# Lula 4: como o governo pretende lidar com Trump e reconstruir a relação com os EUA

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/politica/lula-4-como-o-governo-pretende-lidar-com-trump-e-reconstruir-a-relacao-com-os-eua/)
- Publicado em: 2026-10-28T12:14:09.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1400086-lula-4-como-o-governo-pretende-lidar-com-trump-e-reconstruir-a-relacao-com-os

> O terceiro mandato do presidente Lula (PT) foi marcado por idas e vindas na relação do Brasil com os Estados Unidos. Se, em 2023, os países compartilhavam uma agenda comum em temas como a pauta ambiental, a volta de Donald Trump ao poder,…

Reeleito com um discurso que denunciou, entre outras iniciativas, interferência estrangeira nas eleições de 2026, Lula parte para o seu quarto mandato apostando em uma relação pragmática com Washington.

Independentemente, inclusive, do resultado das eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para a próxima terça-feira (3), cujas pesquisas apontam que Trump deve perder maioria em pelo menos uma das Casas do Congresso .

EUA: foco na cooperação

Não é novidade que a relação com Trump, neste momento, é um campo minado. De 2025 para cá, a política externa americana passou a ser a política externa Trump. Tamanha dificuldade vale não só para o Brasil, mas para aliados históricos dos EUA, como boa parte dos países da Europa ocidental.

Antes conhecido pela estabilidade institucional, o Departamento de Estado dos EUA, sob a égide do seu secretário de Estado, Marco Rubio, passou a ser fonte de incerteza. O que antes era parceria estratégica, passou a ser entendido como ameaça mais explícita. Essa mudança de praxis diplomática tem alterado os cálculos de diplomatas habituados às mais diferentes instâncias de negociação.

No caso brasileiro, o Planalto considera que o pragmatismo deve prosperar, em primeiro lugar, motivado pela necessidade inerente que Brasil e EUA têm um do outro, em termos de comércio, cooperação e defesa. Internamente, o Ministério das Relações Exteriores reconhece que os dois países têm, neste momento, entendimentos distintos sobre multilateralismo e relações bilaterais, mas que é possível navegar bem nas pautas comuns.

Uma delas é a segurança pública. Washington já conseguiu agregar boa parte dos países do entorno estratégico brasileiro ao Escudo das Américas, a aliança criada por Trump para tratar da segurança em países da região, mas o Brasil é uma das exceções. Internamente, há consenso no governo brasileiro de que o país não vai aderir à iniciativa. O que não significa dizer que a pauta estará em segundo plano, e que o Brasil não tem se movimentado para ampliar a cooperação com outros países.

Eleições em Israel: o peso geopolítico para Trump, Irã, Cisjordânia e Gaza

O mandatário dos EUA vem associando a reeleição do premiê israelense à retomada da guerra contra o Irã, que os dois países deflagraram em fevereiro

Exemplo disso passa pelo Chile, governado por José Antonio Kast, da direita. O presidente chileno foi um dos primeiros nomes a entrar em contato com Lula para parabenizar o mandatário brasileiro pela vitória no segundo turno do domingo (25). Há expectativa para que, no médio prazo, Brasil e Chile avancem em uma agenda conjunta em prol do combate às ações de organizações criminosas.

Mesmo entre os governos de direita da região , há relativa incerteza sobre o que Washington pretende, na prática, com o Escudo das Américas. Embora lideranças como Javier Milei, da Argentina, sejam mais abertamente afeitas ao discurso encampado por Trump sobre o tema, outras, como o próprio Kast, Rodrigo Paz (Bolívia), Daniel Noboa (Equador) e Keiko Fujimori (Peru), sabem da necessidade de estabelecer uma boa relação com o Brasil governado por Lula. Outro ativo brasileiro importante está na figura de Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol desde 2024.

Já nesta semana, Trump foi dúbio a respeito das eleições de 2026. Em fala de improviso , ensaiou uma crítica, sem provas, a supostas fraudes no pleito. Por outro lado, disse que tinha uma boa relação com Lula.

O que quer Trump, afinal?

O Planalto acredita que a fala de Trump foi uma manifestação pro forma à ala mais radicalizada da Casa Branca, sem grandes consequências práticas, ao menos por ora. Brasília não respondeu às palavras do presidente americano.

Não se sabe se Trump mergulhará mesmo em uma postura acusatória contra a eleição brasileira, e será possível compreender melhor o quadro com a chegada de Flávio Bolsonaro aos EUA. O candidato derrotado saiu do país após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a apreensão dos seus passaportes.

Apesar disso, o governo brasileiro conta com o reconhecimento amplo feito pela comunidade internacional, e por relatórios como os do Carter Center, que respaldam os resultados de domingo.

Na receita do pragmatismo, há um fator político. A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) no pleito de domingo é visto como um recrudescimento do poder de articulação da própria família Bolsonaro frente a nomes fortes do governo Trump.

Nomes como o de Flávio, o de Eduardo Bolsonaro e o do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) já não geram mais expectativa de poder no Brasil. Na prática, a realidade concreta a ser encarada por Washington é que Lula foi eleito com boa margem no pleito brasileiro, e eventual tentativa de desestabilização, assumindo as premissas de um discurso mais abertamente bolsonarista, seria uma maneira inadequada de investir capital político e diplomático.

O esforço diplomático no Lula 4 deve considerar, também, a necessidade de repactuar a conexão com os EUA, sabendo, também, que se trata de uma via de mão dupla.

O Planalto considera que o engajamento deve ser mútuo, e espera sinalizações da Casa Branca. Não há, internamente, receio a negociações com o governo Trump sobre tópicos como terras raras, minerais críticos e tarifas comerciais. Tudo vai depender se Washington fará prevalecer o impulso mais puramente ideológico ou os ditames da objetividade.

China: norte da política externa brasileira?

Principal parceira comercial do Brasil desde 2009, a China é uma das prioridades da política externa brasileira . Nem a postura mais hostil do governo Bolsonaro [2019-2022] em relação a Pequim foi capaz de desmantelar os aspectos sólidos dessa relação, apesar das turbulências causadas.

Na esteira da boa relação do Brasil com a China, o governo Lula deverá ampliar, também, a atenção do Brasil ao Sudeste asiático. O petista deverá reforçar a política de inserção brasileira na Ásia. Participando, já no final deste ano, da reunião de cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), marcada para meados de novembro, em Manila, nas Filipinas.

Abrir o arco para países como Indonésia, Paquistão, Singapura e Coreia do Sul foi uma das marcas já em Lula 3, de olho nos mercados em ascensão no Oriente. Um dos desafios passará por saber se a calibração dessa aposta fará o Brasil diminuir a dependência da China, sem criar contratempos com Pequim.

Nesta terça-feira (27), o presidente Xi Jinping ligou para Lula para parabenizar pela eleição, ressaltando que a cooperação entre os dois países ganhou mais relevância global, tornando-se um “exemplo de solidariedade [&#8230;] entre os países do Sul Global&#8221;. Sinal da boa saúde diplomática entre Brasília e Pequim.

O capital também deve seguir em alta em relação ao Brics, uma das principais plataformas da política externa de todos os governos Lula. Para o Planalto, o investimento no conjunto de possibilidades que o grupo pode trazer independe de eventuais pressões vindas do governo Trump.

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