Volto a dizer que o objetivo não é condenar ou defender o uso — questão individual —, mas explicar quais são os riscos associados a ele.
Na última coluna, falamos dos efeitos imediatos; a de hoje será sobre os que podem surgir a longo prazo.
1 –Bronquite crônica
A fumaça tragada reduz o número de células dotadas de cílios na mucosa dos brônquios (essenciais para eliminar as secreções) e aumenta a proporção de células produtoras de muco.
Como consequência, tosse, expectoração e chiado no peito são os sintomas mais frequentes com o passar dos anos. Mas falta de ar, como aquela provocada pelo cigarro comum, não é mais prevalente que nos não fumantes.
Um estudo com mil participantes revelou que esses sintomas são reversíveis com a abstinência.
2 – Doença pulmonar obstrutivo-crônica (DPOC)
Embora nos fumantes de maconha pareça não haver aumento do risco de desenvolver DPOC , neles há um declínio mais pronunciado da função pulmonar que entre os não fumantes. Esse declínio é mais lento que no uso do cigarro comum.
3 – Outras doenças respiratórias
A perda de cílios e o aumento de células secretoras de muco na mucosa brônquica comprometem as defesas locais e aumentam o risco de pneumonias e de outras infecções respiratórias.
4 – Infarto do miocárdio
Um dos sinais mais claros de intoxicação aguda pelo THC é a taquicardia . Homens na faixa dos 50 anos com história de infarto de miocárdio podem apresentar as dores no peito características da angina ao fumar maconha, ainda que ocasionalmente.
Um estudo com 1.913 adultos revelou que fumar maconha regularmente, mas menos de uma vez por semana, aumenta 2,5 vezes o risco de infarto. Nos que fumam uma ou mais vezes por semana, o risco aumenta 4,2 vezes. Entretanto, nessa coorte, acompanhada por 18 anos, não houve aumento da mortalidade.
Os dados mostram que os infartos costumam ocorrer mesmo na ausência de placas nas coronárias, achados sugestivos de que são os espasmos vasculares os responsáveis pela interrupção do fluxo coronariano.
5 – AVCs
Faltam estudos, mas há relatos de AVC isquêmico em jovens na faixa dos 30 anos ou menos, em que o único fator de risco identificado foi fumar maconha. O mecanismo estaria ligado às variações da pressão arterial, às crises de hipotensão postural e aos vasoespasmos; as alterações desaparecem depois de 3 a 6 meses de abstinência.
6 – Câncer
O THC e outros canabinoides não são carcinogênicos. Há evidências, no entanto, de que as substâncias tóxicas dispersas na fumaça podem aumentar o risco de câncer nas vias aéreas, na boca , no esôfago e na bexiga .
Embora afetada pelo uso concomitante de cigarro comum e de álcool, a relação com o câncer de pulmão é mais consistente.
7 – Dependência
É um conjunto de comportamentos e de fenômenos cognitivos e fisiológicos associados ao uso repetitivo. Num dos estudos, o risco de desenvolver dependência foi de 16% naqueles que se iniciaram na adolescência. Em outro, conduzido entre os que chegaram ao uso diário, o risco subiu para 33% a 50%.
Os sintomas de abstinência costumam ser ansiedade , insônia , depressão e transtornos de apetite. A tolerância, que obriga o usuário a usar doses crescentes para obter o efeito desejado, aumenta a probabilidade de complicações que ocorrem após décadas de uso, como as doenças cardiovasculares e respiratórias.
8 – Função cognitiva
Várias publicações documentaram déficits de atenção, de aprendizado verbal e de memória nos que fazem uso regular por anos consecutivos. O comprometimento dessas funções guarda relação com a duração e a frequência do consumo, a idade do início e as doses cumulativas de THC.
A ressonância magnética mostra que o uso crônico provoca alterações no hipocampo, no córtex pré-frontal e no cerebelo.
9 – Porta de entrada
Embora alguns inquéritos populacionais tenham mostrado que fumantes de maconha têm maior probabilidade de usar cocaína e outras drogas ilícitas, nunca foi demonstrado que exista relação de causa e efeito.
The post Cannabis, toxicidade tardia first appeared on Portal Drauzio Varella .
