Peter Sawyer/Smithsonian Institution
Uma hipótese antiga sobre a origem da vida na Terra sustenta que cometas podem ter trazido do espaço moléculas importantes para o surgimento dos primeiros organismos.
Um novo estudo, porém, indica que pelo menos um dos mecanismos propostos para isso pode ter sido muito menos provável do que se imaginava.
Os resultados foram publicados na revista científica "Scientific Reports" nesta quarta-feira (28).
No artigo, pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, usaram simulações para testar se cometas poderiam ter levado à Terra, em grandes quantidades, uma molécula importante para a química que antecedeu o surgimento da vida.
Essa molécula é o cianeto de hidrogênio (HCN), que pode participar da formação de açúcares, gorduras e componentes do DNA e do RNA.
☄️ ENTENDA: Cometas contêm essa e outras moléculas orgânicas, o que há décadas alimenta a ideia de que impactos ocorridos há bilhões de anos poderiam ter ajudado a fornecer matéria-prima para a química que antecedeu o surgimento da vida.
O novo trabalho mostra, no entanto, que uma combinação muito específica de condições seria necessária para que o HCN chegasse à superfície da Terra sem ser destruído.
O cometa precisaria sobreviver à passagem pela atmosfera e atingir o planeta em velocidade e ângulo favoráveis. Mesmo assim, parte da molécula poderia ser destruída pelo calor e pela pressão gerados no impacto.
“Nossos modelos mostram que os cometas, em geral, atingem a Terra rápido demais e em ângulos muito íngremes para que essas moléculas sobrevivam ao impacto. Isso sugere que eles provavelmente não tiveram um papel importante na origem da vida”, disse ao g1 Richard Anslow, pesquisador da Universidade de Cambridge e autor do estudo.
Nas simulações feitas pelos pesquisadores, a maioria dos cenários não conseguiu produzir concentrações de HCN consideradas suficientes para alimentar as reações químicas estudadas em laboratório.
Mesmo em condições escolhidas para favorecer a hipótese, mais da metade das simulações não registrou nenhum impacto capaz de entregar a molécula na concentração analisada pelos autores.
Além disso, mesmo quando o HCN sobrevivesse ao impacto, ele poderia ser rapidamente diluído pela água presente no ambiente, reduzindo ainda mais o tempo disponível para que participasse de reações químicas relevantes.
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Agora no g1
Estudo não descarta participação dos cometas
Os próprios resultados, porém, não significam que os cometas não tenham contribuído de nenhuma forma para a origem da vida.
O estudo se concentra principalmente na entrega direta e intacta de HCN em grandes concentrações. Os autores reconhecem que não é possível excluir completamente a possibilidade de que algum impacto particularmente favorável tenha conseguido levar a molécula à Terra.
Especialistas ouvidos pelo Science Media Centre España também pedem cautela na interpretação.
O astrobiólogo César Menor Salván, professor da Universidade de Alcalá, afirma que o trabalho não demonstra que os cometas não tiveram participação no surgimento da vida.
Segundo ele, o estudo calcula que um mecanismo específico — a entrega direta de grandes quantidades de HCN intacto — seria pouco provável.
“Não devemos confundir a baixa probabilidade de um mecanismo particular com a ausência de uma contribuição cometária para a origem da vida”, afirmou ao SMC España.
Menor Salván ressalta que os cometas carregam várias outras substâncias orgânicas e que os próprios impactos também podem desencadear reações químicas e criar ambientes favoráveis a processos anteriores ao surgimento da vida.
O geólogo planetário e astrobiólogo Jesús Martínez Frías, do Instituto de Geociências da Espanha, fez uma avaliação semelhante. Para ele, o estudo apresenta simulações rigorosas, mas suas conclusões não devem ser extrapoladas para toda a possível participação dos cometas.]
Ele destaca que a pesquisa se concentra no HCN e não avalia de forma ampla outros compostos orgânicos nem o papel da água transportada por esses corpos.
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O cometa Halley fotografado em 8 de março de 1986, na Ilha de Páscoa, no Chile. Cometas como ele podem ter levado moléculas importantes à Terra primitiva, hipótese questionada pelo novo estudo.
Por que os cometas continuam importantes?
A origem da vida ainda é uma das grandes questões em aberto da ciência.
Moléculas necessárias para as primeiras reações químicas podem ter sido produzidas na própria Terra ou trazidas do espaço por cometas, asteroides e partículas de poeira. O peso de cada uma dessas fontes ainda é discutido.
O novo estudo acrescenta uma restrição importante a esse debate: para os autores, a chegada intacta de grandes quantidades de HCN por cometas teria sido extremamente rara.
Isso não elimina outras possibilidades, mas indica que a origem da vida provavelmente não pode ser explicada por um único tipo de impacto ou por uma única molécula.
Os pesquisadores também encontraram diferenças entre os planetas. Nas simulações, Marte teria sido um alvo muito mais favorável do que a Terra para a chegada de HCN intacto por cometas, principalmente por causa de sua atmosfera mais fina e das menores velocidades dos impactos.
Ainda assim, os próprios autores destacam que isso não significa que a vida tenha surgido em Marte: as simulações avaliam apenas uma etapa específica da química que poderia anteceder a vida.
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