# Presidente de rede de supermercados critica clientes que compram celulares caros, mas reclamam do preço do tomate; declaração gera debate sobre consumo

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Tribuna de Jundiaí (https://tribunadejundiai.com.br/economia/presidente-de-rede-de-supermercados-critica-clientes-que-compram-celulares-caros-mas-reclamam-do-preco-do-tomate-declaracao-gera-debate-sobre-consumo/)
- Publicado em: 2026-10-29T12:05:01.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1417017-presidente-de-rede-de-supermercados-critica-clientes-que-compram-celulares-caros

> A comparação pública do presidente da Coopérative U juntou exatamente esses dois objetos do caixa para criticar a reclamação seletiva de preço na França. Ilustração criada com Inteligência Artificial

O presidente de uma grande cooperativa de supermercados na França apontou o celular de última geração na mão do cliente e, na mesma frase, o tomate na balança do caixa para descrever o que considera um descompasso gritante no consumo do dia a dia.

Dominique Schelcher, que comanda a Coopérative U como presidente-diretor geral, afirmou na CNEWS que os mesmos clientes que carregam telefone de ponta também se queixam do aumento do preço dos tomates, condensando numa só crítica o paradoxo entre o que as famílias aceitam financiar em tecnologia e o que rejeitam com irritação na cesta de alimentos básicos.

A fala foi gravada nesta terça-feira e circulou no noticiário francês ligado a consumo e crise econômica, sem que o executivo trouxesse tabelas novas de preço do tomate ou do smartphone.

Ele usou a comparação como espelho do que observa nas lojas da rede: o aparelho que se renova a cada ciclo de lançamento convive, no mesmo carrinho e na mesma conversa de caixa, com a reclamação aberta contra a hortaliça que subiu alguns centavos. A frase não veio isolada de um ambiente de tensão.

A confiança dos lares na França aparece em patamares baixos há mais de treze anos, segundo o próprio enquadramento da cobertura, e protestos espalhados pelo país reacendem o fantasma de movimentos anteriores contra o custo de vida a poucos meses de uma eleição presidencial.

Schelcher ocupa a cadeira de comando da Coopérative U, agrupamento de comerciantes independentes que mantém hipermercados e supermercados de bandeira U em diversas regiões da França e se apresenta como rede de proximidade. Na entrevista, ele não atacou o direito de o consumidor reclamar de preço.

O alvo foi a seletividade da revolta: o mesmo perfil que absorve o custo de um aparelho celular de geração recente reage com dureza a qualquer reajuste visível em item de hortifrúti. A escolha do tomate não foi acidental.

A fruta-hortaliça funciona como termômetro barato e diário da inflação alimentar, aparece em quase toda cesta e permite ao cliente comparar de um dia para o outro o que pagou na feira ou no supermercado. O executivo enquadrou a cena dentro da crise de consumo que a rede enfrenta nas gôndolas.

Quando a confiança cai, o ticket médio se fragmenta, as promoções ganham peso e a conversa no caixa se torna mais tensa em torno de itens básicos. Ao mesmo tempo, o mercado de telefonia móvel continua a renovar linhas de aparelhos com câmeras avançadas, telas de alta taxa de atualização e planos de financiamento que diluem o valor em muitas parcelas.

A contradição que Schelcher nomeou é exatamente essa coexistência, no mesmo bolso, de um gasto de status tecnológico e de uma intolerância aguda a oscilações de preço em comida simples.

Por que a cooperativa transformou a comparação em diagnóstico de comportamento

Redes como a Coopérative U vivem da margem apertada em perecíveis e da recorrência da compra de alimentos. Quando o cliente aceita pagar mais por um telefone e recusa o mesmo raciocínio para o tomate, o varejista interpreta o gesto como sinal de que a percepção de valor se deslocou.

O aparelho carrega promessa de conexão, entretenimento, trabalho remoto e pertencimento a um ciclo de inovação. O tomate carrega apenas a função de alimento e, por isso, qualquer centavo a mais parece abuso. Schelcher traduziu esse deslocamento sem rodeios e sem números inventados, apenas com a observação de quem vê os dois produtos circularem no mesmo fluxo de loja.

A declaração também serve de resposta indireta a quem cobra das redes de supermercado o controle absoluto dos preços agrícolas.

O presidente da cooperativa lembra, pela via da provocação, que parte da pressão sobre a gôndola vem de custos de energia, transporte, mão de obra e clima, e que o consumidor final nem sempre aceita repassar esses fatores da mesma forma como aceita o preço de um lançamento de celular. A crítica, portanto, não é só moral.

É operacional: ela descreve a dificuldade de explicar reajustes de alimentos básicos a um público que já normalizou gastos elevados em eletrônicos pessoais.

Crise de confiança dos lares e o retorno do espectro de protestos de rua

O ambiente em que a frase foi dita inclui a leitura de que a confiança das famílias francesas está no pior nível em mais de treze anos e que dezenas de manifestações em várias cidades reacendem a memória dos coletes amarelos a seis meses da eleição presidencial. Nesse clima, o supermercado vira termômetro político. Cada etiqueta de preço em hortaliça, carne ou laticínio pode virar argumento de rua.

