# Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças: como a Penha tenta reconstruir a rotina após a megaoperação

- Seção: Brasil
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/10/29/da-rua-onde-corpos-foram-enfileirados-a-festa-das-criancas-como-a-penha-tenta-reconstruir-a-rotina-apos-a-megaoperacao.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-29T14:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1418422-da-rua-onde-corpos-foram-enfileirados-a-festa-das-criancas-como-a-penha-tenta

> Morador faz festa de Dia das Crianças onde corpos foram enfileirados na megaoperação

A Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, voltou a reunir crianças para brincar quase 1 ano depois de se tornar um dos símbolos da megaoperação policial que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão.

Foi para aquele espaço que corpos retirados da mata da Serra da Misericórdia foram levados e enfileirados após a ação de 28 de outubro de 2025. Desde então, a praça, que já era um ponto de encontro dos moradores, passou a carregar também a lembrança da violência.

Neste ano, moradores escolheram o local para uma festa de Dia das Crianças. A intenção era tentar reconstruir a relação da comunidade com o espaço e amenizar as memórias tristes. A festa trouxe brincadeiras de volta à praça, mas, para quem vive na região, o medo de novos confrontos continua.

📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos. Veja todas as reportagens.

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Corpos enfileirados na Praça São Lucas

Betinho Casas Novas/TV Globo

A iniciativa, chamada Infância Raiz, partiu de Celison Procópio, presidente e treinador do projeto gratuito de futebol O Melhor de Nós. Ele conversava com o presidente da associação de moradores sobre a organização de uma atividade com brincadeiras antigas.

O plano inicial era realizá-la no Campo do Ordem, mas Celison sugeriu a Praça São Lucas.

“Todo mundo que passa hoje fala: ‘É uma rua pesada’. Acho que seria legal a gente ir para esquecer um pouco”, contou.

Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças

A praça é uma referência para os moradores da Vila Cruzeiro. Aos sábados, recebe uma feira de roupas e acessórios que atrai visitantes de diferentes partes da cidade.

Depois da operação, porém, as imagens dos corpos no local marcaram a relação de muitos moradores com o espaço. Celison conta que não teve coragem de se aproximar imediatamente. Mais tarde, ao passar pela praça, viu pessoas chorando. Ele conhece moradores que perderam parentes e amigos.

As lembranças também chegaram às crianças atendidas pelo projeto de futebol. Segundo o treinador, durante cerca de uma semana, elas comentaram sobre o número de mortos e tiveram o rendimento afetado nas atividades.

“As crianças ficaram falando disso durante uma semana: ‘Vocês viram quantas pessoas morreram?’”, relatou.

A equipe conversou com os alunos e tentou explicar o que havia acontecido. Segundo Celison, as conversas ajudaram a deixá-los mais tranquilos.

Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças

Brincadeiras e pedidos por espaço de lazer

A festa foi organizada em cerca de uma semana, com a participação direta de aproximadamente 15 pessoas e a ajuda de comerciantes, empresários, amigos e outros moradores.

A programação incluiu pintura, amarelinha, pingue-pongue, futebol de rua, futevôlei, queimado, futebol de sabão, bolinha de gude, elástico e corrida do ovo.

Depois do evento, Celison recebeu mensagens de pais e mães agradecendo pela iniciativa. Também surgiram pedidos para que a rua seja fechada aos domingos e transformada em espaço de lazer para as crianças.

“Até hoje eu recebo diversas mensagens de mães e pais agradecendo por ter feito aquilo ali. Hoje eu recebo muita mensagem de pessoas pedindo para participar na próxima, para patrocinar na próxima. Isso para mim foi uma surpresa muito grande”, disse.

A proposta ainda está em discussão com a associação de moradores. Segundo o treinador, a ideia é criar uma alternativa de lazer para além do campo de futebol.

“Hoje nós não temos uma área de lazer assim para as crianças se divertirem. Nós temos o campo, mas nem todo mundo joga futebol, gosta. [...] Ter uma área para brincar de patinete, andar de bicicleta. Nossa ideia hoje é deixar aquela área para isso”, afirmou.

Celison pretende transformar a festa em uma tradição no Dia das Crianças. Ele também busca cestas básicas para uma ação de Natal, mas a iniciativa ainda não estava confirmada.

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Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças

Lembranças e medo permanecem

Para o treinador, a festa ajudou a associar a praça a um momento de alegria, embora não tenha apagado a dor das famílias atingidas pela operação.

“Muitas famílias, com certeza, quando passam ali, ainda sentem muita tristeza, mas eu acredito que o evento ajudou um pouco também”, disse.

Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças

Celison afirma que ele e outros moradores continuam com medo de novos confrontos, sem saber quando ou onde uma nova ação poderá acontecer.

“A gente sente muito medo e não sabe onde vai estar no momento”, afirmou.

Além de organizar a festa, ele coordena o Melhor de Nós, projeto gratuito de futebol que, no momento da entrevista, atendia cerca de 419 crianças e adolescentes de 4 a 16 anos, segundo o treinador. A iniciativa busca preparar os alunos para oportunidades em clubes.

Da rua onde corpos foram enfileirados à festa das crianças

Celison diz que criou o projeto para ajudar crianças a encontrar caminhos por meio do esporte.

“Nós temos muitos talentos aí dentro, mas infelizmente nós não temos projetos, pessoas que acreditam nas nossas crianças. Nós temos jogadores, nós temos artistas [...] e precisam de oportunidade”, afirmou.

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Reportagem completa: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/10/29/da-rua-onde-corpos-foram-enfileirados-a-festa-das-criancas-como-a-penha-tenta-reconstruir-a-rotina-apos-a-megaoperacao.ghtml

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