# Antes dos carros dos Correios, dois jumentos entregavam cartas e salários em vilarejo da Itália; neta de antigo carteiro revela como era a rotina

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/noticias/antes-dos-carros-dos-correios-dois-jumentos-entregavam-cartas-e-salarios-em-vilarejo-da-italia-neta-de-antigo-carteiro-revela-como-era-a-rotina/)
- Publicado em: 2026-10-28T12:03:11.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1399667-antes-dos-carros-dos-correios-dois-jumentos-entregavam-cartas-e-salarios-em

> Os dois animais transportavam também envelopes de salário, detalhe que elevava a responsabilidade de cada ronda no vilarejo. Ilustração criada com Inteligência Artificial

Os jumentos Biagio e Oreste saíam carregados de sacolas com cartas e envelopes de pagamento e percorriam os trechos de pedra que ligavam as casas espalhadas de um vilarejo da Sardenha, a grande ilha italiana no Mediterrâneo ocidental, numa época em que o serviço postal local ainda dependia de animais de carga para vencer o relevo acidentado e a ausência de estradas regulares.

O senhor Giuseppe, dono dos dois animais, organizava a saída e acompanhava o trajeto, e a rotina ficou gravada na memória da neta Valeria, hoje com sessenta e oito anos, que o avô chamava de Valerietta e que, mesmo morando no Vêneto, região do norte da Itália, continua a associar o amanhecer e o lago artificial à vista da janela com a ilha onde cresceu.

A reportagem publicada por La Stampa reconstitui esse fio a partir do relato dela e de uma fotografia de época em que o avô aparece ao lado de um dos jumentos postais, imagem que reabre o interesse italiano por um ofício já desaparecido naquele trecho da costa.

Valeria descreve a Sardenha da infância como um território em que a distância entre o porto, a estação e as casas do interior se media em horas de caminhada ou de viagem curta de trem, e não em minutos de carro.

Carbonia, cidade do sudoeste da ilha ligada historicamente à mineração de carvão, era o ponto a que ela se deslocava de trem todos os dias para concluir o ensino médio, enquanto aguardava a chance de deixar a ilha para estudar enfermagem.

O pai, homem de formação austera, recusou a primeira vez o pedido da filha para estudar fora, argumentando que se tratava de uma mulher, e a negativa prolongou a rotina de ida e volta até que, anos depois, o mesmo pai aceitou a matrícula na escola de enfermagem sob a condição de que a formação ocorresse em local combinado.

O episódio da autorização tardia aparece no relato como o momento em que a jovem finalmente pôde deixar a ilha, mas a memória que ela escolhe reter com mais nitidez não é só a da partida: é a dos jumentos Biagio e Oreste a caminho com a mala postal e com os envelopes que continham o salário de trabalhadores que dependiam daquela entrega para fechar o mês.

A função postal dos jumentos no vilarejo isolado

Biagio e Oreste não eram mascotes nem animais de passeio. Cumpriam o papel de carteiros de fato, transportando correspondência oficial e particular e, em dias determinados, os valores que a administração ou as empresas locais destinavam aos empregados.

Em vilarejos da Sardenha de meados do século passado, o relevo de morros, o calçamento irregular e a escassez de veículos motorizados tornavam o jumento a solução mais estável para percursos curtos e médios. O animal aguenta carga proporcional ao porte, mantém o equilíbrio em lajes de pedra e exige menos manutenção que um cavalo em terrenos secos.

Giuseppe preparava as sacolas, distribuía o peso entre os dois jumentos e seguia o itinerário conhecido pelos moradores, de modo que a chegada dos animais funcionava como sinal de que o correio do dia havia entrado no povoado.

A entrega de salários elevava a responsabilidade do trajeto: o extravio de um envelope significava atraso no pagamento de famílias inteiras, e por isso o cuidado com a amarração e com a escolta era parte da rotina descrita pela neta. A fotografia de época mostra Giuseppe ao lado de um dos jumentos já ajaezado, a postura do homem e do animal sugerindo o instante anterior à saída ou o retorno depois da ronda.

Valeria guarda a imagem como prova material de um ofício que a modernização viária e a motorização do correio italiano foram extinguindo nas décadas seguintes.

Quando as estradas chegaram com mais regularidade e as vans postais passaram a cobrir os mesmos trechos, Biagio e Oreste deixaram de ser necessários naquela função, mas o registro familiar preservou o nome dos dois e a associação direta entre o lombo dos animais e a chegada do dinheiro e das cartas.

A neta, ao recontar o episódio décadas depois, não trata o passado como folclore decorativo: trata-o como infraestrutura concreta de um tempo em que a comunicação escrita e o pagamento do trabalho dependiam de um elo vivo entre o centro administrativo e as casas dispersas.

A neta que deixou a ilha e levou a memória dos animais

Valeria insiste que quem nasce numa ilha permanece isolana no modo de sentir o espaço, mesmo depois de adotar o norte da Itália como residência. Do Vêneto ela observa um lago com plantas aquáticas e associa o ciclo de luz da manhã e do fim de tarde à paisagem sarda que deixou aos vinte e um anos, quando a fome de estudo e de independência superou a resistência paterna.