Schelcher, ao falar de tomate e telefone na mesma respiração, tentou deslocar o foco da culpa exclusiva do varejo para o conjunto de escolhas do próprio consumidor. A cobertura que registrou a entrevista também menciona a convocação de chefes de partido pelo presidente da República para discutir situação internacional e crise de energia.

O pano de fundo energético pesa sobre a cadeia alimentar porque refrigeração, estufas, transporte refrigerado e processamento industrial dependem de custos de eletricidade e combustível. Quando esses custos sobem, o tomate na prateleira sobe. O celular, por outro lado, chega ao bolso do cliente por meio de cadeias globais de componentes, montagem e marketing que operam com outra lógica de financiamento e de desejo.

O paradoxo que o executivo nomeou é, em parte, o choque entre essas duas economias dentro da mesma carteira familiar.

O tomate como símbolo barato da inflação que o cliente mede todo dia

Poucos produtos permitem ao comprador uma verificação tão imediata quanto o tomate. Ele aparece em saladas, molhos, sanduíches e pratos do dia a dia. Seu preço oscila com safra, clima, frete e demanda de verão. Quando sobe, a reclamação é instantânea porque a memória do valor da semana anterior ainda está fresca.

O telefone de última geração, ao contrário, é comprado em ciclo longo, muitas vezes parcelado, e o valor total se dilui na narrativa de necessidade profissional ou de atualização de segurança.

Schelcher explorou exatamente essa diferença de ritmo e de narrativa para dizer que a revolta seletiva distorce o debate sobre poder de compra. A cooperativa que ele dirige precisa conviver com as duas lógicas. De um lado, precisa manter perecíveis acessíveis o bastante para não perder o cliente de recorrência.

De outro, observa que o mesmo cliente sai da loja com o aparelho novo no bolso e a sensação de que foi lesado pelo quilo do tomate. A frase do presidente não resolve a inflação alimentar. Ela apenas nomeia o desconforto de quem vende os dois mundos na mesma jornada de compra e ouve apenas a metade da reclamação.

O paradoxo entre consumo de tecnologia e reação a alimentos básicos no cotidiano

O recorte mais duro da fala está no choque entre o apetite por inovação digital e a intolerância a qualquer movimento de preço na comida simples. O cliente que aceita financiar câmera de alta resolução, processador de última geração e tela brilhante recusa, no mesmo mês, o raciocínio de que o tomate também embute custo de produção, perda de safra e logística.

Essa contradição não é exclusiva da França, mas ganhou formulação pública e direta na boca de um operador de supermercado que lida com as duas pontas todo dia. A tecnologia virou extensão do corpo e do trabalho. O alimento básico virou campo de batalha simbólico contra a sensação de empobrecimento. Quando o executivo junta os dois objetos na mesma frase, ele força o ouvinte a medir o próprio carrinho. Quantas parcelas do telefone caberiam em quilos de hortaliça? Quanto do orçamento familiar já foi deslocado de comida para conectividade, streaming e aparelhos? A pergunta não vem com planilha. Vem com a observação de loja.

E é essa observação que transforma a crítica em diagnóstico de época: a sociedade que celebra o lançamento de um smartphone e, minutos depois, filma a gôndola vazia ou cara de tomate para protestar nas redes.

Como o financiamento do aparelho esconde o que a etiqueta do tomate expõe

O telefone de ponta raramente é pago à vista no valor cheio. Planos de operadoras, crediário das lojas de eletrônicos e upgrades anuais mascaram o peso total. O tomate não oferece essa anestesia. Ele cobra na hora, no quilo, sem parcelamento e sem bônus de fidelidade tecnológica. Por isso a reclamação explode no hortifrúti e se acalma na vitrine de celulares. Schelcher descreveu o efeito sem precisar de teoria elaborada. Bastou alinhar os dois produtos no mesmo sujeito gramatical: os mesmos clientes. Essa formulação importa para o varejo alimentar porque desloca parte da pressão política.

Em vez de aceitar sozinho o papel de vilão da inflação de comida, o presidente da cooperativa devolve ao consumidor a responsabilidade de olhar o conjunto do orçamento. Não se trata de negar a alta de preços agrícolas. Trata-se de recusar a narrativa em que só o supermercado é o problema enquanto o ciclo de renovação de eletrônicos segue intocado no discurso público.

Prioridades de gasto e a dificuldade de explicar margem em perecíveis

Operadores de supermercado repetem há anos que a margem em frutas, legumes e verduras é estreita e volátil. Perdas por amadurecimento, quebra de transporte e rejeição do cliente no ponto de venda corroem o ganho. Quando o preço sobe na origem, a rede precisa decidir se absorve, se repassa ou se reduz a oferta. Em qualquer dos caminhos, a reclamação chega.

O celular, no ecossistema de outra indústria, chega com campanha de desejo, fila de pré-venda e sensação de conquista. A diferença de atmosfera entre os dois atos de compra é o que Schelcher tentou condensar na frase sobre tomate e telefone de última geração. A consequência prática para a Coopérative U e para redes semelhantes é a erosão da confiança no diálogo com o cliente.

