# Linha dura com PCC, escolta 24h e ameaças de morte: quem é Lincoln Gakiya, promotor do interior de SP cotado para ministério de Lula

- Seção: Brasil
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/10/29/quem-e-lincoln-gakiya-promotor-do-interior-de-sp-cotado-para-ministerio-de-lula.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-29T13:45:24.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1418435-linha-dura-com-pcc-escolta-24h-e-ameacas-de-morte-quem-e-lincoln-gakiya-promotor

> Promotor Lincoln Gakiya é cotado para Ministério da Segurança de Lula

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), em Presidente Prudente (SP), com atuação dedicada ao combate do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do país.

Seu nome voltou aos holofotes nesta semana ao ser uma das pessoas cotadas para assumir o possível Ministério da Segurança Pública no novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A atuação no combate ao grupo criminoso, que Gakiya define como “a primeira máfia do Brasil”, também tem consequências para sua vida pessoal. Há anos, o promotor vive sob escolta policial armada 24 horas por dia, devido a ameaças de morte atribuídas à facção.

A possibilidade de assumir a pasta foi levantada após um jantar na casa do advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo jurídico da campanha de Lula em São Paulo. O encontro ocorreu poucos dias antes do segundo turno das eleições. Durante a conversa, Gakiya foi questionado sobre os desafios da segurança pública e compartilhou sua experiência no enfrentamento ao crime organizado.

Segundo Marco Aurélio, não houve convite formal. O advogado afirmou que Lula ainda não havia autorizado convites, formais ou informais, para a composição da equipe. Gakiya também não comentou oficialmente a possibilidade, embora, segundo relatos sobre o encontro, tenha dito que estaria à disposição caso fosse convidado.

A eventual nomeação depende do avanço da proposta de criação do Ministério da Segurança Pública, que precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional. Outro nome mencionado para a pasta foi o do ex-ministro da Educação Camilo Santana.

Lincoln Gakiya é integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco)

Dan Agostini/Getty Images via BBC

Três décadas no Ministério Público

Natural de Presidente Prudente, Gakiya assumiu a Promotoria de Justiça no município em 1996. Ao longo da carreira, passou a atuar no combate ao crime organizado e, desde o início dos anos 2000, investiga o PCC, incluindo a atuação da facção dentro e fora dos presídios.

A presença de integrantes da cúpula do grupo na região de Presidente Prudente tornou o trabalho do promotor ainda mais sensível. Cerca de dez anos depois de sua chegada à Promotoria, lideranças do PCC foram transferidas para a região, incluindo unidades prisionais de Presidente Venceslau.

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Em entrevista ao g1, em junho de 2019, Gakiya afirmou que o pacote anticrime apresentado pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro, era, de modo geral, benéfico para as forças de segurança, especialmente por prever medidas de combate ao crime organizado e ao financiamento das facções.

Segundo informações do Senado Federal, a proposta passou por alterações no Congresso e foi sancionada com vetos pelo então presidente Jair Bolsonaro em dezembro de 2019, dando origem à Lei nº 13.964/2019. Em abril de 2021, conforme a Agência Senado, o Congresso derrubou parte dos vetos presidenciais, restabelecendo dispositivos que haviam sido retirados na sanção.

Promotor de Justiça do Gaeco, Lincoln Gakiya, de Presidente Prudente (SP)

Ministério Público do Estado de São Paulo

Transferência de Marcola e outros integrantes do PCC

Um dos episódios mais marcantes da atuação de Gakiya ocorreu em fevereiro de 2019, quando ele foi autor do pedido de transferência de 22 integrantes do PCC para penitenciárias federais de segurança máxima. Entre os transferidos estava Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como um dos principais líderes da facção.

A medida foi adotada depois que o Ministério Público identificou um plano do PCC para resgatar seus principais líderes, que estavam presos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no interior paulista.

As ameaças contra o promotor estavam entre os fatores considerados naquele contexto. Em julho do mesmo ano, durante uma revista em uma das celas da unidade prisional, foram encontradas cartas com ordens explícitas de ataques contra agentes públicos, em retaliação à transferência dos criminosos. Gakiya estava entre os alvos.

Em entrevista ao g1 em fevereiro de 2019, o promotor relatou que a escolta armada impunha restrições à sua vida social e pessoal. Ele explicou que a presença de seguranças fortemente armados constrangia outras pessoas e que também havia preocupação com a segurança em locais abertos.

Em março de 2023, ao comentar uma operação da Polícia Federal que investigava um grupo suspeito de planejar matar e sequestrar autoridades, Gakiya afirmou que convivia com ameaças havia anos e que, depois da transferência de Marcola, sua vida havia mudado radicalmente. Segundo ele, quase mensalmente surgia um plano para matá-lo.

