Nas contas de Rodrigo Sgavioli, head de alocação da casa, a probabilidade de um ajuste fiscal caiu de até 70% para algo entre 20% e 30%, revisão que o mercado fez de forma abrupta. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa acionou o circuit breaker e fechou em queda de 13,88% , a maior desde março de 2020. O dólar subiu 8,21%, a R$ 5,40, e as taxas dos contratos de DI chegaram a avançar mais de 300 pontos-base. Nos dois pregões seguintes, o Ibovespa seguiu caindo até os 171 mil pontos.
Mesmo assim, Sgavioli rejeita a ideia de quatro anos perdidos para o investidor. “Não acho que vai ser mais difícil, eu acho que vai ser diferente”, afirma, em entrevista ao InfoMoney. “Dá para ganhar dinheiro. Dá para ganhar bastante dinheiro até, eu diria. Só que você ganha diferente.”
O caminho, segundo ele, passa por carteiras mais apoiadas no carrego do que no ganho de capital, prazos mais curtos na renda fixa e uma postura mais tática, pelo menos até que fique mais clara a dinâmica fiscal brasileira.
O fiscal no centro do preço
Na avaliação de Sgavioli, a maior parte do prêmio de risco dos ativos domésticos é dada hoje pela condução das contas públicas. Antes da eleição, a XP trabalhava com uma probabilidade de 60% a 70% de mudança na dinâmica fiscal, e alguns agentes chegavam a 90%. As urnas levaram o mercado a precificar o oposto.
“A primeira reação, exagerada ou não, foi uma reação de continuidade com uma leve deterioração adicional do fiscal brasileiro”, diz Sgavioli, ressaltando que esse é o cenário-base do mercado, e não necessariamente o da XP. A piora marginal, explica, vem dos pacotes anunciados entre o primeiro e o segundo turno, que incluem despesas obrigatórias, discricionárias e renúncias de receita e podem somar de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões adicionais na conta de 2026 e 2027.
Por isso, as próximas semanas serão decisivas para saber se o governo reeleito vai mostrar disposição de ajustar também as despesas, e não apenas a arrecadação. O receio, segundo Sgavioli, que ressalva não fazer juízo de valor, é que o presidente não parece acreditar no diagnóstico de que o fiscal é um problema.
Ele pondera que corrigir o rumo não exige desmontar programas sociais, mas controlar a velocidade de crescimento das despesas obrigatórias e rever gastos tributários e “penduricalhos” de alguns setores.
Com um plano crível, a queda dos prêmios de risco seria gradual e, num cenário otimista, permitiria sonhar com uma Selic de equilíbrio entre 9% e 10%. O cenário-base da casa, porém, aponta para a taxa entre 11,5% e 12% no fim de 2027.
Prefixado mais curto e para carregar
Três meses antes da eleição, a XP começou a aumentar a fatia de prefixados nas carteiras, movida pela desaceleração da atividade mais cedo do que o esperado e pela leitura de que o ciclo de cortes de juros e a redução do prêmio fiscal caminhariam juntos.
Com a menor chance de ajuste, a recomendação muda de tom, e para quem ainda não montou posição talvez valha entrar em prefixados com menor intensidade e prazos mais curtos . “O cenário de ajuste fiscal não está abandonado. Ele só é menos provável”, diz.
Para quem investiu entre o primeiro e o segundo turno, o especialista argumenta que um prefixado entre 13% e 14% “não é ruim para carrego”, ainda mais com a inflação rodando entre 5% e 6%. O que sai do radar é o ganho de capital com a marcação a mercado . “Não é mais o nosso cenário-base. O nosso cenário-base é carrego de prefixado.”
IPCA+ como seguro
Os títulos atrelados à inflação cumprem outra função. Uma carteira moderada da XP tem hoje entre 20% e 25% em NTN-Bs (Tesouro IPCA+), peso que reflete a chance, baixa mas crescente, de um cenário de dominância fiscal . Pelas contas do especialista, essa probabilidade era de 5% a 10% há dois anos e está hoje entre 15% e 20%.
Nesse cenário, o CDI deixa de proteger o investidor. “A política monetária tira a mão do volante e quem domina é o fiscal”, explica. A inflação pode ficar acima da curva de juros, com retorno real baixo ou até negativo, daí a preferência pelo IPCA+, sobretudo em títulos públicos. Recorrendo ao futebol, ele define o prefixado como “um atacante cauteloso” e a NTN-B como um jogador de “meio-campo para trás”.
Novas aberturas de taxa não estão descartadas, e um juro real de 8% ou 8,5% “não é impossível”, embora Sgavioli não veja a repetição de um choque como o de segunda-feira.
No planejamento financeiro de longo prazo, taxas entre IPCA+6% e IPCA+8% costumam ser suficientes, segundo ele, para levar o investidor aos seus objetivos em 10, 15 ou 20 anos, mesmo que a carteira não bata o CDI em alguns meses. “É equilibrar se você quer mais fazer feliz o seu eu do presente, batendo o CDI todo mês, versus o quanto você quer fazer feliz o seu eu do futuro.”
Bolsa menos sensível ao Ibovespa
Na Bolsa, que ele compara a um prefixado longo, o mercado “rapidamente colocou no preço bastante coisa ruim”, com possíveis exageros em alguns setores. Parte deles pode voltar à lista de preferências da casa, como utilities, infraestrutura, empresas do setor financeiro e commodities, principalmente as ligadas ao petróleo e ao agro. A ideia é reduzir o beta da carteira, ou seja, sua sensibilidade às oscilações do Ibovespa.
Sgavioli insiste ainda no que chama de “risco de não tomar risco”. Quem tem uma fatia de renda variável prevista na política de investimentos e não a cumpre fica de fora de movimentos tão rápidos quanto os deste ano. Se os fundamentos de empresas e setores não se deterioraram na mesma magnitude que os preços, talvez faça sentido rebalancear a carteira ou começar uma posição mais estrutural, aponta.
“Por ora, o horizonte encurtou”, conclui Sgavioli. Se o cenário de continuidade se confirmar, ele já tem clara a carteira a montar, com mais carrego, prazos mais curtos e estratégias de ganho de capital mais táticas, longe da lógica do buy and hold (comprar e manter por longo prazo).
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