Se cada reajuste de hortaliça é lido como abuso, enquanto cada lançamento de aparelho é lido como progresso, o varejo alimentar fica sem linguagem comum para explicar custos. A crítica pública do presidente funciona, nesse sentido, como tentativa de reabrir essa linguagem. Ela pode soar provocativa, e de fato soou, mas nasce da rotina de quem ouve a mesma queixa todos os dias no mesmo corredor.

O mesmo descompasso aparece nas filas e nos caixas longe da França

A cena descrita pelo executivo francês encontra eco imediato em supermercados brasileiros, onde o cliente consulta o telefone de tela grande enquanto compara o preço do tomate, do ovo e da carne. Sem precisar inventar pesquisa ou órgão, basta observar o padrão de conversa nas filas: o aparelho novo ou recém-financiado convive com o protesto alto contra a hortaliça que subiu.

No Brasil, a cesta básica e o hortifrúti historicamente concentram a percepção de inflação do dia a dia, enquanto o mercado de smartphones cresce por meio de parcelamento longo, trade-in e planos pós-pagos que suavizam o impacto mensal. O paradoxo que Schelcher nomeou na França é, portanto, reconhecível na experiência de quem faz a feira com o mesmo bolso que paga a parcela do celular.

Redes brasileiras também lidam com a dificuldade de explicar ao consumidor por que o tomate oscila com chuva, praga, frete e energia, enquanto o discurso publicitário de tecnologia vende atualização permanente como necessidade. A reclamação seletiva não é defeito moral individual. É o resultado de duas indústrias que educam o desejo de modos opostos. Uma vende escassez e frescor perecível. A outra vende status, produtividade e pertencimento digital.

Quando as duas se encontram no mesmo carrinho, a frase do presidente da cooperativa francesa serve de atalho para nomear o mal-estar.

Governos, de um lado e de outro do Atlântico, são cobrados a intervir em preços de alimentos e a facilitar o acesso a conectividade. A tensão entre essas duas agendas aparece nas gôndolas. Políticas de crédito que facilitam a compra de eletrônicos ampliam o acesso a aparelhos. Políticas de contenção de preços agrícolas esbarram em clima, câmbio e custo de insumos.

O consumidor final vive as duas políticas no mesmo mês e, como Schelcher observou, reclama com mais força da que dói na salada do que da que dói no bolso diluído do telefone.

O que a provocação muda na conversa entre rede e cliente

Ao tornar pública a comparação, o presidente da Coopérative U arrisca irritar parte do público e, ao mesmo tempo, ganha um enquadramento claro para o debate interno das lojas. Gerentes e equipes de caixa passam a ter uma formulação pronta para o tipo de reclamação que mais se repete.

A rede, por sua vez, sinaliza ao mercado que não aceitará sozinha o papel de responsável exclusivo pela sensação de perda de poder de compra. A frase não baixa o preço do tomate. Ela altera o terreno da discussão. Para o leitor brasileiro, o valor da declaração está menos no nome do executivo e mais na nitidez do espelho.

Carregar um celular de última geração e, no mesmo movimento, tratar o tomate como abuso de preço é uma coreografia comum. Reconhecer essa coreografia não resolve a inflação de alimentos nem barateia o aparelho. Mas impede que a conversa pública continue fingindo que só um dos dois gastos existe. Schelcher, ao juntar os dois no mesmo sujeito, forçou exatamente esse reconhecimento. A cobertura original registrou a crítica sem transformar a fala em programa de governo ou em plano de preços.

Ficou o diagnóstico de quem opera supermercado: o cliente que atualiza o telefone e protesta contra a hortaliça é o mesmo, e essa identidade única expõe a seletividade do mal-estar. Em tempos de confiança baixa e de protestos de rua, a observação ganha peso político mesmo quando nasce de uma entrevista de varejo.

O tomate e o celular continuam lado a lado nas manchetes porque resumem, com objetos do cotidiano, a briga maior sobre o que a sociedade aceita pagar e o que prefere condenar.

No fim do arco, a declaração do presidente da cooperativa francesa funciona como lembrete de que o debate sobre custo de vida raramente é só sobre o item que aparece na hashtag do dia. Ele é sobre a cesta inteira, inclusive a que cabe no bolso e se conecta à internet.

Enquanto o financiamento do aparelho seguir invisível e a etiqueta do tomate seguir exposta, a reclamação continuará assimétrica. Schelcher apenas recusou-se a fingir que não via a assimetria.

A frase curta sobre telefone de última geração e preço do tomate permanece, por isso, como um dos retratos mais claros do consumo contemporâneo registrados nesta temporada de tensão econômica na França, e como um espelho útil para qualquer país em que a mesma fila de supermercado reúna os dois objetos no mesmo gesto de compra e de protesto.

Reportagem completa: https://tribunadejundiai.com.br/economia/presidente-de-rede-de-supermercados-critica-clientes-que-compram-celulares-caros-mas-reclamam-do-preco-do-tomate-declaracao-gera-debate-sobre-consumo/

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