# ‘I Love Boosters’ aposta em fantasia delirante para construir um manifesto contra o capitalismo

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/cinema/i-love-boosters-boots-riley-critica/)
- Publicado em: 2026-10-28T15:31:06.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1403337-i-love-boosters-aposta-em-fantasia-delirante-para-construir-um-manifesto-contra

> Em I Love Boosters , o absurdo não é um mero desvio da realidade, mas uma maneira intencional de escancará-la. Em cartaz na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , o novo longa de Boots Riley transforma uma história aparentemente…

Conhecido por sua carreira como rapper, Riley estreou como diretor em 2018 com Desculpe Te Incomodar e, mais tarde, realizou a série Sou de Virgem (2023). Apostando todas as suas cartas no afrossurrealismo, o cineasta vem construindo um dos cinemas mais políticos e transgressores da Hollywood contemporânea, e alcança em I Love Boosters o ponto máximo de sua criatividade.

A história começa com um grupo de boosters liderado por Corvette ( Keke Palmer ), que entra em várias furadas ao lado de Mariah ( Taylour Paige ) e Sade ( Naomi Ackie ). Christie Smith ( Demi Moore ), por sua vez, é uma empresária rica e diretora criativa de uma marca de moda supostamente inovadora e disruptiva. Corvette sonha em se tornar estilista e enxerga em Christie uma inspiração. (Essa admiração também é parte de uma crítica maior sobre a obsessão por celebridades que a cultura do consumo alimenta).

Porém, quando Christie copia uma das criações de Corvette , as três garotas armam um plano contra a empresária — que logo sai completamente dos eixos. Elas descobrem que Christie não é tão disruptiva quanto parecia: assim como outras figuras da indústria, ela comanda um negócio sustentado pela exploração de trabalhadores. Do outro lado do mundo, na China, os funcionários da fábrica que produz suas roupas estão adoecendo sob condições degradantes e recebendo quase nada, e estão começando a se revoltar por conta disso.

É neste cenário que surge Jianhu ( Poppy Liu ), um dos destaques do longa. Líder da revolta na fábrica chinesa, ela se une às americanas para transformar o roubo de roupas em uma forma de sobrevivência e contestação do sistema.

Ao longo das duas horas de filme, o espectador é apresentado cada vez mais e mais camadas surpreendentes dessa história. O que começa como uma trama aparentemente convencional sobre furtos se transforma em uma fantasia anticapitalista delirante, recheada de ficção científica e experimentações artísticas.

A ousadia de Boots Riley não está presente apenas na narrativa do filme, mas na sua própria estrutura, que mistura live-action, stop-motion, CGI e efeitos práticos.

Sim, a descrição de I Love Boosters parece absolutamente maluca — e o filme é mesmo. Mas é a confiança total do diretor nessa maluquice que o transforma em um filme espetacular. Riley utiliza o humor e o surrealismo como ferramentas para fazer o espectador questionar o quão absurda é a própria realidade em que estamos vivendo. Com tamanha extravagância e ritmo frenético, surge um desconforto quando reconhecemos algo familiar em meio ao delírio.

Durante todo o filme, a moda ocupa um lugar central: mais do que produtos a serem vendidos, ela representa uma forma de expressão artística. Nesse sentido, os figurinos das protagonistas também simbolizam ali suas próprias formas de existir, desejar e desafiar o sistema. A apropriação desta indústria — historicamente dominada por referências brancas — por mulheres negras é uma afirmação intencional.

Há, ainda, uma crítica contundente ao individualismo. Christie encarna a figura da empresária transformada em ícone, e a admiração de Corvette por ela evidencia como o sistema capitalista não vende apenas mercadorias, mas modelos de vida e falsas promessas de ascensão individual. Enquanto isso, o filme insiste no contrário: a revolução é coletiva.

É verdade que os excessos e reviravoltas constantes de I Love Boosters , podem, em parte, saturar o espectador, mas a crítica não funcionaria da mesma maneira se fosse contida. Esse cansaço é facilmente esquecido no desfecho do longa, que dá um tom quase melancólico à essa história surrealista.

Boots Riley faz cinema à sua maneira, sem tentar simplificar suas ideias de forma a torná-las mais palatáveis ao público geral. O compromisso político do diretor e sua coragem de levá-lo até o fim são as maiores belezas do filme. Que bom que ele encontrou espaço para isso dentro da indústria cinematográfica.

I Love Boosters é um produto de seu tempo: o retrato de uma modernidade desgastada, desesperançosa e desengajada pelo próprio esgotamento do capitalismo. Mas é também uma fagulha de esperança. É o mesmo sonho antigo da luta de classes, reimaginado pelas lentes de 2026. Apesar de toda a sua fúria, esta é uma obra otimista, que acredita fielmente no poder popular e na força da arte.

Em um modelo de sociedade em que as pessoas são condicionadas a viver pelo trabalho, a possibilidade de rir, exagerar e sonhar com um futuro diferente é, por si só, um gesto de resistência. Diante de todos os absurdos do mundo que o filme expõe, talvez seja necessário imaginar formas igualmente extraordinárias de rompê-los.

I Love Boosters estreia nos cinemas brasileiros em 19 de novembro, com distribuição pela Universal Pictures . Assista ao trailer a seguir:

+++ LEIA MAIS: ‘A Margem do Rio’ confronta a hipocrisia religiosa com sexo e misticismo

O post ‘I Love Boosters’ aposta em fantasia delirante para construir um manifesto contra o capitalismo apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil .

Reportagem completa: https://rollingstone.com.br/cinema/i-love-boosters-boots-riley-critica/

— Itatiba1 (https://www.itatiba1.com.br). Notícias agregadas e traduzidas; os direitos pertencem aos veículos de origem.