# ‘Epifania’ transforma criação, vazio e urgências do mundo contemporâneo em nova fábula musical

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/entretenimento/epifania-transforma-criacao-vazio-e-urgencias-do-mundo-contemporaneo-em-nova-fabula-musical/)
- Publicado em: 2026-10-28T15:47:14.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1403333-epifania-transforma-criacao-vazio-e-urgencias-do-mundo-contemporaneo-em-nova

> O que acontece quando até aquilo que nasce do prazer, da curiosidade e da necessidade de criar passa a precisar de uma finalidade? É a partir dessa inquietação que nasce Epifania &#8211; Uma Fábula Moderna , novo musical original de Vitor…

Com sete atores multi-instrumentistas em cena, o espetáculo, produzido pela Encanto Artístico Produções e Girassol Produções , mistura fantasia e questões profundamente contemporâneas, como hiperconexão, FOMO, solidão, excesso de estímulos e a constante pressão por desempenho e validação, para falar sobre criatividade.

A história se passa num tempo fictício, mas que se confunde com os dias de hoje: o tempo do moderno, do consumo e da informação. Filipa, uma compositora vivida por Luiza Porto , se vê diante do destino que sempre desejou, mas a oportunidade que poderia mudar sua carreira também traz consigo uma espécie de bloqueio criativo que leva embora seu dom para a música.

Sua jornada, ao lado do vizinho Valério, interpretado por Diego Rodda , para recuperá-lo e colocar tudo nos eixos outra vez, dá origem a uma fábula épica que nos devolve ao tempo antes do tempo — quando tudo era apenas nada, um grande vazio — e ao encontro das criadoras de todos os conteúdos: as maiores, as primeiras, elas, as Primas, vividas por Anna Toledo , Marília Lopes e Aline Cunha .

O grande vazio e seu poder de se alastrar sempre encontram uma brecha. É assim desde antes de tudo e será assim enquanto houver o que há. Mas a essência nunca se engana, e uma epifania pode ser a saída para todos os problemas. Filipa só precisa criar!

Sem demonizar a tecnologia ou transformar suas provocações em discurso moralista, o musical aproxima a fábula das inquietações de uma geração permanentemente conectada. Seus personagens convivem com notificações, distrações, comparação, pressa e a sensação de que alguma coisa mais importante pode estar acontecendo em outro lugar. Ao mesmo tempo, a obra chama atenção para uma contradição cada vez mais presente: sabe-se muito sobre aquilo que acontece do outro lado do mundo e, muitas vezes, quase nada sobre quem está logo ao lado.

Esse conflito também determina a própria forma de contar a história. Marco França e Laura Castro interpretam Verso e Fábula, dois narradores que discordam continuamente sobre como a trama deveria avançar. Enquanto um quer chegar diretamente ao que considera importante, o outro reivindica o tempo da fantasia, dos começos, das imagens e da construção de uma história. Em meio a esse embate, a dramaturgia brinca com as convenções do próprio teatro e propõe uma valiosa reflexão sobre forma e conteúdo em tempos de tanta criação de conteúdo.

A música ocupa lugar central nessa construção. Os sete integrantes do elenco são multi-instrumentistas e transitam por diferentes instrumentos ao longo do espetáculo. O grupo reúne artistas que, para além da interpretação, também se dividem entre a composição, a escrita e outras frentes criativas, conduzindo uma trilha sonora original que inclui passagens instrumentais e abre espaço para que o som, o silêncio e o tempo também conduzam a narrativa, sem a necessidade permanente da palavra.

Essa ideia se estende visualmente ao palco. É a partir desse espaço vazio que ambientes e imagens vão sendo construídos diante do público, em uma concepção que acompanha a própria origem da história: tudo começa no nada, a partir da página em branco, e ganha forma por meio da criação. A direção de movimento é de Fabrício Licursi , enquanto os arranjos musicais são assinados por Marco França .

Epifania marca também um novo momento autoral na trajetória de Vitor Rocha . Premiado por trabalhos no teatro musical e responsável por títulos que ganharam diferentes temporadas e montagens dentro e fora do país, o artista chega com a obra ao décimo espetáculo de sua autoria encenado e retorna a uma criação inteiramente própria depois de cerca de dois anos dedicados também à retomada de trabalhos anteriores e a projetos desenvolvidos para outros contextos. Embora Filipa seja uma compositora, e não uma dramaturga, Rocha reconhece nela conflitos muito próximos daqueles que atravessaram seu próprio processo criativo.

“Eu acho que nunca fiz um espetáculo tão pessoal na minha vida. É a minha cabeça aberta ali no palco, nessa história. O meu processo criativo visto de dentro” , afirma Vitor . A ideia de criar as Primas surgiu ainda em janeiro, mas foi no fim de julho que o autor decidiu transformar aquele universo em seu próximo musical. Texto, músicas e letras ganharam forma em um mergulho concentrado durante o mês de agosto e chegaram à sala de ensaio ainda abertos ao encontro com os demais criadores da montagem.

O próprio título parte dessa relação com a criação. Epifania remete ao instante de uma percepção súbita, quando algo até então disperso parece finalmente ganhar forma e sentido. Na dramaturgia de Rocha , alcançar essa essência está menos relacionado ao resultado produzido a partir de um talento do que à possibilidade de reconhecer aquilo que cada pessoa é capaz de colocar no mundo.

“Pensei muito durante esse processo: o que seria alcançar a minha essência? E acabei concluindo que a minha essência é fabulosa e fabulesca, é assim que as coisas ganham forma através de mim” , explica.

Entre fantasia e realidade, Epifania transforma o vazio em possibilidade. Em vez de oferecer respostas prontas sobre produtividade, tecnologia ou criação, o musical propõe um olhar para aquilo que pode desaparecer quando todas as experiências passam a ser medidas por resultado, velocidade ou utilidade. E para o que talvez ainda possa nascer quando existe espaço suficiente para que uma fagulha permaneça acesa.

Epifania &#8211; Uma Fábula Moderna

Estreia: 28 de outubro de 2026

Temporada: até 17 de dezembro

Sessões: quartas e quintas às 20h

Local: Teatro Estúdio Rua Conselheiro Nébias, 891 &#8211; Campos Elíseos, São Paulo &#8211; SP, 01203-001

Ingressos: R$ 120,00 [inteira] R$ 60,00 [meia]

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