WASHINGTON, 28 Out (Reuters) – Marte é um lugar empoeirado. A ⁠poeira é espalhada pelos ventos cotidianos, por redemoinhos chamados “demônios de poeira” e por ⁠grandes tempestades de poeira em escalas local, regional e global. A poeira é um fator que precisa ‌ser levado em conta em qualquer missão tripulada a Marte, e novos dados de um rover da Nasa revelam o tamanho do desafio que ela pode representar.

O rover Perseverance da Nasa, que opera dentro e ao redor de uma área ‌chamada Cratera Jezero, no hemisfério norte marciano, desde seu pouso em 2021, detectou as partículas mais finas de poeira já registradas no vizinho planetário da Terra. Ele registrou partículas ultrafinas com largura de cerca de 100 nanômetros, aproximadamente 500 vezes mais finas que um fio de cabelo humano.

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“Um tamanho menor de partícula não torna necessariamente a poeira mais perigosa, mas partículas menores têm maior potencial de penetrar mais profundamente no corpo humano e são mais difíceis de serem eliminadas pelo organismo”, disse o ⁠cientista ‌planetário Scott VanBommel, da Universidade de Washington em St. Louis, membro da equipe científica do Perseverance e autor principal de ⁠um estudo que descreve as descobertas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Como qualquer substância, a toxicidade depende da dose e da duração. A poeira marciana contém sílica, compostos de ferro e compostos de cloro, como o perclorato, que são conhecidos por serem prejudiciais em doses suficientemente altas na Terra”, afirmou VanBommel.

O Perseverance mediu partículas de poeira que aderiram ao equipamento do rover, incluindo materiais de trajes espaciais transportados a bordo do veículo ​robótico de seis rodas, com o objetivo de observar como elas se comportam no ambiente hostil do planeta.

Medições anteriores identificaram partículas de poeira marciana com diâmetro de até cerca de 3 micrômetros. Mas o Instrumento Planetário para ​Litoquímica de Raios X (PIXL) do Perseverance registrou duas categorias de partículas ainda menores. Além das partículas ultrafinas, havia uma categoria de partículas finas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, ou 30 vezes mais finas que um fio de cabelo.

Partículas tão minúsculas poderiam ser pequenas o suficiente para penetrar nos pulmões de um astronauta, entrar na corrente sanguínea e, potencialmente, causar danos a órgãos vitais. Outra preocupação é que o ambiente marciano e as propriedades físicas da poeira possam degradar, ‌com o tempo, os materiais dos trajes espaciais e dos habitats.

Com isso em ​mente, o Perseverance transporta amostras de possíveis materiais para trajes espaciais, como a fibra sintética Vectran e o revestimento protetor Teflon, cada uma com cerca de três quartos de polegada (20 mm) de lado.

“Não temos evidências de que a poeira tenha danificado os materiais dos trajes espaciais, apenas de que ⁠os materiais tendiam a interagir com a poeira ​de maneiras diferentes”, disse VanBommel. “O ​Vectran parecia reter partículas maiores de poeira, com maior prevalência na parte inferior de sua trama. A amostra de Teflon reteve menos poeira, mas a poeira ⁠retida era mais fina, refletindo diferenças na forma como as ​propriedades eletrostáticas podem fazer com que partículas de diferentes tamanhos adiram preferencialmente a cada material.”

A Nasa pretende enviar astronautas a Marte já na década de 2030.

“Essas descobertas ajudarão a orientar o projeto de futuros sistemas de suporte humano para missões tripuladas a Marte, incluindo a escolha ​de materiais para trajes espaciais e habitats, bem como métodos de limpeza eficazes para partículas com tamanhos submicrométricos. Elas também contribuem para as diretrizes e protocolos que a Nasa estabeleceu para riscos toxicológicos”, ​disse VanBommel.

A Nasa tem experiência com os ⁠efeitos da poeira desde os pousos lunares dos astronautas da missão Apollo, de 1969 a 1972. A poeira lunar degradou as camadas externas dos trajes espaciais, ⁠danificou vedações e arranhou viseiras. Ela também pode ter sido associada a sintomas semelhantes à febre do feno em alguns astronautas.

Mas a poeira marciana difere da poeira lunar.

“Na Lua, a poeira é gerada principalmente por impactos na superfície, inclusive por micrometeoritos. Sem atmosfera ou vento para desgastá-las, as partículas lunares permanecem afiadas e angulares. A maior parte da preocupação com a poeira lunar vem de sua forma, enquanto que, no caso da poeira marciana, sua composição química e o tamanho das partículas são as principais preocupações”, declarou ​VanBommel.

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