Ter uma medalha de um título do Brasileirão em casa é para poucos. Rogério Ceni pode dizer que tem duas delas sob seus domínios, as de 2007 e 2008. A primeira do tricampeonato do São Paulo, conquistada em 2006, no entanto, está com Guilherme Parra, profissional do mercado financeiro e são-paulino fanático.

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Há 20 anos, o torcedor estava entre os milhares de são-paulinos que acompanharam a vitória do São Paulo sobre o Cruzeiro por 2 a 0, no Morumbi, em 26 de novembro de 2006, dia em que o clube recebeu a taça de campeão brasileiro.

Guilherme Parra com a medalha do título do Brasileirão de 2006

— Lembro que estava na igreja, em um culto de manhã. Foi totalmente não planejado. Começamos a conversar: "Vamos ao jogo?". "Vamos!". Fomos conversando e, de repente, fomos em 13 pessoas ao Morumbi, sem planejamento nenhum. A única exigência era o lugar. Eu gosto muito de ficar na térrea do Morumbi, principalmente porque sabia que era um jogo de premiação. Não porque estivesse pensando em pegar uma medalha, nem passava pela minha cabeça alguma coisa assim — conta o torcedor em entrevista ao ge.

Guilherme Parra relembra como pegou medalha do Rogério Ceni

Como havia prometido antes do jogo, Rogério Ceni lançou sua medalha à arquibancada. Do lado oposto ao símbolo do São Paulo no Morumbi, Guilherme, inspirado no ídolo, se esticou para agarrar o objeto, que guarda com carinho até hoje.

— Primeiro eu não estava nem pensando na medalha. Quando ele começou a jogar, porque normalmente jogam camiseta, jogam luva... Inclusive, o Rogério jogou a luva, eu estiquei a mão, ela encostou na minha mão, mas passou. Até comentei com meus amigos do lado: "Caramba, quase peguei a luva! Passou na minha mão" — relembra.

— De repente, quando ele jogou a medalha, eu não olhei para nada. Pisei no braço da cadeira e tentei pular o mais alto possível. Quando fiz o movimento com a mão, a medalha simplesmente encaixou. Eu não olhei para a minha mão, trouxe para cá e não acreditava. Abri devagar e, quando vi, estava aqui.

Medalha do Rogério Ceni ficou com torcedor

A imagem do torcedor comemorando com a medalha nas mãos foi registrada pela transmissão da Globo. Na mesma hora, Guilherme começou a lidar com a fama inesperada. Enquanto posava para fotos com outros torcedores, soube que Galvão Bueno, narrador daquela partida, queria falar com ele.

— Alguns torcedores me puxavam e diziam: "A Globo quer falar com você lá, outra emissora quer falar com você ali". Tanto que, nesse meio-tempo, eu não sabia, o Galvão estava falando na TV: "Como é o nome desse menino? Quero saber. Quem souber, fala aqui para a Globo".

— Uma das entrevistas que entrou foi lá mesmo, perto do fosso. Eu lembro que, na época, tinha indícios de o Mineiro sair. Eu ficava: "Fica, Mineiro, pelo amor de Deus!". Só gritando, porque não ouvia nada.

Guilherme Parra foi estrela do Globo Esporte no dia seguinte ao título de 2006

Guilherme se tornou um dos personagens daquela comemoração. A movimentação ao seu redor foi tanta que os amigos organizaram uma estratégia para deixar o estádio em segurança. Um deles ficou responsável por levar a medalha, enquanto o torcedor saía sem o objeto.

— Tirei mais fotos com algumas pessoas e meus amigos falaram: "Olha, vai começar a ficar perigoso aqui com a medalha. Vamos embora logo". Tanto que um saiu com a medalha, não fui eu, para garantir a segurança da medalha.

No dia seguinte, Guilherme levou a medalha ao banco em que trabalhava para mostrá-la aos colegas, mas encontrou uma movimentação ainda maior. Repórteres conseguiram seu contato e marcaram entrevistas no local. A procura foi tanta que precisou da ajuda do assessor de imprensa da instituição para organizar os compromissos. O torcedor, inclusive, encerrou a edição do Globo Esporte daquela segunda-feira.