A investigação da época apontou que o grupo planejava ataques contra servidores públicos e autoridades, incluindo homicídios e extorsão mediante sequestro. O promotor era um dos alvos.

Ameaças e isolamento

As ameaças contra Gakiya não se limitaram a 2019. Em julho daquele ano, cartas encontradas durante uma revista na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau já indicavam ordens de ataques contra agentes públicos. O promotor relatou que recebia ameaças desde pelo menos 2005, quando estava em licença-paternidade devido ao nascimento do segundo filho.

Em entrevista ao programa Conversa com Bial, em julho de 2025, ele comparou o isolamento vivido por ele e pela família à situação dos criminosos que investigou e que foram enviados ao isolamento prisional.

“De certa maneira, eu teria mandado esses criminosos para o isolamento, e eu também fui isolado junto com eles”, afirmou.

O promotor também relatou preocupação com o futuro de sua proteção. Em entrevista ao g1, em maio de 2025, disse esperar que o Estado não se esquecesse dele nem o deixasse sem escolta quando ele se aposentasse. Na ocasião, afirmou que, sem proteção, teria de deixar o Brasil.

Suspeitos alugaram casa perto da residência do promotor

Em outubro de 2025, uma investigação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil revelou um suposto plano para matar Gakiya e o então coordenador de presídios da região Oeste, Roberto Medina.

De acordo com as apurações da Operação Recon, suspeitos alugaram uma casa de alto padrão a menos de um quilômetro da residência do promotor. O imóvel teria sido usado para monitorar a rotina dele e de policiais responsáveis por sua escolta. Os investigadores suspeitavam que o grupo pretendia atacá-lo no trajeto entre casa e trabalho.

Criminosos do PCC alugaram casa a menos de 1 km de onde promotor mora para monitorar a rotina dele

A investigação começou em julho de 2025, depois da prisão de um homem por tráfico de drogas. A análise do celular dele levou os investigadores a informações sobre um possível plano contra Medina. Entre os materiais encontrados estavam fotos e vídeos do trajeto do coordenador de presídios, além de capturas de tela que indicavam o caminho habitual de Gakiya entre a residência e o trabalho.

Segundo os investigadores, a ordem para os ataques teria partido do PCC. A operação cumpriu 25 mandados de busca em cidades da região de Presidente Prudente, entre elas Presidente Prudente, Álvares Machado, Martinópolis, Pirapozinho, Presidente Venceslau, Presidente Bernardes e Santo Anastácio.

O caso reforçou a preocupação com a segurança do promotor, que já vivia sob escolta permanente havia mais de uma década.

Promotor Lincoln Gakiya fala sobre operação que mira plano do PCC para matar autoridades em SP

Reconhecimento pela atuação contra o crime organizado

Em julho de 2025, Gakiya recebeu o Colar do Mérito do Ministério Público de São Paulo, reconhecimento concedido pelo Órgão Especial do Colégio de Procuradores de Justiça. A homenagem destacou a atuação do promotor no enfrentamento ao crime organizado.

Durante a cerimônia, o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, afirmou que “o Estado tem que ser mais organizado que o crime organizado”. Ele também declarou que Gakiya contava com o apoio da chefia do Ministério Público e dos integrantes da instituição.

Promotor de Justiça do Gaeco, Lincoln Gakiya, de Presidente Prudente (SP)

Ministério Público do Estado de São Paulo

Ao receber a homenagem, o promotor afirmou que o reconhecimento reafirmava seu compromisso com o Estado de Direito e com o combate ao crime organizado. Também relembrou o início da carreira, quando acompanhava manualmente interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça a partir de sua própria casa.

Ao longo da trajetória, Gakiya participou de investigações e operações contra atividades ilegais ligadas ao PCC, incluindo as operações Sharks e Fim da Linha. A atuação do Gaeco busca identificar e combater a estrutura e o financiamento de organizações criminosas.

A experiência no combate ao crime organizado também leva Gakiya a participar de debates sobre segurança pública e articulação entre instituições. Entre os eventos, ele moderou um painel da Conferência de Consenso, sediada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que reuniu representantes brasileiros e italianos para discutir a cooperação no enfrentamento às máfias transnacionais.

O debate teve como tema “Além das Fronteiras – a experiência de Brasil e Itália por uma aliança de valores contra as máfias transnacionais”.

Além da atuação no Ministério Público, Gakiya é coautor do livro “Segurança Pública: Brasil livre das máfias”, publicado em 2025 pela Editora Contracorrente, em parceria com o jurista Walfrido Warde. A obra analisa a atuação das organizações criminosas no Brasil e apresenta propostas para combater essas estruturas, incluindo a criação de uma agência nacional antimáfia e medidas para impedir a infiltração de grupos criminosos na economia e na política.

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