Com isso, o país manteve a classificação C, mas a sustentabilidade, que mede a capacidade dos sistemas de manter o pagamento dos benefícios no longo prazo, teve uma pontuação de apenas 32,1, a quinta pior nota do levantamento nesse quesito entre os 55 sistemas avaliados. Mesmo assim, o Brasil ficou à frente de Áustria, Itália, Turquia e Argentina.

O resultado expõe um desequilíbrio entre a capacidade de oferecer proteção aos aposentados atuais e a necessidade de manter o sistema financeiramente viável para as próximas gerações. Enquanto o Brasil obteve 69,1 pontos em adequação dos benefícios e 72,6 em integridade, a avaliação de sustentabilidade ficou 37 pontos abaixo da nota de adequação.

A fragilidade ganha relevância diante do envelhecimento acelerado da população brasileira. Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de pessoas com 60 anos ou mais, que representava 15,6% da população em 2023, deverá chegar a 37,8% em 2070. Em números absolutos, o contingente de idosos passará de 33 milhões para aproximadamente 75,3 milhões nesse intervalo.

Isso significa que, nas próximas décadas, haverá uma parcela proporcionalmente menor da população em idade de trabalhar para sustentar uma quantidade crescente de aposentados. Em sistemas baseados na repartição, como o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), as contribuições dos trabalhadores e empregadores em atividade ajudam a financiar os benefícios pagos aos aposentados e pensionistas.

A pressão demográfica, portanto, tende a ampliar os desafios de financiamento, especialmente em um país marcado por informalidade no mercado de trabalho e desigualdade de renda.

Para Tiago Calçada, diretor de Investments and Retirement da Marsh Brasil, o resultado evidencia a necessidade de mudanças que conciliem a proteção dos atuais beneficiários com a sustentabilidade futura. “Em 2026, o Brasil avançou de forma moderada no estudo, alcançando 57,0 pontos e mantendo a classificação C. O resultado reforça um quadro em que o sistema apresenta bases relevantes em adequação e integridade, mas ainda enfrenta um desafio importante em sustentabilidade”, afirma. Segundo o executivo, a agenda previdenciária precisa considerar reformas consistentes, ampliação da cobertura e fortalecimento da poupança de longo prazo.

Essa nota de 57 pontos em 2026 representou um avanço de apenas 0,8 ponto em relação a 2025 e, apesar de manter a classificação C, indica que o desempenho não foi uniforme entre os três componentes do índice. A pontuação em adequação caiu de 70,6 para 69,1, enquanto a sustentabilidade subiu de 31,8 para 32,1. Já a integridade, que considera aspectos de governança, regulação e proteção dos participantes, avançou de 67,3 para 72,6. Na prática, a maior melhora ocorreu nos aspectos institucionais avaliados pela pesquisa, e não na capacidade de financiar os benefícios no longo prazo.

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O Brasil também ficou abaixo da média de 62,6 pontos registrada pelos nove países latino-americanos incluídos no levantamento. O Chile lidera a região, com 79,2 pontos e classificação B+, seguido por México, com 71,2, e Uruguai, com 69,7. Colômbia, com 63,3, Panamá, com 62, e República Dominicana, com 61,4. Todos superam a pontuação brasileira. Na outra ponta, a Argentina recebeu 43,7 pontos e classificação D, a menor nota entre os países avaliados pelo estudo.

Na média latino-americana, a adequação dos benefícios recebeu 66,5 pontos, contra 52,1 em sustentabilidade. Os números demonstram que a dificuldade de conciliar proteção social e financiamento de longo prazo não é exclusiva do sistema brasileiro, embora o país apresente uma situação mais desfavorável.

“Os sistemas previdenciários da América Latina estão em um ponto de inflexão. Embora vários países mostrem capacidade de oferecer benefícios adequados, a sustentabilidade continua sendo o desafio crítico que define o futuro de milhões de aposentados”, afirma Leonardo Lara, líder de Investments and Retirement da Marsh México e América Latina.

A pesquisa recomenda três frentes de ação para os países da região: ampliar a inclusão dos trabalhadores informais, criar maior flexibilidade nas regras de aposentadoria e estimular mecanismos complementares de poupança de longo prazo.

O desafio brasileiro está diretamente ligado a uma transformação demográfica que ocorre em diferentes velocidades pelo mundo. As projeções do IBGE indicam que a população do país deverá parar de crescer em 2041, quando alcançará aproximadamente 220,4 milhões de habitantes. A partir daí, a tendência será de redução populacional, acompanhada de aumento da proporção de idosos.

A taxa de fecundidade brasileira caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023, abaixo do nível necessário para a reposição populacional no longo prazo. A combinação de menos nascimentos com maior longevidade altera a relação entre contribuintes e beneficiários da Previdência.

Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), baseado nas projeções do IBGE, estima que a relação entre pessoas de 15 a 59 anos e idosos de 60 anos ou mais, utilizada como aproximação demográfica da relação entre potenciais contribuintes e beneficiários, deverá cair de cerca de quatro para um em 2024 para apenas 1,3 para um em 2070.

Essa relação não corresponde ao número efetivo de trabalhadores que contribuem para o INSS por aposentado, mas ilustra a dimensão da mudança demográfica. A tendência reforça a importância da formalização do emprego, do crescimento da produtividade e de mecanismos complementares de poupança para aposentadoria.

Países Baixos no topo

Entre os 55 sistemas avaliados, os Países Baixos receberam a maior pontuação geral, com 85,8 pontos, seguidos por Dinamarca, com 84,1, e Islândia, com 84. Singapura e Israel completam os cinco primeiros colocados.

O levantamento considera três dimensões principais: adequação, que avalia a capacidade de proporcionar renda aos aposentados; sustentabilidade, relacionada à viabilidade de longo prazo; e integridade, que abrange aspectos de governança, regulação e confiança no sistema.

Os países mais bem avaliados tendem a combinar diferentes fontes de financiamento, regras de governança e mecanismos de proteção, embora não exista um modelo único aplicável a todas as economias.

O índice é elaborado pela Marsh e pelo CFA Institute, com apoio do Centro de Estudos Financeiros da Universidade Monash, na Austrália. A edição de 2026 abrange sistemas que atendem aproximadamente 66% da população mundial.

Segundo Tim Jenkins, um dos autores do relatório e sócio da Marsh Investments and Retirement, mesmo os países com melhores resultados precisarão adaptar seus modelos ao aumento da longevidade e às mudanças no mercado de trabalho. “A expansão do trabalho autônomo, das atividades em tempo parcial e das trajetórias profissionais menos lineares também desafia sistemas construídos em torno de carreiras formais e contribuições contínuas.”

A questão não é apenas garantir que os trabalhadores de hoje consigam se aposentar, mas assegurar que as próximas gerações encontrem um sistema capaz de pagar benefícios sem ampliar continuamente suas dificuldades de financiamento.

Ranking mundial dos sistemas de aposentadoria em 2026

(Pontuação de 0 a 100 | Índice Marsh CFA Institute)

Posição País Pontuação Conceito 1º Países Baixos 85,8 A 2º Dinamarca 84,1 A 3º Islândia 84,0 A 4º Singapura 82,0 A 5º Israel 81,9 A 6º Austrália 80,6 A 7º Chile 79,2 B+ 8º Suécia 78,8 B+ 9º Finlândia 77,6 B+ 10º Noruega 77,0 B+ … … … … 40º Namíbia 57,5 C 41º Itália 57,4 C 44º* Brasil 57,0 C

Fonte: Marsh CFA Institute Global Pension Index 2026.

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