— No dia seguinte fui trabalhar e não trabalhei. Explodiram os contatos, todo mundo queria. Precisei de um assessor de imprensa do banco em que trabalhava. Nem sabia que ia precisar disso.

Guilherme Parra levou medalha ao trabalho no dia seguinte

Com o passar das semanas, a repercussão diminuiu, e Guilherme retomou sua rotina. Perto do Natal, porém, recebeu um convite inesperado do Fantástico para participar do quadro "Amigo Oculto", que reunia personalidades que haviam se destacado ao longo do ano.

— De repente, atendi uma ligação. Lembro que a moça falou: "Olha, aqui é do Fantástico". Eu falei: "Tá bom". Ela perguntou: "Você gostaria de participar do Fantástico?". Eu disse: "Tá". Aí ela falou: "Mas é do amigo oculto". Eu perguntei: "O que é isso?". Ela disse: "Deixa eu te explicar rapidamente. São as pessoas que mais se destacaram no ano. A gente junta para fazer uma distribuição de presentes".

— Eu titubeei, falei: "Não vou nisso aí". Comentei com meu irmão e ele quase acabou comigo. Disse: "Você vai!". Aí eu repensei e acabei topando.

Guilherme presenteou o ator Marcos Caruso com um livro e recebeu uma camiseta da atriz Marília Pêra.

Vinte anos depois, Guilherme Parra, hoje com 43 anos, segue cuidando da medalha como uma relíquia. Inicialmente, pensou em enquadrá-la e expô-la na sala de casa, mas preferiu mantê-la longe dos olhos de visitantes.

Guilherme Parra conta como foi parar no Amigo Oculto do Fantástico

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— Não, sabe que até falei no passado: "Nossa, vou enquadrar, com certeza". Mas pensei: "Não, quanto mais bem guardada, melhor". Não costumo comentar onde guardo, mas está bem guardada em casa.

— É questão de gestão do tesouro, né? Ninguém fica falando que tem tesouro em casa.

Desde 2006, Guilherme mantém uma promessa: nunca vender a medalha. Embora reconheça a importância da peça, não considera a possibilidade de negociá-la. Há, porém, uma exceção: devolveria o objeto imediatamente caso Rogério Ceni o pedisse de volta.

— Mantive a minha promessa de nunca nem procurar alguém para vender a medalha. Claro que não. Guardo com todo carinho. Estou com a custódia dela, o detentor dela é o Rogério. Se um dia ele me pedir, de pronta entrega eu devolvo. Mas, se ele não pedir, vou guardar com muito carinho — conta ao ge.

Apesar da ligação com o ídolo, Guilherme nunca teve a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente para agradecer, não apenas pela medalha, mas pelas alegrias que viveu como torcedor.

— Nunca consegui falar com ele pessoalmente. Até acho que seria uma oportunidade para agradecer, como são-paulino, não só pela medalha, muito mais do que pela medalha, mas por tudo que ele fez.

Os caminhos de Rogério Ceni e do São Paulo voltam a se cruzar nesta quarta-feira, às 21h30. A equipe paulista encara o Bahia, clube comandado pelo ídolo, na Arena Fonte Nova, pelo Brasileirão. Guilherme não consegue vê-lo sem um olhar de admiração.

Guilherme Parra reforça promessa de nunca vender a medalha

— Mesmo vendo ele do outro lado, é difícil ter outro sentimento que não seja de gratidão por tudo que ele fez. Ainda sonho com ele treinando o São Paulo outra vez. As vezes em que ele esteve lá, não teve uma oportunidade correta. Então, acho que todo são-paulino sonha com ele tendo mais uma chance de treinar o São Paulo.

Duas décadas depois, Guilherme ainda espera a oportunidade de encontrar Rogério pessoalmente. Mais do que mostrar a medalha que guarda desde 2006, gostaria de agradecer ao ídolo pelas conquistas com a camisa do São Paulo.

— Rogério, essa medalha aqui significa muito para mim, mas o que você fez pelo nosso time significa muito mais do que a medalha. O que posso falar é obrigado pelo que você fez, pela defesa no Mundial, por tudo, além daquele gol contra o Corinthians.

Guilherme Parra mantém relíquias daquele jogo

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