Um grupo formado por comerciantes, empresários e profissionais liberais registrou um boletim de ocorrência em Araçatuba (SP) na noite de quarta-feira (28) para denunciar a circulação de uma "lista de boicote" nas redes sociais após o resultado do segundo turno das eleições de 2026, no domingo (25).
As vítimas tomaram conhecimento de que um perfil no Instagram publicou a lista com os nomes de empresas, donos de comércios e prestadores de serviços de Araçatuba e cidades vizinhas que supostamente teriam declarado apoio a Lula (PT) e sugere que consumidores deixem de frequentar os locais.
Camila Calaigian Farina (à esquerda) e Heloísa Juncal (à direita) registraram boletim de ocorrência em Araçatuba (SP)
Ainda conforme o boletim de ocorrência, as vítimas acreditam que a divulgação teve o objetivo de incentivar o boicote comercial, a perseguição política e causar prejuízos econômicos aos lojistas, além de retaliação e constrangimento público por suposto posicionamento político. Até a última atualização desta reportagem, seis profissionais compareceram à delegacia para registrar a queixa.
Questionado pelo g1, o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que, até a manhã desta quinta-feira (29), foram registradas 620 denúncias de assédio eleitoral no estado de SP e quatro na região de Araçatuba após o segundo turno. A divulgação de listas de boicote a empresários ou profissionais por suas posições políticas, por si só, não caracteriza automaticamente assédio eleitoral trabalhista. Entenda abaixo.
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A empresária Camila Calaigian Farina conta que já havia sido incluída em uma lista de boicote em 2022 e imaginava que a situação pudesse se repetir neste ano, já que costuma manifestar suas opiniões políticas nas redes sociais.
Dona do próprio estabelecimento na área da estética e beleza há dez anos, ela afirma que teme os impactos da exposição sobre o negócio e critica a possibilidade de perder clientes por causa da política.
"Até onde eu sei a gente está em uma democracia. Alguém precisa se responsabilizar, isso é desumano, isso é maldoso enquanto a gente está trabalhando. Então é claro que é preocupante, não deveria ser normal perder cliente por conta do posicionamento político”, comenta Camila.
A psicóloga Heloísa Juncal também chama a atenção para a necessidade de separar a vida profissional das convicções pessoais. Para ela, a atuação na área da saúde não deve ser associada à preferência partidária do profissional.
“Eu acho que a gente tem que pensar que quem trabalha na área da saúde não tem partido. Isso é uma coisa de dentro da casa, da vida privada da pessoa”, afirma Heloísa.
As vítimas afirmaram que não autorizaram o uso de seus nomes nem de suas empresas e que a conduta atinge diretamente a honra, a imagem e o funcionamento de suas atividades profissionais, o que gera receio de perseguições e medo de ameaças.
A ocorrência foi registrada como difamação no Plantão Policial da Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Araçatuba.
Plantão Policial da Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Araçatuba (SP)
O MPT pode atuar?
Publicações feitas por políticos e influenciadores digitais após o resultado das Eleições de 2026 passaram a defender a demissão de trabalhadores, a recusa de contratação de profissionais e o boicote a estabelecimentos que ajudaram a reeleger o presidente Lula (PT).
Os conteúdos circulam em diferentes redes sociais e coincidem com uma nova onda de denúncias recebidas pelo MPT. Embora tenham formatos diferentes, as publicações seguem uma linha comum: associam oportunidades de trabalho, relações comerciais e até ajuda em situações cotidianas ao posicionamento político de trabalhadores, prestadores de serviços e consumidores.
De acordo com o MPT, os consumidores têm liberdade para decidir onde comprar e quais empresas desejam prestigiar ou evitar. Por isso, o simples boicote a produtos, marcas ou estabelecimentos não é, em regra, objeto de atuação do Ministério Público do Trabalho.
"O MPT não é parte competente na atuação frente às listas de boicote de empresas. Não há relação de trabalho, mas entre consumidor e empresa. O MPT atua quando o empregado é ameaçado ou coagido pelo seu empregador por divergências políticas e ideológicas", explicou o órgão.
Denúncias de assédio eleitoral após o segundo turno:
Todo o interior de São Paulo: 148
Região de Araçatuba: 4
Região de São José do Rio Preto: 20
🔎 O assédio eleitoral ocorre quando uma pessoa é coagida, ameaçada, intimidada ou constrangida por causa de suas escolhas políticas, com o objetivo de influenciar seu voto ou sua manifestação política. No ambiente de trabalho, a prática pode incluir ameaças de demissão, promessas de benefícios, humilhações ou retaliações contra trabalhadores por suas preferências eleitorais. A conduta pode ocorrer presencialmente ou por meios digitais, como grupos de mensagens e canais corporativos.
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