O trajeto diário de trem até Carbonia serviu de ensaio para a saída maior: a jovem acumulava o desejo de ver além da ilha e, ao mesmo tempo, absorvia o ritmo de uma comunidade em que o avô e os jumentos ainda eram peça reconhecida do cotidiano.

A segunda conversa com o pai, depois de concluído o ciclo escolar local, trouxe a autorização inesperada para a escola de enfermagem, e a perna trêmula e o coração na garganta que ela descreve marcam a tensão de quem dependia de um sim masculino para cruzar o mar e mudar de vida.

O deslocamento para o continente e o olhar de volta

A mudança para o continente não apagou a referência aos animais postais. Valeria fala dos jumentos com a mesma naturalidade com que fala do avô, como se Biagio e Oreste fossem extensão da figura de Giuseppe e não meros instrumentos de transporte.

A nostalgia que ela admite sentir pela água e pela ilha convive com a vida construída no Vêneto, e o relato publicado agora na imprensa italiana funciona como ponte entre a neta idosa e o público que desconhece o detalhe dos carteiros de quatro patas.

A história ganhou repercussão porque reúne três elementos raros no noticiário contemporâneo: um ofício extinto, nomes próprios dados aos animais e a entrega de salários, dimensão econômica que tira o episódio do terreno apenas pitoresco e o coloca no terreno do trabalho e da renda familiar.

Cartas, pagamentos e a confiança depositada no trajeto

Levar salários no lombo de jumentos exigia confiança mútua entre a administração, o condutor e os destinatários. O envelope com o pagamento não podia se perder nem se molhar, e o itinerário precisava ser previsível para que o trabalhador soubesse em que janela do dia o dinheiro chegaria.

Em comunidades pequenas, a figura do carteiro animal se misturava à do mensageiro conhecido pelo nome, e a falha numa entrega ecoava em conversas de porta e em atrasos de compra de mantimentos. Biagio e Oreste, ao cumprirem a ronda com regularidade, sustentavam uma rede mínima de crédito e de comunicação escrita que a ilha ainda não substituíra por outros meios.

Quando a neta evoca esses dias, o que sobressai não é a excentricidade do método, e sim a adequação dele às condições de terreno e de frota disponíveis naquele recorte da Sardenha. A correspondência comum, cartas de família e avisos oficiais, viajava nas mesmas sacolas.

Em períodos de maior isolamento, a carta era o único elo com parentes em outras partes da ilha ou no continente, e o jumento se tornava o elo físico dessa troca. Giuseppe, ao conduzir os animais, exercia uma função pública informal reconhecida pelos vizinhos, e a fotografia de época fixa esse reconhecimento num instante em que o ofício ainda fazia sentido prático.

A extinção posterior do serviço animal não apagou o valor simbólico da cena para quem cresceu vendo a saída e a volta dos dois jumentos; para Valeria, a imagem permanece como medida de um tempo em que a distância se vencia com pata e paciência, e não com motor.

O relevo sardo e a escolha do jumento como meio de carga

A Sardenha apresenta trechos de interior com caminhos estreitos, pedra solta e aclives que desaconselhavam veículos leves nas décadas em que Biagio e Oreste trabalhavam. O jumento, por porte e temperamento, adapta-se a esses percursos com menor risco de acidente e com custo de manutenção compatível com a economia local.

Alimentação simples, resistência ao calor seco e capacidade de carregar volumes distribuídos em alforjes explicam a preferência histórica pelo animal em ilhas e em regiões montanhosas do Mediterrâneo. No vilarejo de Giuseppe, a escolha não era nostalgia: era cálculo de eficiência.

Enquanto não houvesse estrada pavimentada e frota postal motorizada estável, o jumento resolvia o problema da última milha com a regularidade que a comunidade exigia para cartas e para o pagamento do trabalho.

Do ofício extinto à memória que atravessa gerações

A passagem do serviço para vans e carros postais retirou Biagio e Oreste da função, mas a neta manteve os nomes e a descrição do trajeto vivos no relato familiar.

Décadas depois, ao conceder a entrevista que alimentou a matéria italiana, Valeria devolve ao espaço público um detalhe que os arquivos oficiais raramente registram com a mesma cor: o nome próprio dos animais, a entrega de salários e a figura do avô como elo entre a administração e as casas.

A circulação da história na imprensa nacional italiana mostra que o interesse não se limita ao exotismo; há demanda por narrativas que mostrem como o trabalho e a comunicação se organizavam antes da padronização rodoviária. O jumento carteiro deixa de ser curiosidade e passa a ser peça de história social do interior sardo.

No interior do Brasil, sobretudo no sertão nordestino e em trechos de Minas Gerais e de Goiás, o jumento cumpriu durante gerações papel semelhante de transporte de carga, de água e, em períodos determinados, de malotes e encomendas quando a estrada ainda não comportava o caminhão dos Correios com regularidade.

