Paulo Pinto/Agência Brasil

Após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (25), listas que defendem o boicote de comércios, profissionais diversos e até igrejas em todo o Espírito Santo começaram a circular nas redes sociais durante a semana.

Os nomes incluem desde boutiques, restaurantes e lojas de materiais de construção e vão até professores, camelôs, bancos, influenciadores digitais e filiais de grandes marcas.

Em Baixo Guandu, no Noroeste do estado, o pedido de um padre durante uma missa para que os fiéis repensassem o voto repercutiu nas redes sociais e dividiu opiniões sobre o posicionamento no altar.

Já em Cachoeiro de Itapemirim, na Região Sul, paróquias e até uma rádio católica foram citadas em uma lista que também foi compartilhada após as eleições de 2022, quando Lula também foi eleito. Uma fala do arcebispo da diocese da cidade também foi questionada por alguns fiéis.

Além das igrejas, comércios e empresários de diversas cidades e ramos de atuação do Espírito Santo sofreram tentativa de boicote por meio de listas e publicações nas redes sociais.

'Traição à igreja católica', diz padre

Vista parcial da cidade de Baixo Guandu, no Espírito Santo

Em missa realizada na Paróquia São Pedro, em Baixo Guandu, no Noroeste, o padre Oliveiro Felismino Rodrigues pediu aos fiéis devotos de Nossa Senhora Aparecida que refletissem sobre o voto no segundo turno eleitoral. O vídeo da fala repercutiu nas redes sociais a partir da segunda (19).

Na celebração, o religioso criticou a aproximação da família Bolsonaro com Sérgio von Helder, ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, que chutou uma imagem da santa ao vivo na televisão em 1995.

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O pároco disse que a aliança e a busca por votos no meio católico representam um desrespeito à fé e à Virgem Maria e sustentou que apoiar políticos associados a casos como esse equivale a "trair a Igreja Católica". Ele também pediu aos fiéis que repensassem suas escolhas na urna.

Após a repercussão da fala, em nota, a Comunidade Nossa Senhora Aparecida disse, no último sábado (25) véspera das eleições, que o altar deve ser "utilizado exclusivamente para fins religiosos, sem manifestações político-partidárias".

O conselho destacou ainda que a missão da Igreja é anunciar o Evangelho e promover a união, sem divisões políticas.

O g1 procurou a Diocese de Colatina, responsável pela paróquia, para um posicionamento. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Bispo citou 'ameaça à democracia'

Em pronunciamento gravado em vídeo e publicado nas redes sociais na sexta (24), representantes da Igreja Católica, como o arcebispo Dom Luiz Fernando Lisboa, da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, convocaram os fiéis a tomarem posição nas eleições "em defesa da democracia, dos direitos humanos e dos pobres".

Na mensagem, os religiosos criticaram abertamente a conduta de um dos candidatos, citando viagens aos Estados Unidos para pedir retaliação ao próprio país e a promessa de entrega de terras raras, além da oposição a programas sociais de combate à pobreza e do negacionismo das mudanças climáticas.

Em contrapartida, defenderam a escolha da candidatura "comprometida com o respeito à Constituição, ao meio ambiente e à ordem democrática".

O vídeo gerou forte reação e ataques públicos ao clero, o que motivou a Comissão Justiça e Paz da Diocese cachoeirense a publicar uma nota oficial em solidariedade ao arcebispo no sábado (25), dia anterior ao segundo turno das eleições.

Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ainda foi citada ao dizer que "denunciar atitudes contrárias à soberania nacional e à dignidade humana é um dever ético e profético da Igreja, e não propaganda partidária".

A comissão rejeitou as acusações que tentavam rotular a manifestação episcopal como 'comunismo' ou 'ideologia' e condenou o uso da fé para fomentar a polarização e a divisão entre os fiéis.

Após o caso, a lista de boicote criada na cidade em 2022 voltou a circular, contendo nomes da igreja católica local, como a Rádio Diocesana, a Catedral de São Pedro e as paróquias Nossa Senhora da Consolação e São Felipe.

Procurada pelo g1, a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim não quis se pronunciar sobre o caso.

Empresas também foram alvo

De Norte a Sul do Espírito Santo, marcas e empresas também sofreram tentativas de boicote por meio de listas divulgadas nas redes sociais que citam comércios ou comerciantes chamados de 'petistas'.

Os nomes incluem desde boutiques, restaurantes e lojas de materiais de construção e vão até professores, camelôs, bancos, influenciadores digitais e filiais de grandes marcas como Magalu, Natura e Renner.

Na capital Vitória, uma lista incluiu estabelecimentos do bairro Praia do Canto, como a Mercearia Belmiro, do comerciante Helder Belmiro. Ao g1, o proprietário afirmou que o estabelecimento é "estritamente apartidário e acolhe clientes de todas as tendências políticas com o mesmo respeito".

Agora no g1

Belmiro destacou que sua prioridade é resguardar a equipe e as famílias dependentes do negócio diante da tentativa de boicote, e relembrou que a empresa já havia enfrentado episódio semelhante nas eleições de 2022.

No entanto, ele afirmou que ainda não foi possível identificar os autores do novo levantamento nem contabilizar eventuais prejuízos causados ao comércio.

Uma loja de calçados femininos com fábrica em Colatina, no Norte do Estado, com loja localizada em Vitória, divulgou um pronunciamento nas redes sociais e informou que acionou o departamento jurídico para tomar as medidas cabíveis contra a desinformação.

"Pessoas mal-intencionadas estão nos querendo rotular como comunistas. Temos empresa, não faz nem sentido sermos comunistas", disse um dos proprietários da Amabilis, Luiz Guidoni.

Já em Cachoeiro de Itapemirim, uma lista 'reciclada' divulgada durante as eleições de 2022 voltou a circular nas redes sociais e conta até mesmo com nomes de comércios que já encerraram as atividades.

Um dos nomes é o tatuador Otávio Guimarães, que afirmou que ser citado não impactou no trabalho dele nem em 2022, nem neste ano.

"Hoje em dia, as coisas estão mais inflamadas. Nunca fui de colocar a cara na internet falando de política, mas tenho meu posicionamento. Não impactou porque, como faço tatuagem, que é uma coisa mais artística, lido com um público mais 'cabeça aberta' e não tão conservador", disse.

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