF também afirmou que Eduardo Bolsonaro, ao que tudo indica, já mantém nos Estados Unidos estrutura voltada à permanência de longa duração e que permanece sob apuração o real destino dos recursos remetidos aos Estados Unidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, por intermédio do doleiro Antonio Freixo.
O repasse desses recursos é investigado em outro inquérito no Supremo, do qual Flávio Bolsonaro também é alvo. O inquérito apura o financiamento da produção do filme “Dark Horse”, que conta a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, por meio de repasses do banqueiro Daniel Vorcaro. Em mensagens encontradas no celular de Vorcaro, Flávio Bolsonaro aparece pedindo R$ 134 milhões para o ex-dono do Banco Master. Inicialmente, ele negou, mas depois admitiu que pediu o dinheiro para o filme sem qualquer ilegalidade.
O dinheiro de Vorcaro saiu de uma empresa ligada ao banqueiro, a Entre Investimentos, e foi para um fundo nos Estados Unidos: o Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo. A PF apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
No pedido de apreensão dos passaportes, a PF afirmou ainda que não está descartada a hipótese de que parte desses valores tenha sido destinada ao custeio da permanência de Eduardo Bolsonaro em território americano e que “diante desse quadro, mostra-se evidente o risco concreto de evasão do território nacional. Esse risco decorre da conjugação de três fatores: o expressivo poderio econômico das pessoas envolvidas nos fatos; a existência de estruturas já estabelecidas no exterior, aptas a viabilizar permanência prolongada; e a manifestação pública e direta de Eduardo Bolsonaro, recomendando ao irmão a saída do país”.
A Polícia Federal investiga, em outro inquérito, o financiamento obtido por Flávio Bolsonaro para a compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões em Brasília em 2021. Metade desse valor foi emprestado pelo BRB, o Banco de Brasília - envolvido no escândalo do Master, com taxas de juros abaixo da média praticada pelo banco.
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