Feiras, vilas e fazendas dependiam do animal para vencer areia, barro e serra, e a figura do jegue carregado permanece na memória coletiva de quem viveu a transição para a motocicleta e para a caminhonete. A diferença de continente e de século não apaga a lógica comum: onde o relevo e a pobreza de frota impedem o veículo a motor, o equídeo de pequeno porte sustenta a circulação de bens e de mensagens.

Relatos de carteiros rurais brasileiros das décadas de 1950 a 1980 mencionam com frequência o uso de animais em ramais que a van postal só alcançaria mais tarde, e a comparação ajuda o leitor brasileiro a situar Biagio e Oreste não como exceção pitoresca, mas como solução técnica de um problema de logística que o país também conheceu.

A valorização recente de histórias como a dos jumentos sardos coincide com um interesse mais amplo por ofícios desaparecidos e por vínculos entre humanos e animais de trabalho.

No Brasil, iniciativas de registro oral em museus regionais e em projetos de memória do sertão têm recolhido depoimentos de tropeiros, de carroceiros e de antigos funcionários dos Correios que descreveram a dependência do jumento em trechos sem asfalto.

Esses depoimentos raramente ganham o mesmo espaço que a notícia de tecnologia, mas quando aparecem reforçam a ideia de que a infraestrutura moderna se ergueu sobre camadas anteriores de esforço animal e humano.

A matéria italiana sobre Biagio e Oreste funciona, para o público brasileiro, como espelho longínquo dessa mesma camada: nomes próprios, entrega de salário e a neta que se recusa a deixar o episódio no esquecimento.

Consequências da modernização postal e o que resta do ofício

A chegada de estradas melhores e de veículos motorizados na Sardenha encerrou a necessidade prática de Biagio e Oreste como carteiros, do mesmo modo que a expansão da malha rodoviária e a frota dos Correios no Brasil reduziram o papel do jumento no transporte oficial de malotes. O que permanece é o valor documental da fotografia e do depoimento.

Valeria, ao falar do avô e dos dois animais, devolve densidade histórica a um serviço que os manuais de correio tratam apenas como etapa superada.

A consequência imediata da publicação italiana foi recolocar o tema na conversa pública do país, com leitores reconhecendo em vilarejos de outras regiões experiências parecidas de entrega a lombo de animal. Para a família, a matéria fixa em texto o que até então circulava sobretudo na oralidade doméstica. A neta não apresenta o passado como idade de ouro.

Descreve a dureza do pai, a dificuldade de estudar fora sendo mulher e a dependência de um meio de transporte lento e exposto ao tempo. Ao mesmo tempo, recusa o apagamento dos jumentos e do avô. O equilíbrio entre a crítica às limitações da época e a preservação da memória dos animais é o que dá peso ao relato.

Biagio e Oreste carregavam o que a comunidade precisava receber para funcionar, e a regularidade dessa carga sustentava relações de trabalho e de parentesco que a carta e o envelope de pagamento tornavam concretas.

Quando o serviço se modernizou, a eficiência aumentou, mas a face reconhecível do carteiro de quatro patas saiu de cena, e só o arquivo familiar e a disposição da neta de falar impediram que os nomes se perdessem por completo.

Em regiões brasileiras onde o jumento ainda circula em feiras e em propriedades rurais, a história sarda serve de lembrete de que o animal já foi elo de Estado e de empresa, e não apenas de uso particular.

Políticas de bem-estar animal e de manejo de populações de equídeos no Nordeste lidam hoje com abandono e com excesso de animais em algumas cidades, problema distinto do ofício postal do século passado, mas que dialoga com a mesma espécie e com a mesma carga simbólica de resistência e de trabalho.

A matéria sobre Biagio e Oreste não resolve essas questões locais; oferece, porém, um ponto de comparação limpo, sem metáfora forçada, sobre o que significa depender de um animal para que o salário e a carta cheguem ao destino. O leitor que conhece o sertão reconhece o mecanismo; o leitor urbano entende, pela via do exemplo italiano, por que o jumento ocupou por tanto tempo o centro da logística miúda.

Valeria encerra o arco pessoal no Vêneto, diante do lago e das plantas aquáticas, com a Sardenha intacta na memória afetiva e com os jumentos nomeados como parte da biografia do avô. O ofício acabou, a ilha mudou, a neta envelheceu, e ainda assim a combinação de cartas, salários e patas sobre pedra continua a produzir reconhecimento quando reaparece na imprensa.

A história que circulou na Itália ganha, no Brasil, o estatuto de reportagem sobre trabalho animal e sobre memória familiar, sem necessidade de enfeite. Biagio e Oreste cumpriram a ronda, Giuseppe organizou a saída, Valeria guardou os nomes, e o registro público devolve ao presente a medida exata daquela dependência.

O restante é consequência de um tempo em que a distância se media pelo passo do jumento e pela confiança de que o envelope de pagamento chegaria inteiro do outro lado do caminho de pedra.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/noticias/antes-dos-carros-dos-correios-dois-jumentos-entregavam-cartas-e-salarios-em-vilarejo-da-italia-neta-de-antigo-carteiro-revela-como-era-a-rotina/

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